UMA TONELADA DE COCAÍNA NO SENADO

Enquanto milhares de pessoas continuam sendo presas e condenadas como traficantes, superlotando o sistema carcerário do país, mais de uma tonelada de cocaína já foi encontrada em aeronaves ligadas a três Senadores. Será que as quantidades da droga apreendidas com milhares de presos no Brasil somadas chegam à tonelada encontrada em ambos os casos? Entenda mais sobre o assunto na coluna semanal do advogado e ativista, André Barros.

Enquanto milhares de jovens negros e pobres estão presos e condenados por tráfico de drogas de gramas de cocaína e maconha, mais de uma tonelada de cocaína foi encontrada em um helicóptero e um avião em pistas de pouso e fazendas ligadas a três senadores da República Federativa do Brasil.

Neste último domingo, dia 25 de junho de 2017, mais de meia tonelada de cocaína, 653 quilogramas, foi encontrada num avião bimotor que partiu de uma fazenda de propriedade do grupo Amaggi, da família do atual Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) do governo Temer e Senador de Mato Grosso, Blairo Maggi. Em nota, a empresa declarou que não autorizou nenhum pouso ou decolagem em qualquer das onze pistas de sua propriedade. Essas onze pistas deveriam deixar a polícia ligada, pois estão situadas numa região vizinha à Bolívia, onde atuam grupos ligados ao tráfico internacional de drogas.

O fato traz à tona a apreensão de meia tonelada de pasta básica de cocaína no helicóptero do então deputado estadual, atual Secretário do governo Temer, Gustavo Perrella, em 24 de novembro de 2013. O helicóptero era pilotado por um funcionário da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde Gustavo era deputado. Recentemente, em ligação telefônica interceptada pela polícia federal, o Senador Zezé Perrella, pai de Gustavo Perrella, confessou que era traficante, e depois usou como álibi seu tom de ironia, referindo-se ao caso da meia tonelada do “helicoca”, em diálogo com o Senador Aécio Neves.

Cabe lembrar outra circunstância similar à apreensão dos 653 quilos de cocaína no último domingo: a pista de pouso de avião. No caso de 2013, o helicóptero com meia tonelada de pasta básica de cocaína fez uma parada para abastecimento num povoado situado a 14 quilômetros de uma pista de pouso e decolagem construída no governo de Aécio em fazenda desapropriada de sua própria família pelo então governador e atual Senador da República.

O silêncio da grande mídia nos dois episódios também é de se estranhar: ninguém foi condenado no caso da meia tonelada de pasta básica e tudo indica que o caso recente dos 653 quilos vai trilhar a mesma carreira. Isso tudo traz enorme revolta e indignação, principalmente às pessoas presas com poucas gramas de cocaína. Eu mesmo já defendi uma pessoa presa e condenada por tráfico de 8 decigramas (0,8 g), que consegui libertar e absolver somente na segunda instância! Recordemos que a diferença entre um grama e uma tonelada é da ordem de um milhão! Os episódios envolvendo os Senadores somam uma carga que ultrapassa uma tonelada de cocaína. As quantidades de cocaína apreendidas com milhares de presos no Brasil, somadas, não devem chegar à tonelada encontrada em helicóptero, avião e pistas de pouso dos três Senadores da República.

Revisão: MARTA BONIMOND

Sobre André Barros

ANDRÉ BARROS é advogado da Marcha da Maconha, mestre em Ciências Penais, vice-presidente da Comissão de Direitos Sociais e Interlocução Sociopopular da Ordem dos Advogados do Brasil e membro do Instituto dos Advogados Brasileiros
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