Uma das mães pioneiras no ativismo canábico tem casa invadida pela polícia

Fotografia mostra o topo de uma planta de cannabis em início de floração, onde vários pistilos cor creme estão concentrados ao centro de uma folhagem verde e serrilhada, além de várias outras plantas ao fundo, fora do foco. Imagem: Vecteezy | Chot Studio.

Plantas de cannabis que seriam usadas no tratamento do filho de Dona Cleuza foram apreendidas pelos policiais

Atualização: o Sr. Ricardo foi solto no dia 30 de setembro, após passar mais de um dia sofrendo maus-tratos e os familiares que estavam cuidando de Samuel irem com o garoto até o presídio para apresentar o alvará de soltura, segundo informações passadas pela família.

Uma das mulheres ícones no ativismo pelo acesso à cannabis para fins medicinais, Dona Cleuza Ladário teve sua casa invadida arbitrariamente pela polícia civil de Planura, em Minas Gerais, na manhã dessa sexta-feira (29).

Cumprindo mandado de busca e apreensão, os policiais levaram todas as plantas, que estavam em processo de secagem para extração do óleo, usado no tratamento de saúde do filho de Dona Cleuza, além dos celulares dos familiares, e detiveram seu marido, Ricardo, que também é ativista pela causa.

O Conselho Tutelar da cidade ainda tentou levar o menor, Samuel Ladário, criança atípica que precisa do cuidado integral dos pais e faz uso do medicamento à base de cannabis, mas não conseguiu em razão do mesmo estar sob cuidados de familiares, segundo uma publicação no Instagram da Associação Cannabis Medical Evolution.

Dona Cleuza, conhecida dentro do movimento canábico por ser uma das mães pioneiras no ativismo, onde a mesma planta cannabis e produz o remédio de seu filho, estava em viagem no momento em que sua casa foi invadida pela polícia.

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Dona Cleuza entre as plantas do cultivo. Imagem: reprodução | Instagram.

“Um menino como o Samuel, é supersensitivo, tem as limitações dele, imagina ele vendo toda aquela cena, minha mãe passando nervoso, e ela tem alguns problemas de coração e de saúde, não é fácil, imagina como está a cabeça do meu padrasto. É muito difícil, você está ali fazendo o tratamento, de consciência tranquila sabendo que é um remédio e não está prejudicando ninguém, e é perseguido por pessoas estúpidas e ignorantes”, desabafou o irmão de Samuel, Laerte Ladário.

A ação policial desastrosa colocou em risco a vida de Samuel Ladário, uma vez que os únicos responsáveis por seus cuidados são a Dona Cleuza e seu pai adotivo, o Sr. Ricardo. O jurídico da associação está trabalhando para providenciar a soltura de Ricardo.

“Embora o pedido de restituição das flores ainda não tenha sido apreciado, o juiz do Plantão Judiciário da Comarca de Frutal-MG conseguiu entender que, mesmo que tenham sido apreendidos 59 kg de planta bruta (flores e galhos), não há indícios de existência de organização criminosa destinada ao tráfico”, explicou o advogado Rogério Vinícius dos Santos.

Dona Cleuza obteve habeas corpus autorizando o cultivo de cannabis há pouco mais de três anos, o remédio caseiro obtido a partir do extrato da planta foi o único capaz de proporcionar qualidade de vida a Samuel, que é portador do transtorno do espectro autista (TEA) e tinha cerca de 60 convulsões por dia antes de iniciar o tratamento canábico.

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Samuel havia sido desacreditado pelo médico, após o diagnóstico de encefalite viral em decorrência de uma infestação da herpes no cérebro. Isso motivou Dona Cleuza a pesquisar tratamentos possíveis e descobrir a cannabis — determinada a salvar a vida de seu filho, ela viajou até São Paulo (SP) e fez curso de autocultivo na associação Cultive, onde obteve conhecimento e sementes.

Avó que virou mãe, Dona Cleuza chegou a ser presa antes de obter autorização judicial para o cultivo da planta e desde então compartilha a evolução de Samuel, que hoje está com 17 anos, na página de sua associação. O garoto faz uso do óleo de cannabis desde os sete anos.

“Quem a conhece sabe que nunca mediu esforços para ajudar as famílias que também buscam o tratamento. A família está sendo oprimida, tratados como criminosos”, afirma a associação no post que denuncia a ação da polícia.

Fundada por Carol Ladário, filha de Dona Cleuza, a Associação Bendita Planta também denunciou a perseguição promovida pela polícia. Em suas redes sociais, a entidade diz que está trabalhando junto ao setor jurídico do Instituto Samuel Ladário para adotar medidas legais que assegurem direito de ambas associações de continuarem suas atividades “sem serem importunadas por ações policiais maliciosas e também para punir os policiais responsáveis pelos diversos crimes de abuso de autoridade cometidos no inquérito policial desde a sua instauração”.

No 1º Congresso de Psicologia e Cannabis, realizado em abril na Universidade Federal de Minas Gerais, Dona Cleuza falou sobre as dificuldades enfrentadas para proporcionar saúde e qualidade de vida a seu filho: “Vivo de gratidão por ter essa planta na minha vida. Deus tem me dado coragem para enfrentar todos os preconceitos, até mesmo o religioso e familiar. Mas pelo meu Samuel faço qualquer coisa”, expressou a ativista.

O incidente fatídico ocorreu duas semanas após a 3ª Seção do Superior Tribunal de Justiça (STJ) confirmar que os pacientes que cultivam cannabis para uso em seu tratamento de saúde não podem ser acusados por tráfico de drogas.

A maioria dos ministros do colegiado, em sessão realizada no dia 13, votou pelo entendimento de que a jurisprudência pacificada nas duas turmas criminais do STJ pela concessão de habeas corpus para o plantio de maconha para fins terapêuticos deve ser mantida.

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O caso de Samuel reforça o que um corpo cada vez maior de estudos vem demonstrando sobre os benefícios da cannabis para pacientes com TEA. Descobertas publicadas recentemente por uma equipe de pesquisadores brasileiros revelam que os pacientes tratados com extratos de maconha apresentaram melhora na maioria dos principais sintomas do autismo, como déficit de atenção e hiperatividade, problemas de sono, convulsões e coordenação motora prejudicada.

Uma melhora significativa da qualidade de vida dos pacientes e de suas famílias também foi observada após o tratamento à base de cannabis, segundo os autores.

“Nosso estudo amplia os dados científicos que demonstram que o uso clínico de extratos de cannabis é uma intervenção segura com efeitos promissores e valiosos sobre muitos aspectos centrais e comórbidos do autismo, que não são alcançados por medicamentos convencionais”, aponta a conclusão do estudo.

Os resultados são consistentes com um estudo separado, publicado na revista Molecular Autism, que demonstrou que o tratamento com extrato de maconha “tem o potencial de diminuir comportamentos perturbadores associados ao TEA, com tolerabilidade aceitável”.

Apesar de todos os achados da ciência sobre os benefícios medicinais da planta e a segunda maior corte do país já ter consolidado seu entendimento de que o paciente não pode ser criminalizado por produzir o próprio remédio, o preconceito e a intolerância ainda são praticados por agentes da lei que não respeitam a vida.

Os pacientes e famílias que dependem da cannabis para ter saúde e qualidade de vida continuarão sendo perseguidos pelo Estado enquanto o cultivo da maconha, incluindo o autocultivo, para fins medicinais não for legalizado no Brasil.

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Imagem de capa: Vecteezy | Chot Studio.

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