Uso frequente de maconha não deixa as pessoas preguiçosas ou menos motivadas, mostra estudo

Foto mostra o rosto de uma mulher segurando um baseado à boca. Imagem: Pexels | Joseph Eulo.

Estudo financiado pelo Conselho de Pesquisa em Ciências Sociais e Humanas do Canadá constatou que o consumo crônico de cannabis teve efeitos mínimos na disposição para o esforço

O mito do maconheiro preguiçoso difundido pelos proibicionistas foi novamente refutado pela ciência. Um estudo recente sobre os efeitos do consumo regular de maconha descobriu que o uso frequente da planta não está associado à falta de motivação ou força de vontade.

De acordo com os dados publicados na revista Social Psychological and Personality Science, os consumidores frequentes de cannabis não ficam mais apáticos, nem menos motivados para perseguir os seus objetivos, quando estão “chapados”. Em contraste com o estereótipo do maconheiro preguiçoso, os pesquisadores encontraram poucas evidências de uma associação entre estar sob o efeito de maconha e falta de motivação.

Os resultados revelaram ainda que “as pessoas que ficam chapadas várias vezes por dia não são menos motivadas do que aquelas que ficam chapadas várias vezes por semana. Na verdade, em alguns casos, elas estão mais motivadas”. Segundo os autores, os usuários muito frequentes de maconha estão ainda mais motivados do que os que usam com menos frequência “para concluir tarefas para obter recompensas e aprovação social e para evitar sentir-se culpados.

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As descobertas também mostram que pessoas que ficam chapadas várias vezes durante o dia não são diferentes de usuários menos frequentes em termos de responsabilidade, diligência e tradicionalismo (disposição para seguir as regras sociais). Isso apesar de os participantes que fazem uso frequente de cannabis terem relatado que ficam mais impulsivos e menos organizados quando estão sob o efeito da planta.

“Existe um estereótipo de que os consumidores crônicos de cannabis são de alguma forma preguiçosos ou improdutivos”, disse Michael Inzlicht, professor do departamento de psicologia da Universidade de Toronto e principal autor do estudo. “Descobrimos que não é esse o caso — os seus comportamentos podem mudar um pouco no momento em que estão chapados, mas as nossas evidências mostram que não são preguiçosos nem carecem de motivação.”

Com o intuito de analisar os efeitos da maconha na vida quotidiana dos consumidores crônicos, a equipe liderada por Inzlicht entrevistou 260 pessoas com mais de 21 anos de idade que residem nos EUA ou no Canadá, e consomem cannabis pelo menos três vezes por semana “para fins recreativos” (uso adulto, sem ter sido receitado por um médico). Além de uma pesquisa de base de 30 minutos, os participantes responderam a questionários sobre seu estado emocional, níveis de motivação e força de vontade, que foram enviados cinco vezes por dias, durante uma semana.

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Em um comunicado à imprensa, Inzlicht disse que a descoberta mais interessante está relacionada com a motivação, visto que os participantes mostraram-se igualmente dispostos e motivados a exercer esforço para completar uma tarefa quando estão chapados em comparação com quando estão sóbrios.

No entanto, o estudo descobriu também que os usuários crônicos de maconha experimentam ainda um aumento nas emoções positivas, como admiração e gratidão, quando estão sob o efeito, e uma redução em algumas emoções negativas, como medo e ansiedade.

Em seu relatório, os cientistas afirmam que “estes resultados emocionais lançam alguma luz sobre a principal razão pela qual os usuários crônicos relatam o consumo de cannabis — por que gostam da sensação”. A equipe ressalta que “curiosamente, ficar chapado não foi associado ao aumento da suspeita paranoia entre usuários crônicos, ao contrário das representações populares e até mesmo das listas de sintomas médicos”.

Além do efeito em si da planta, outra razão para que a maconha seja a droga mais consumida no mundo também pode ser a falta de efeitos de ressaca, uma vez que os autores não encontraram evidências de “ressaca de maconha”. Isso é consistente com revisão sistemática publicada no ano passado, onde a maioria dos estudos não encontrou efeitos do THC “no dia seguinte” na função cognitiva e em tarefas sensíveis à segurança.

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“Nossos dados sugerem que você pode ser trabalhador, motivado e usuário crônico de cannabis ao mesmo tempo”, comentou Inzlicht.

Dados do Statistics Canada, departamento do governo canadense responsável pelo levantamento de dados sobre o país, mostram que cerca de 1 em cada 10 canadenses com idades entre 18 e 44 anos são usuários regulares de cannabis e vêm de todas as esferas da sociedade.

Os autores do novo estudo também apontam para algumas limitações da pesquisa, como a forma de seleção dos participantes, que foram recrutados em fóruns on-line voltados a entusiastas e cultivadores de maconha, o que significa que os resultados “podem não ser generalizados para usuários novatos ou menos frequentes”.

Outra limitação é o fato de não ter sido feita uma comparação entre consumidores de cannabis e não consumidores, nem entre consumidores frequentes com consumidores pouco frequentes.

“A cannabis está atualmente passando por um momento e esperamos que ela só se torne mais popular à medida que as leis e as atitudes mudem. Esperamos que a comunidade de pesquisa esteja à altura do desafio destas mudanças sociais através de mudanças concomitantes na filosofia de investigação que tem sido demasiado rápida para patologizar o uso”, concluem os pesquisadores, se referindo ao fato de que os estudos sobre a maconha, historicamente, tenderam a se concentrar nas consequências negativas do consumo da planta.

Os achados confirmam o que vários estudos já constataram sobre a relação entre consumo de maconha e motivação. Uma pesquisa publicada recentemente na Sports Medicine, por exemplo, concluiu que usar cannabis antes do exercício pode aumentar o humor positivo e motivar as pessoas a se exercitarem.

Ainda outro estudo, realizado com idosos, descobriu que os consumidores de maconha tenderam a fazer mais exercícios formais e se envolver em mais atividades físicas do que os não consumidores.

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Imagem em destaque: Pexels | Joseph Eulo.

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