Vacas alimentadas com cânhamo produzem leite com canabinoides, diz estudo

Fotografia mostra a cara e parte do corpo de uma vaca de pelagem preta e branca, e o céu e um campo, à direita, em efeito esmaecido. Imagem: Pezibear / Pixabay.

Os pesquisadores não testaram se beber o leite afetaria os consumidores humanos

Vacas que comeram cânhamo produziram leite contendo CBD, THC e outros canabinoides, de acordo com uma nova pesquisa publicada na revista Nature Food. A alimentação com a planta também resultou em mudanças na ingestão de ração, produção de leite, frequência respiratória e cardíaca e comportamento dos animais.

O cânhamo contêm apenas pequenas quantidades de tetraidrocanabinol (deve apresentar um teor de até 0,3% para ser cultivado legalmente sob a lei federal americana e a política agrícola da União Europeia), contudo “ainda não é um aditivo aceitável para ração animal nos EUA ou na Europa, em parte devido a preocupações de que os compostos ativos das plantas cheguem ao leite”, disse o autor sênior Robert Pieper, codiretor temporário do Departamento de Segurança na Cadeia Alimentar do Instituto Federal Alemão de Avaliação de Riscos, à Live Science.

Leia também: Biomassa de cânhamo é uma boa alternativa para alimentar cordeiros, diz estudo

As descobertas levantam mais questões sobre a segurança do consumidor de produtos originados de animais alimentados com cânhamo. Mas a planta é uma cultura barata, ecológica, versátil e nutritiva e, à medida que a indústria do cânhamo cresceu, as partes interessadas consideraram o seu uso como ração animal.

Para compreender até que ponto os canabinoides são transferidos da alimentação animal para o leite, pesquisadores alemães alimentaram dez vacas leiteiras da raça Holstein Friesian com cânhamo contendo concentrações variadas das substâncias.

Inicialmente, a silagem de milho na dieta dos animais foi parcialmente substituída por forragem de cânhamo feita da planta inteira e contendo níveis muito baixos de canabinoides. Esse regime foi mantido por um período de adaptação de sete dias.

Leia mais: Alimentar jumentos com maconha pode causar intoxicação, segundo estudo

As vacas então passaram a receber uma silagem de cânhamo feita apenas de folhas, flores e sementes, que tinha uma concentração maior de canabinoides. Os pesquisadores recolheram e analisaram leite, sangue e fezes, mediram a frequência cardíaca e respiratória e a temperatura corporal e observaram o comportamento dos animais.

O estudo mostrou que a alimentação contendo concentrações muito baixas de canabinoides não teve efeito mensurável nos parâmetros fisiológicos e na saúde.

Em contraste, a alimentação com silagem de cânhamo rica em canabinoides teve um efeito significativo no comportamento e saúde das vacas.

Após iniciar o regime alto em canabinoides, os animais passaram a comer menos e, consequentemente, produzir menos leite. Da mesma  forma, seus batimentos cardíacos e frequência respiratória diminuíram significativamente.

Em relação ao comportamento e aparência, a dieta com alto teor de canabinoides foi associada a vacas mexendo mais a língua, aumento de bocejos, salivação, formação de secreção nasal, vermelhidão da membrana nictitante (terceira pálpebra) e aparência sonolenta. Alguns animais passaram a andar de forma cuidadosa e exibiram postura anormal, disseram os autores.

A equipe observou todas essas alterações desaparecendo dois dias após a interrupção da alimentação com canabinoides. “Os constituintes do leite (gordura, proteína, lactose, matéria seca, células somáticas e ureia), temperatura corporal e peso corporal não foram afetados em todos os períodos”, escreveram os autores.

Leia mais: Leite materno de usuárias de maconha não prejudica saúde de bebês a curto prazo

Dito isso, o estudo observou que a alimentação com silagem de cânhamo resultou em níveis mensuráveis de THC, THCA, THCV, CBD, CBDV e CBN no leite de vaca no final do período de adaptação e durante o período de exposição (dieta com alto teor de canabinoides).

Os cientistas, no entanto, não testaram se beber esse leite afetaria os consumidores humanos. “O estudo não permite tirar conclusões sobre se há risco à saúde pelo consumo de leite no mercado”, disse Pieper à Science.

Todavia, os pesquisadores compararam a quantidade de THC no leite com a dose de referência aguda (ingestão máxima estimada que pode ser ingerida ao longo de um dia sem nenhum risco perceptível à saúde) estabelecida pela Autoridade Europeia de Segurança Alimentar e descobriram que excedeu em até 120 vezes o nível que a organização determinou como seguro para consumo (0,001 miligrama).

Um estudo separado, publicado no início do ano na Scientific Reports, descobriu que alimentar o gado com cânhamo reduz seus níveis de estresse e aumenta os momentos de descanso dos animais.

A alimentação com cânhamo pode ser uma maneira natural de diminuir o estresse e a inflamação relacionados às práticas de produção, como transporte ou desmame dos animais, disseram pesquisadores da Universidade Estadual do Kansas.

“Os canabinoides via cânhamo industrial diminuíram o hormônio do estresse cortisol, bem como o biomarcador inflamatório prostaglandina E2. Isso mostra que o cânhamo contendo ácido canabidiólico, ou CBDA, pode diminuir o estresse e a inflamação no gado”, disse Michael Kleinhenz, professor assistente de medicina na área de produção de carne bovina na K-State.

Leia também:

EUA: FDA é instada a aprovar sementes de cânhamo para alimentação animal

#PraTodosVerem: fotografia mostra a cara e parte do corpo de uma vaca de pelagem preta e branca, e o céu e um campo, à direita, em efeito esmaecido. Imagem: Pezibear / Pixabay.

Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!