UnB obtém liberação de produto com cannabis para pesquisa

Foto que mostra a ponta de um conta-gotas com uma porção de óleo de canabidiol que se acumula, acima da boca de um frasco transparente, também contendo óleo, em fundo desfocado de vegetação. Imagem: Taueeqrsaad | Wikimedia Commons.

Universidade de Brasília (UnB) tinha autorização de importação, emitida pela Anvisa, mas o insumo ficou parado no aeroporto por falta de autorização de retirada. Estudo pioneiro com CBD, financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal, testa tratamento para pessoas com dependência de crack

Após dez meses, o Decanato de Administração (DAF), o Gabinete da Reitora e a pesquisadora Andrea Gallassi, que coordena o Centro de Referência sobre Drogas e Vulnerabilidades Associadas da Faculdade de Ceilândia, da Universidade de Brasília (UnB), conseguiram a liberação do medicamento canabidiol para ser utilizado em pesquisa com dependentes de crack. A UnB tinha autorização de importação, emitida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas o insumo ficou parado no Aeroporto Internacional de Brasília por falta de autorização de retirada, que foi concedida no final de fevereiro, segundo informações do portal de notícias da instituição.

“A gente não desistiu. A Universidade assumiu esse compromisso com a ciência, com a pesquisa que eu coordeno, e enfrentou todos esses obstáculos. Sou muito grata à equipe de importação do DAF e ao decano Abimael Costa, e ao Gabinete da Reitora que envidaram todos os esforços. O que aconteceu quase inviabilizou a pesquisa, mas vamos finalizar e apresentar evidências científicas bastante robustas neste campo”, conta Gallassi à universidade.

O objetivo da pesquisa, financiada pela Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF), é comparar o uso dos tratamentos convencionais e o uso de canabidiol para tratar dependentes de crack. O estudo é um ensaio clínico duplo cego randomizado: são separados dois grupos de pessoas dependentes de crack, e cada grupo vai tomar um tipo de medicamento. O grupo controle é o que ingere os medicamentos convencionais para tratar a dependência. O outro recebe o medicamento canabidiol. Os participantes da pesquisa não sabem a qual grupo pertencem nem a equipe da pesquisa, ficando essa informação somente conhecida pela coordenadora do estudo e pelo farmacêutico responsável.

Após dez semanas de tratamento, a pesquisa mostrará se o grupo que recebeu o canabidiol tem uma resposta melhor com relação a quatro parâmetros: diminuição do uso de crack; melhoras na saúde mental (insônia, depressão, ansiedade) e física (melhora na ingestão de alimentos e no bem estar geral); melhora com relação aos sintomas de abstinência (falta do uso e vontade de uso); e se os eventos adversos são menores quando comparado ao outro grupo.

Pioneirismo na pesquisa

A UnB foi a primeira instituição do país a solicitar a importação de canabidiol para fins de pesquisa, em 2019. Quando o estudo iniciou e o processo de importação foi finalizado, nenhum laboratório brasileiro produzia o medicamento. Até então, a Anvisa só tinha autorizado a importação de canabidiol para pessoa física, para tratar pacientes. “O recurso da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF) saiu em 2017, mas passamos dois anos organizando toda a papelada e tendo reuniões com a Anvisa para que pudéssemos explicar a pesquisa e cumprir com todas as exigências para a importação”, detalha a Andrea Gallassi.

No período de março 2020 a julho 2021, a pesquisa ficou parada por conta da pandemia de covid-19. Quando retomou o trabalho, os pesquisadores enfrentaram obstáculos para obter as novas autorizações. “A equipe da Diretoria de Importação e Exportação do DAF foi incansável. Sabemos da nossa responsabilidade, principalmente porque é uma questão humanitária e de saúde pública. Foram feitas novas exigências, que não foram solicitadas na primeira vez que o grupo de pesquisa fez a primeira importação”, conta o decano de Administração, Abimael Costa.

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Imagem de capa: Taueeqrsaad | Wikimedia Commons.

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