Uso de maconha entre jovens adultos diminuiu no Canadá após legalização, mostra estudo

Fotografia mostra uma jovem segurando um baseado apontado para cima, enquanto expele uma fumaça densa, e parte de sua perna, flexionada, com o joelho à mostra no destroyed do jeans, em um ambiente interno. Imagem: Damian Barczak / Pexels.

Mais um estudo derruba por terra o mito de que a legalização da cannabis leva ao aumento do consumo entre jovens

Os jovens adultos que usavam maconha com frequência antes da legalização “exibiram reduções substanciais no uso e nas consequências” relacionadas à cannabis após o fim da proibição no Canadá, revela um novo estudo publicado no JAMA Network Open, a revista da Associação Médica Americana.

Um grupo de cientistas liderado por pesquisadores da Universidade McMaster, em Ontário, examinou as mudanças no consumo de maconha e as consequências após a legalização do uso adulto no Canadá em uma amostra de jovens adultos de alto risco.

A análise revelou diminuições globais no consumo de maconha, “o que é globalmente consistente com as trajetórias de consumo de substâncias que poderiam ser esperadas entre este grupo etário na ausência de qualquer mudança política”, escreveram os autores.

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Os resultados do estudo mostram que entre os jovens adultos que relataram não ter consumido cannabis antes da legalização houve um ligeiro aumento do consumo de maconha, porém isso não levou a alterações significativas nas consequências relacionadas com a cannabis.

“Essas descobertas sugerem que, durante a legalização da cannabis no Canadá, os jovens adultos de alto risco apresentaram diferentes padrões de mudança; aqueles que usavam cannabis frequentemente antes da legalização exibiram reduções consistentes com o envelhecimento, e aqueles que não usavam cannabis antes da legalização exibiram aumentos modestos no uso ao longo do tempo”, apontaram os pesquisadores.

Os autores observaram que, embora haja a preocupação de que a legalização do uso adulto da maconha leve ao aumento do consumo e consequências adversas, “poucos estudos longitudinais examinaram os padrões de consumo de cannabis em jovens adultos de alto risco ao longo da legalização”.

A legalização do uso social da maconha em nível federal no Canadá fornece um sistema rigoroso para controlar a produção, venda e porte de cannabis, como um limite de idade federal de 18 anos para compra (o que varia de 18 a 21 anos sob as leis provinciais), um limite de posse de 30 g de maconha seca ou quantidades equivalentes de outras formas de apresentação e regulamentos rígidos em torno de embalagens e marketing, especificamente restrição de produtos que possam ser atraentes para os jovens.

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“Em todas as jurisdições onde ocorre a legalização da cannabis, uma preocupação fundamental tem sido que o consumo de cannabis e os danos relacionados aumentariam entre os jovens e jovens adultos devido ao acesso mais fácil, à crescente aceitabilidade social, à diminuição da percepção dos danos, aos preços mais baixos, a uma gama mais ampla de produtos e modos de uso, e o aumento da potência do produto”, reconhecem os pesquisadores, ressaltando que a maconha é a segunda substância mais consumida pelos canadenses entre os 20 e 24 anos, depois do álcool, e que os adultos jovens também apresentam a maior prevalência de transtorno por uso de cannabis.

Contudo, embora os jovens adultos consumam maconha com uma prevalência mais elevada do que outras faixas etárias, “há uma escassez de investigação centrada nesta população”, destacaram os autores, observando que “têm havido poucos estudos longitudinais que examinam o impacto da legalização, o que representa uma lacuna substancial na investigação”.

Apesar de não chegar a uma conclusão se foi a legalização que causou os resultados, o estudo observou uma diminuição geral no consumo médio de cannabis e nas consequências correspondentes após a mudança de política.

“Digno de nota, os participantes que nunca tinham consumido cannabis antes da legalização não apresentaram aumentos significativos no uso ou consequências após a legalização”, escreveram os pesquisadores, ressaltando que as mudanças observadas não parecem ter sido marcadamente alteradas pela legalização.

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Para formar a coorte do estudo, os autores recrutaram pessoas com idades entre 19,5 e 23 anos e que relataram dois ou mais “episódios de consumo excessivo de álcool” e nenhuma experiência de psicose. Os critérios de uso de substância pretendiam “recrutar uma amostra com padrões epidemiologicamente comuns de uso de substâncias associado a risco elevado de consequências adversas”.

Os participantes foram entrevistados sobre a frequência do consumo e as consequências relacionadas, a cada quatro meses, entre abril de 2017 e fevereiro de 2020 — a legalização da maconha para uso adulto no Canadá entrou em vigor em outubro de 2018. Os participantes foram obrigados a ter pelo menos uma avaliação de observação pré-legalização e pós-legalização.

A seleção dos participantes que atenderam aos critérios resultou em uma amostra de 619 pessoas, sendo que 56% eram mulheres e 53% tinham diploma de curso superior.

Os dados sobre a frequência de uso pré-legalização mostram que 31,6% dos participantes disseram usar cannabis regularmente ou frequentemente antes do uso adulto ser legalizado. Enquanto 33,3% relataram o uso ocasional e 35% afirmaram nunca ter consumido maconha ou não consumir atualmente.

Embora o consumo ocasional de cannabis fosse a maior categoria antes da legalização, o não consumo foi a maior categoria após a legalização. O uso ocasional de maconha foi a categoria mais dinâmica, uma vez que apenas 40% dos que consumiam ocasionalmente antes da legalização também relataram consumo ocasional após a legalização, enquanto 32% transitaram para não utilização e 23% aumentaram para utilização regular.

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No geral, as mudanças ocorreram de acordo com a frequência de uso antes da legalização. Entre os participantes que se enquadravam na categoria de consumo frequente de cannabis, por exemplo, cerca de um terço (33%) transitou para outras categorias, ou seja, diminuiu o consumo.

“Os indivíduos que consumiram cannabis com mais frequência antes da legalização exibiram, em média, uma redução significativa no consumo após a legalização. Correspondentemente, este grupo também apresentou uma redução significativa nas consequências relacionadas com a cannabis. Em contraste, os participantes que não eram consumidores atuais de cannabis antes da legalização aumentaram, em média, a sua frequência de consumo ao longo do tempo”, concluíram os autores.

Sobre este último grupo, os pesquisadores observaram que o aumento começou antes da legalização e não houve alterações significativas nas consequências relacionadas à maconha. “Em outras palavras, embora a frequência tenha aumentado para este subgrupo, tal aumento não levou a resultados problemáticos durante o período do estudo”.

O artigo destaca que os participantes que nunca usaram cannabis não exibiram aumentos significativos no uso ou consequências após a legalização.

“Entre o grupo de consumo frequente pré-legalização, as mudanças observadas são consistentes com declínios normativos em termos de desenvolvimento neste grupo etário ao longo do tempo, por vezes referido como envelhecimento do uso indevido de substâncias”, disseram os autores sobre a diminuição do uso entre os participantes que apresentavam consumo com frequência antes da legalização, observando que não foi possível concluir que a legalização teve alguma influência de fato na redução.

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As “consequências relacionadas à cannabis” mencionadas no estudo foram medidas utilizando o B-MACQ, uma versão abreviada do Questionário de Consequências da Maconha (MACQ) que inclui perguntas sobre direção sob o efeito de cannabis, influência do uso na realização de atividades físicas e na motivação, dificuldade para dormir após reduzir o consumo e entre outras.

Em relação a essas “consequências”, os autores afirmam que “uma pontuação B-MACQ de 0 (sem consequências relacionadas à cannabis) foi mais prevalente na pré-legalização e pós-legalização”, mas que “esta categoria cresceu entre esses momentos”: antes da legalização 315 participantes (51%) não apresentavam tais consequências,  e após a legalização esse número subiu para 352 (57%).

Ao passo que a categoria de zero consequência foi a mais prevalente e estável ao longo do tempo, a maioria (47%) dos participantes que relataram uma a quatro consequências relacionadas com a maconha antes da legalização passaram para nenhuma consequência após a legalização, enquanto apenas 16% aumentaram para cinco ou mais consequências.

Os pesquisadores destacaram que as descobertas “alinham-se com pesquisas realizadas em jurisdições dos EUA, que concluíram em grande parte que a legalização não alterou drasticamente os padrões de consumo entre jovens e adultos jovens”.

Além disso, o estudo canadense focou nos jovens de alto risco, que seriam o grupo mais vulnerável após a legalização, não deixando brecha para a teoria dos proibicionistas.

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“Em parte, a falta de mudanças consideráveis ​​em relação a uma mudança política em tão grande escala pode dever-se ao fato de o uso de cannabis no Canadá já estar bastante normalizado antes da legalização. As percepções pré-legalização entre os canadenses que consumiam cannabis eram de que o acesso à cannabis já era bastante fácil, e as percepções de risco eram geralmente baixas”, escreveram os autores. “Como tal, quaisquer alterações no acesso ou na aceitabilidade social provocadas pela legalização da cannabis podem ter sido bastante inconsequentes nos padrões de consumo individuais nesta faixa etária.”

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Michigan, publicado no ano passado na PLoS One, analisou as tendências de uso de maconha em uma coorte de mais de 800.000 pessoas e descobriu que a legalização da cannabis por estados americanos não faz aumentar o consumo da planta entre pessoas com menos de 21 anos.

Ainda outro estudo financiado pelo governo do Colorado revelou que em 2021 os adolescentes tinham 35% menos probabilidade de consumir maconha no estado do que nos anos anteriores — uma tendência que vem se confirmando desde 2013, quando a pesquisa começou. Esse estudo também revelou um declínio do número de adolescentes que disseram que seria fácil obter maconha se quisessem.

O relatório da Divisão de Saúde do Adolescente e Escolar dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA divulgado no início do ano revelou que o uso de maconha e outras substâncias entre estudantes do ensino médio nos Estados Unidos diminuiu de 2019 a 2021, apesar do número crescente de estados americanos que legalizam a cannabis para uso adulto.

Uma pesquisa publicada no ano passado no American Journal of Preventive Medicine analisou dados de três estudos longitudinais de jovens centrados nos estados de Oregon, Nova York e Washington, abrangendo dados entre 1999 a 2020, e descobriu que “os jovens que passaram a maior parte de sua adolescência sob legalização não tinham mais ou menos probabilidade de ter usado maconha aos 15 anos do que os adolescentes que passaram pouco ou nenhum tempo sob legalização”.

Os resultados da pesquisa Monitoring the Future, financiada pelo governo dos EUA, mostram que o uso de maconha entre adolescentes permaneceu estável em 2022, após um declínio significativo em 2021. Isso apesar de mais mercados de uso adulto, como Nova Jersey e Rhode Island, terem entrado em operação no ano passado.

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Imagem de capa: Damian Barczak / Pexels.

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