Vai-Vai é perseguida por retratar como demônio polícia que promove genocídio da população negra

Foto mostra um dos policiais-demônios da ala "Sobrevivendo no Inferno" da Vai-Vai.

Uma das principais escolas de samba de São Paulo, a Vai-Vai está sendo alvo de políticos extremo-direitistas por criticar a violência policial

O desfile deste ano da Escola de Samba Vai-Vai, maior campeã do Carnaval de São Paulo, mexeu com os ânimos de deputados da extrema-direita ao desempenhar um papel de crítica social sobre a realidade da atuação da Polícia Militar paulista nas últimas décadas: a violência institucional contra a população negra e periférica.

Em seu desfile no Sambódromo do Anhembi, a Vai-Vai apresentou uma ala formada por pessoas fantasiadas de policiais do Batalhão de Choque com chifres e asas vermelho-alaranjados, aludindo a demônios. A letra do samba-enredo, por sua vez, foi um manifesto contundente contra o racismo.

A crítica aos policiais militares enfureceu políticos extremo-direitistas, como o deputado federal Capitão Augusto e a deputada estadual Dani Alonso, ambos do Partido Liberal de São Paulo, que enviaram ofícios ao governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e ao prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), solicitando que a Vai-Vai seja punida por “desrespeitar” a polícia. Os parlamentares pedem que a escola seja impedida de receber verbas públicas no próximo ano.

“Proponho que a escola de samba Vai-Vai seja proibida de receber qualquer forma de recurso público no próximo ano fiscal, como forma de sanção pela conduta irresponsável e ofensiva demonstrada. Tal medida não apenas servirá de punição apropriada, mas também como um claro sinal de que ofensas contra as instituições e profissionais de segurança não serão toleradas em nosso estado”, diz o documento redigido pelo deputado federal.

Capitão Augusto, policial militar e armamentista, ainda insinua que a escola de samba tem ligação com o crime organizado. “A situação é ainda mais agravada pelas revelações de possíveis ligações entre a referida escola de samba e organizações criminosas, incluindo a facção PCC”, escreveu o parlamentar, sem apresentar qualquer prova para a afirmação.

A Vai-Vai foi a primeira escola a desfilar na avenida do Anhembi, na noite de sábado (10), com uma homenagem ao hip-hop, expressão artística oriunda do povo negro e periférico. O tema do samba-enredo foi “Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano”, em referência ao álbum dos Racionais MC’s Sobrevivendo no Inferno, que foi o nome dado à ala dos policiais demônios.

Com vários ícones do hip-hop e do movimento antirracista, como Negra Li, Mano Brown, Thaide, Gloria Groove e até o ministro dos direitos humanos Silvio de Almeida, o desfile foi marcado por referências à luta contra o racismo, desde o enredo que mandava tacar “fogo na estrutura” até os efeitos de chamas e fumaça na escultura de Borba Gato e uma placa no carro alegórico com a frase “fogo nos racistas”.

Carro “Manifesto Paulistano: Ressignificando São Paulo”. Imagem: Escola de Samba Vai-Vai / Divulgação.

 

Em nota, a Vai-Vai explicou que, ao longo do desfile, foram feitos uma série de recortes históricos, “como a semana de arte de 1922 e o lançamento do álbum ‘Sobrevivendo no Inferno’, dos Racionais MC’s, em 1997”, que expõe temas como racismo, miséria e desigualdade social e denuncia a onda de violência policial que assolou a população negra em São Paulo nos anos 1990.

Considerado o álbum mais importante do rap nacional, Sobrevivendo no Inferno expõe a brutalidade policial como uma grande ferida aberta na sociedade, tendo inclusive dedicado uma música ao Massacre do Carandiru, onde a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo assassinou 111 detentos.

A nota destaca que a ala retratada no desfile, “à luz da liberdade e ludicidade que o carnaval permite, fez uma justa homenagem ao álbum e ao próprio Racionais MC’s, sem a intenção de promover qualquer tipo de ataque individualizado ou provocação”. “Vale ressaltar que, neste recorte histórico da década de 90, a segurança pública no estado de São Paulo era uma questão importante e latente, com índices altíssimos de mortalidade da população preta e periférica”, denuncia a agremiação.

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O texto diz ainda que “é de conhecimento público que os precursores do movimento hip-hop no Brasil eram marginalizados e tratados como vagabundos, sofrendo repressão, e sendo presos, muitas vezes, apenas por dançarem e adotarem um estilo de vestimenta considerado inadequado pra época”, e que a escola simplesmente “inseriu o álbum e os acontecimentos históricos no contexto que eles ocorreram, no enredo do desfile”.

A nota foi emitida em resposta ao Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), que repudiou a escola de samba em nota divulgada na segunda-feira (12). A entidade afirma que a Vai-Vai “tratou com escárnio a figura de agentes da lei” e que as alegorias utilizadas na ala Sobrevivendo no Inferno “demonizaram a polícia”, causando “extrema indignação”.

Segundo os delegados, ao adotar o samba-enredo, a escola “afronta as forças de segurança pública, desrespeita e trata, de forma vil e covarde, profissionais abnegados que se dedicam, dia e noite, à proteção da sociedade e ao combate ao crime, muitas vezes, sob condições precárias e adversas, ao custo de suas próprias vidas e famílias”.

Além dos ataques de políticos e delegados, a Vai-Vai também está sendo alvo de uma fake news segundo a qual a escola teria recebido R$ 2,1 milhões via Lei Rouanet. O projeto de captação de recursos da agremiação foi aprovado pelo Ministério da Cultura, porém o valor não foi arrecadado.

Ala “Sobrevivendo no Inferno” retrata PMs da tropa de choque de SP como demônios. Foto: Mariana Pekin.

Polícia assassina

Embora os policiais e os deputados da bala tenham ficado transtornados com a apresentação da Vai-Vai, a ala que “demoniza” os policiais militares está mais para uma ofensa ao próprio demônio do que à polícia. Isso por que a realidade mostra que os agentes da lei vêm realizando uma verdadeira carnificina nas ruas de São Paulo nas últimas décadas.

Um levantamento conduzido pela cientista social Camila Vedovello revela que a Polícia Militar paulista assassinou quase 3.200 pessoas entre os anos 1990 e 1992, justamente o início da década que foi retratada pela Vai-Vai em seu último desfile.

Apresentada na defesa da sua tese de doutorado junto ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a pesquisa de Vedovello analisa as chacinas realizadas na cidade de São Paulo e Região Metropolitana a partir da chave de “uma urbanização militarizada em que execuções, chacinas e massacres são ferramentas do genocídio da juventude negra, a partir da produção de vidas matáveis”.

Os dados revelam que os assassinatos cometidos por policiais militares na região da capital paulista passaram a diminuir após 1992 chegando a 253 mortes em 1996. No entanto, em 2006 houve um aumento da letalidade policial, com os chamados Crimes de Maio, onde 505 civis e 59 agentes públicos foram mortos entre 12 a 21 de maio de 2006.

“Após 2006, houve uma baixa de homicídios, mas a partir de 2011, no entanto, existiu um aumento expressivo da letalidade policial, que se manteve ao longo dos anos, ganhando ascensão expressiva a partir de 2014”, escreveu a pesquisadora.

O estudo aponta para um relatório da Ouvidoria das Polícias de São Paulo, segundo o qual o número de civis mortos por policiais em 2017 (940) foi menor somente ao número de civis mortos por policiais em 1992, quando 1.470 pessoas foram assassinadas pela polícia paulista.

A “Guerra às Drogas” é a desculpa mais utilizada pela polícia, não só em São Paulo mas em todo o país, para justificar os assassinatos e chacinas, cometidos na grande maioria das vezes em territórios periféricos — embora o tráfico de drogas também ocorra em áreas nobres, a matança promovida pelo Estado só ocorre nos morros e favelas.

“Analisando a composição das chacinas, o ter passagem [pela polícia] é um dos modos de assujeitamento que estabelece a sujeição criminal sobre determinadas pessoas ou grupo. Assim, alguém que tem passagem é mais passível de sofrer violências por ser considerado como bandido em potencial e, por isso, é inserido na lógica do bandido bom é bandido morto, sendo essa vida transformada em vida matável. Desse modo, ter passagem ou o local ser visto como onde se vende drogas são elementos que organizam as chacinas paulistas”, explica a autora.

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A partir de 2018 o número de civis mortos por agentes de segurança pública em São Paulo voltou a diminuir, com 851 pessoas sendo assassinadas pela polícia neste ano, sendo 655 por policiais em serviço e 196 por policiais fora de serviço. Já em 2019, o número de civis mortos foi de 867, sendo 733 mortos por policiais em serviço e 134 por policiais fora de serviço.

Em 2020, o levantamento mostra que 814 civis foram mortos em decorrência de intervenção policial, sendo 680 atingidos por policiais em serviço e 134 por policiais fora de serviço. No ano de 2021, o número de civis mortos pela polícia paulista reduziu para 570, sendo 440 mortos por policiais em serviço e 130 por policiais fora de serviço.

“Os dados demonstram que há um crescimento no número de mortos por intervenção policial, com pico em 2017, diminuindo nos anos posteriores, mas a queda mais acentuada se deu em 2021, quando os números ficaram próximos ao do ano de 2011”, observa a autora em seu trabalho.

O aumento acentuado nas mortes de civis por intervenção policial em São Paulo no final dos anos 2020, segundo a pesquisadora, não representa uma exceção, “mas é um processo histórico de aumento da letalidade policial proveniente da exceção permanente da segurança pública paulista, inserida nessa lógica militarizada de guerra”.

Para exemplificar esse quadro, a pesquisadora menciona o ano de 2012, quando 655 civis foram mortos pela polícia paulista, e um estudo que analisou essas mortes, onde as autoras retrataram os conflitos que existiram naquele ano entre agentes de segurança pública e a organização criminosa PCC, “atingindo nesse meio outras pessoas, civis que não participavam do chamado mundo do crime”.

O trabalho de Vedovello levantou as chacinas realizadas na região metropolitana de São Paulo até o ano de 2020, logo não inclui os massacres ocorridos durante a Operação Escudo, que foi deflagrada pela Polícia Militar na Baixa Santista, entre julho e setembro do ano passado, e resultou em um total de 28 mortes. A Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Estado justificou a medida como necessária para “sufocar o tráfico de drogas e combater o crime organizado”.

Genocídio do povo negro

O levantamento também revela indícios de que a maior parte de toda a carnificina realizada pela Polícia Militar de São Paulo nas últimas décadas foi contra a população negra.

Uma análise da Ouvidoria das Polícias de São Paulo das mortes de civis por intervenção policial em 2017 constatou que, das 756 vítimas analisadas, 65% eram de cor negra e 34% possuíam entre 18 e 25 anos. “Esses dados apontam que existe na sociedade brasileira um genocídio da juventude negra, como indicado por análises que tratam da letalidade policial paulista na atualidade”, afirma o artigo.

Lucio Kowarick, em sua obra “Escritos Urbanos” (2000), ao tratar do que seria o mundo da ordem e o da desordem, diz como pessoas negras, jovens, residentes nas periferias ou em cortiços nas áreas centrais das cidades são as mais propensas a serem vistas como portadoras de periculosidade, que “formam o majoritário resíduo que mais frequentemente é humilhado, maltratado, espancado, torturado ou assassinado pela polícia”.

Em seu relatório anual de 2020, a Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo apontou que 599 das denúncias se referiam à morte em decorrência de intervenção policial, sendo que a grande maioria dessas mortes se concentrou na cidade de São Paulo e região metropolitana e 56,2% das vítimas eram negras — porcentagem que pode ser ainda maior, visto que em 10% dos casos a raça/cor não foi informada.

O racismo praticado pela polícia de São Paulo também foi demonstrado por uma pesquisa separada, realizada Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas, que avaliou 114 processos penais de pessoas presas por crimes relacionados à Lei de Drogas até o ano de 2020.

A pesquisa revelou que 51% das pessoas acusadas por tráfico de drogas em São Paulo não possuíam nenhum antecedente criminal antes de serem presas e que 54% dos processos estão relacionados a pessoas negras — esse número pode ser muito maior, uma vez que as pesquisadoras identificaram alguns processos onde o escrivão policial registrou a cor/raça como “branca” apesar da pessoa acusada se autodeclarar “parda” durante o atendimento no Instituto Médico Legal.

O estudo da Iniciativa Negra mostra ainda que a violência por parte das forças policiais paulistas no momento das abordagens foi identificada em 13% dos processos analisados, sendo que a Polícia Militar é a responsável pela maioria das violências praticadas constando em 80% das ocorrências. Além disso, em 66% dos casos apurados a agressão foi cometida contra pessoas negras.

Um outro estudo, realizado pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), revela que o genocídio da população negra não cessou nem mesmo em um ano marcado por uma crise de saúde pública. Os dados mostram que 63% (495) das pessoas mortas pela polícia em São Paulo em 2019 eram negras, apesar de menos de 35% da população paulista ser negra.

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Imagem em destaque: Vai-Vai | Divulgação.

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