Funk e maconha: desafiando preconceitos e estigmas sociais

Funk e a erva. Arte: Bem Bolado.

Dois elementos associados à cultura negra e periférica, o funk e a maconha caminham juntos na luta contra o racismo

O uso da maconha é, historicamente, atrelado à cultura negra e periférica, bem como outras expressões culturais criadas pelo movimento negro, como o samba, a capoeira e as religiões de matriz africana. 

Todas as manifestações citadas acima já foram criminalizadas no passado, e a maconha permanece proibida até hoje. Não diferente disso, o funk carioca, originado nas favelas do Rio de Janeiro, é um gênero musical que sofre represália principalmente por suas letras que transmitem as experiências e realidades das periferias.

Em 2017, um projeto de lei que pedia a criminalização do funk teve mais de 20 mil assinaturas. A proposta, posteriormente rejeitada pelo Senado, dizia que é sabido pelos brasileiros e, inclusive, difundido pelos meios de comunicação e internet que o funk configura “crime de saúde pública”, contra a criança, o adolescente e a família. 

A estreita relação entre a maconha e o funk

É comum que MCs relatem o uso de maconha em suas letras, ou até mesmo compartilhem o uso da erva em suas redes sociais. Desde as clássicas lendas do funk, como Mr. Catra, Mc Felipe Boladão e Mc Daleste, ou nomes mais atuais, como Mc Hariel, Mc Kevin e Mc Davi, a maconha sempre marcou presença nos bailes, seja nas músicas ou perfumando o ambiente. 

Sendo uma manifestação cultural das massas, principalmente da juventude negra e periférica, a presença da maconha nas letras pode ser entendida como uma forma de autenticidade, uma maneira de retratar a realidade vivida e, ao mesmo tempo, desafiar estigmas e preconceitos. 

Antes de seu falecimento, Mc Kevin chegou a ser preso, junto ao amigo Mc Hariel, por fumar haxixe num quarto de hotel. Após participar de audiência sobre os efeitos das drogas no organismo e ser advertido pelo Juizado Especial Criminal, Kevin desabafou nas redes sociais: “Não faço mal pra ninguém. Nunca matei, nunca roubei. Vergonha é roubar, vergonha não é fumar maconha”.

Criminalização do funk

Para além da relação cultural, o funk também se aproxima da maconha quando o assunto é proibicionismo: uma das estratégias para criminalizar o gênero musical é associá-lo ao tráfico de drogas. Um bom exemplo é o caso do DJ Renan da Penha, que foi preso sob a acusação de promover bailes para a venda de entorpecentes, e depois liberado por ausência de provas. 

Os bailes são criminalizados pelo Projeto de Lei 1134/2023. Ainda assim, eles são algumas das únicas opções de entretenimento para a maioria dos jovens periféricos, e a sua criminalização não é a solução ideal para solucionar o problema do uso de drogas por adolescentes. 

Sem dúvidas, uma nova política de drogas associada a uma estratégia de conscientização e redução de danos, além de investimentos na educação, saúde pública, segurança e cultura para a sociedade como um todo — principalmente nas favelas —, seria uma forma mais justa de promover a segurança dos jovens, sem criminalizar determinados grupos e manifestações culturais. 

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