Laboratório da Unicamp desenvolve método para quantificar canabinoides em óleos de maconha produzidos artesanalmente

Frasco contendo óleo, cápsulas oleosas e folhas de maconha sobre uma mesa branca. Foto: Imam Hasan | Vecteezy.

Trabalho permite que pacientes autorizados a cultivar e produzir seu remédio de forma artesanal saibam o perfil canabinoide de óleos e extratos

Com o objetivo de avaliar a qualidade dos óleos e extratos de maconha utilizados para fins medicinais no estado de São Paulo, um projeto do Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) da Unicamp desenvolveu um método capaz de analisar a composição dos princípios ativos presentes nos produtos preparados por pacientes ou associações.

O trabalho realizado no laboratório do CIATox é um desdobramento do projeto de doutorado conduzido pela aluna Marilia Santoro Cardoso, do Programa de Pós-Graduação em Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A pesquisadora foi responsável pelo desenvolvimento do método de análise que permite a determinação de 12 canabinoides em amostras de cannabis.

“Desde 2020, o Laboratório de Toxicologia Analítica da Unicamp já analisou, gratuitamente, mais de 900 amostras de cannabis medicinal provenientes de famílias e associações que gentilmente aceitaram apoiar o projeto de doutorado”, disse o professor José Luiz Costa, coordenador executivo do CIATox, em comunicado à imprensa.

Segundo o pesquisador, o projeto contribuirá para que os pacientes tenham acesso a óleos de cannabis mais seguros e eficazes, bem como permitirá a verificação da qualidade dos produtos produzidos de forma doméstica em comparação com os importados ou comercializados pela indústria farmacêutica.

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“Processos produtivos de alta qualidade, produtos seguros e consistentes são necessários para proteção dos consumidores, mas também são fundamentais para criar uma fonte confiável de cannabis medicinal no nosso país, impulsionando este setor a um novo patamar”, afirma José Luiz.

O objetivo do projeto é avaliar a qualidade dos óleos de maconha através da análise não só do perfil de canabinoides, mas também dos terpenos, solventes residuais, micotoxinas e praguicidas. Isso será feito utilizando técnicas analíticas modernas “como a cromatografia em fase gasosa acoplada à espectrometria de massas e cromatografia em fase líquida acoplada à espectrometria de massas sequencial”.

A continuidade e ampliação do trabalho será possível graças a um investimento da Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e Cânhamo Industrial da Assembleia Legislativa de São Paulo, que em dezembro distribuiu recursos a vários projetos, incluindo o do CIATox que receberá uma verba de R$ 180 mil.

“Muitas associações e muitos pacientes dependem dessa análise da Unicamp”, afirmou José Luiz em entrevista ao g1. “Hoje o trabalho é bem estruturado. A gente está até buscando acreditação junto ao Inmetro para esse ensaio, que é uma forma dele ser reconhecido. A gente está buscando fazer essas análises dentro de um sistema de qualidade reconhecido internacionalmente”.

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O professor explicou ao portal que o paciente precisa ter certeza de que está tomando o óleo com as concentrações corretas de canabidiol (CBD) ou tetraidrocanabinol (THC), por exemplo, conforme a prescrição médica, o que é possível com a análise realizada pelo laboratório do CIATox.

Além disso, a análise laboratorial pode ampliar a segurança dos pacientes, uma vez que a produção caseira está mais exposta a contaminações, como explicou ao g1 a pós-doutora pela Faculdade de Medicina da USP e presidente da Associação Médica Brasileira de Endocanabinologia (Ambcann), Ana Gabriela Hounie.

“Em remédios caseiros há risco de contaminação por fungos e pesticida, caso não seja uma produção orgânica feita em estufa, e por metais pesados, caso a terra usada também não seja analisada”, afirmou a médica.

Diante da dificuldade para obter os produtos de cannabis por meio de importação devido ao alto custo e burocracia, e a ausência de remédios contendo outros compostos da planta além do canabidiol nas farmácias, muitos pacientes encontram na produção caseira a opção mais viável e eficaz para seu tratamento de saúde.

Um estudo publicado recentemente na revista Molecules destaca evidências sobre as interações colaborativas entre os constituintes da maconha (canabinoides, terpenos e flavonoides) que sugerem um potencial terapêutico coletivo, ou seja, a ação combinada dos compostos da planta produz efeitos sinérgicos que superam a eficácia da substância isolada.

Segundo os pesquisadores, as evidências mostram cada vez mais que os diversos efeitos terapêuticos exercidos pelo THC e pelo CBD “não são atribuídos apenas às suas ações, mas são modulados por outros compostos na planta”, fenômeno que é conhecido como efeito comitiva ou efeito entourage.

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Imagem em destaque: Imam Hasan | Vecteezy.

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