Uso diário de maconha ultrapassa o consumo diário de álcool nos EUA, segundo novo estudo

Foto mostra parte do corpo de uma pessoa que, atrás de um balcão de madeira, segura um copo de vidro transparente cheio de uma substância de cor âmbar em uma mão, enquanto sustenta sobre a palma da outra mão um bud de maconha.

Quarenta por cento dos usuários de cannabis consomem diariamente ou quase diariamente; a taxa per capita de relato de uso diário ou quase diário aumentou 15 vezes nos últimos 30 anos

O número de estadunidenses que consomem maconha todos os dias ultrapassou o número dos que bebem álcool diariamente, de acordo com um estudo publicado recentemente que analisou dados de pesquisas nacionais. O consumo diário de cannabis vem crescendo nos EUA desde 1992, paralelamente ao aumento do número de estados que legalizaram a planta.

Embora a vontade de autorrelatar o uso possa ter aumentado à medida que a maconha se normalizou nos Estados Unidos, as enormes mudanças nas taxas, particularmente do consumo diário ou quase diário, sugerem que as mudanças no consumo real têm sido consideráveis.

“É surpreendente que o consumo de cannabis em alta frequência seja agora mais comumente relatado do que o consumo de bebidas em alta frequência”, escreveu Jonathan Caulkins, professor de pesquisa operacional e políticas públicas na Universidade Carnegie Mellon, que conduziu o estudo.

Pela primeira vez, mais estadunidenses relatam o consumo diário de maconha do que o uso de álcool na mesma frequência.

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Os dados mais recentes revelam que em 2022 mais pessoas relataram consumir maconha diariamente ou quase diariamente (17,7 milhões) do que o consumo diário ou quase diário de álcool (14,7 milhões). Em 1992, quando o consumo diário de cannabis atingiu seu nível mais baixo, cerca de 900 mil de pessoas disseram que usavam maconha quase todos os dias.

“As tendências refletem mudanças nas políticas, com declínios durante períodos de maior restrição e crescimento durante períodos de liberalização política”, afirma o estudo, sobre a variação das taxas de consumo nacional de cannabis no decorrer dos anos.

Contudo, os dados não permitem dizer se foi a legalização pelos estados americanos que levou ao aumento do consumo ou o contrário. A correlação entre as mudanças de política e o aumento do uso diário “não significa que a política impulsionou mudanças no consumo”.

“Ambos poderiam ter sido manifestações de mudanças na cultura e nas atitudes subjacentes. No entanto, seja qual for a direção que as setas causais apontem, o consumo de cannabis parece agora estar numa escala fundamentalmente diferente da que era antes da legalização”, diz o artigo.

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O estudo utilizou dados da Pesquisa Nacional sobre Uso de Drogas e Saúde dos EUA, examinando mais de 1,6 milhão de entrevistados em 27 pesquisas. Caulkins comparou as taxas de consumo em quatro anos que refletiram pontos de mudança política significativos: 1979 (quando as políticas liberais da década de 1970 terminaram), 1992 (o fim de 12 anos de políticas conservadoras da era Reagan-Bush), 2008 (o ano anterior ao que viu o Departamento de Justiça americano sinalizar a não interferência federal explícita nas legalizações a nível estadual) e 2022 (o ano para os dados mais recentes disponíveis).

“O consumo relatado de cannabis caiu para um nível mais baixo em 1992, com recuperação parcial até 2008, e aumentos substanciais desde então, particularmente para medidas de uso mais intensivo”, diz o estudo. “De 1992 a 2022, houve um aumento de 15 vezes na taxa per capita de relato de uso diário ou quase diário.”

Embora a pesquisa de 1992 tenha registado 10 vezes mais consumidores diários ou quase diários de álcool do que consumidores de cannabis (8,9 milhões vs 0,9 milhão), a pesquisa de 2022, pela primeira vez, registrou mais consumidores diários ou quase diários de maconha do que de álcool.

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O álcool ainda é mais consumido de forma geral nos EUA, porém o consumo de alta frequência agora é menos comum do que o de cannabis. Em 2022, o consumidor médio relatou ter bebido 4-5 dias no mês anterior, em comparação com o consumo de maconha entre 15 e 16 dias no mês anterior.

“Bons 40% dos atuais consumidores de cannabis consomem-na diariamente ou quase diariamente, um padrão que está mais associado ao consumo de tabaco do que ao consumo típico de álcool”, disse Caulkins em entrevista à Associated Press.

A pesquisa de 2022 descobriu que 58,7% dos fumantes de cigarros fumavam “diariamente” (um ou mais maços de cigarros por dia). Logo, há mais fumantes diários de tabaco do que usuários diários de maconha (24,1 contra 17,7 milhões). “Ainda assim, os padrões de consumo de maconha passaram de semelhantes aos do álcool para mais próximos do consumo de cigarros”, observa o estudo.

Em um artigo sobre as descobertas publicado no Washington Monthly, Caulkins e o professor de psiquiatria da Universidade Stanford, Keith Humphries, afirmam que “a maconha está a tornar-se uma espécie de droga para idosos”, destacando que o grupo demográfico com 50 anos ou mais representa mais dias de consumo do que aqueles com 25 anos ou menos.

Como grupo, as pessoas de 35 a 49 anos consomem mais cannabis do que as pessoas de 26 a 34 anos, que por sua vez consomem mais do que as pessoas de 18 a 25 anos.

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“Do lado positivo, a maioria das crianças está bem. Apenas 2% dos consumidores de maconha entre 12 e 17 anos consomem diariamente ou quase diariamente. Como resultado, os jovens representam apenas 3% dos 8,3 bilhões de dias anuais de consumo de maconha autorrelatado no país”, disseram eles à revista.

Uma das limitações do estudo apontadas por Caulkins é o fato de que muitos consumidores de maconha podem ter respondido não a perguntas feitas apenas sobre os tradicionais “’maconha e haxixe”, mesmo sendo usuários de outros produtos de cannabis, como vapes, dabs e comestíveis.

A pesquisa “Mudanças no consumo autorrelatado de cannabis nos Estados Unidos de 1979 a 2022” foi publicada na quarta-feira na revista Society for the Study of Addiction.

Dito isso, um levantamento da Gallup publicado em agosto do ano passado revelou que os estadunidenses consideram a maconha menos prejudicial que o álcool, tabaco, vaporizadores e outros produtos à base de nicotina. A empresa também descobriu que o uso de cannabis ultrapassou o uso de cigarros nos EUA, enquanto o uso vaporizado de nicotina ainda está atrás de ambos.

Um estudo publicado no Jornal Internacional de Política de Drogas descobriu que o consumo excessivo de álcool entre pessoas na faixa etária de 12 e 20 anos diminuiu após a aprovação das leis estaduais de uso adulto/social de maconha nos EUA. Isso revela a influência positiva da legalização da cannabis para a saúde pública, visto que o abuso de bebidas alcoólicas está associado a resultados adversos agudos, como acidentes de trânsito e baixo desempenho acadêmico, bem como doença hepática relacionada e outros transtornos que podem levar à morte.

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