Terpenos na cannabis afetam os resultados terapêuticos, segundo estudo

Foto em vista superior de uma xícara transparente com chá e uma folha de cannabis, próximo a um ramalhete de flores diversas, um pipe em forma de heptágono e cores marrom e amarelo, com erva triturada, e uma colher em metal trabalhado contendo um bud, sobre folhas de maconha, em uma superfície branca. Imagem: Kimzy Nanney | Unsplash.

As flores de maconha diferem em seus efeitos terapêuticos de acordo com os níveis de terpenos, segundo um novo estudo que investigou clinicamente os perfis químicos e o efeito comitiva de diferentes variedades (strains) de plantas de cannabis

Usando dados de um aplicativo móvel sobre perfis fitoquímicos de maconha e resultados de pacientes, pesquisadores da Universidade do Novo México (UNM) construíram o primeiro sistema de indexação de flores de cannabis capaz de distinguir cepas de plantas individuais com base em seus conteúdos de canabinoides e terpenos, o que é cientificamente chamado de “quimiovares”.

O estudo, publicado no Journal of Cannabis Research, analisou mais de 6.000 sessões de uso de maconha para identificar 478 quimiovares distintos de plantas de cannabis e demonstrou que as variedades de plantas consumidas com mais frequência demonstram efeitos clinicamente distintos.

Segundo os autores, embora a heterogeneidade na eficácia entre os quimiovares existisse dependendo do sintoma subjacente, os resultados geralmente indicavam uma eficácia melhorada no tratamento da dor, depressão ou ansiedade de quimiovares com níveis acima da média de mirceno e terpinoleno e níveis não detectáveis de canabidiol (CBD).

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“Em contraste, os quimiovares com quaisquer níveis detectáveis de CBD (por exemplo, MC61 e MC62) forneceram o menor alívio, o menor número de efeitos colaterais positivos e os efeitos colaterais mais negativos e específicos do contexto. Essas descobertas são consistentes com pesquisas anteriores que mostram que o CBD naturalmente abundante na flor de cannabis pode atuar como um inibidor do tratamento ideal para certas condições de saúde, como dores gastrointestinais”, escreveram os pesquisadores.

 

 

 

A pesquisa resultou em um índice abrangente de produtos de maconha que leva em conta os perfis fitoquímicos, ou seja, o conteúdo de canabinoides e terpenos, independente do nome da variedade.

Os nomes das variedades de plantas de cannabis, embora muitas vezes sejam um fator importante nas decisões de compra dos pacientes, têm muito pouca relevância científica ou prática. Por exemplo, como as variedades geralmente não são testadas para nenhum perfil fitoquímico específico, não é incomum que produtores e varejistas inventem nomes de cepas originais, usem fontes secundárias (por exemplo, ‘Leafly’) para fazer referência a nomes de variedades populares ou até mesmo alterem o nome da cepa se as vendas não forem adequadas”, advertiram os autores.

 

 

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Isso é consistente com um estudo separado, conduzido por pesquisadores da Universidade do Colorado, que analisou 90.000 amostras de maconha colocadas à venda em seis estados americanos.

A análise mostrou que os produtos podem ser divididos em três categorias, de acordo com seu conteúdo de terpenos: ricos em cariofileno e limoneno, ricos em mirceno e pineno, e ricos em terpinoleno e mirceno.

Essas categorias, entretanto, não equivalem ao esquema de classificação “indica”, “sativa” e “híbrida”, denominações comumente usadas para distinguir os efeitos de diferentes variedades de cannabis.

Uma classificação mais precisa dos produtos de maconha, levando em conta suas dezenas de compostos químicos, como os terpenos, é importante pois cada fitoquímico encontrado na planta pode influenciar o efeito experimentado pelo consumidor.

Os reguladores governamentais da maioria dos estados americanos onde a cannabis foi legalizada exigem que as empresas divulguem o teor de THC e CBD, mas não informações sobre outros compostos.

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Agora, o novo índice de quimiovares desenvolvido pelos cientistas da UNM pode ser útil para profissionais de saúde e pacientes que busquem informações mais precisas sobre as variedades de maconha e seus efeitos esperados.

“As descobertas fornecem ‘prova de conceito’ de que um sistema de indexação de quimiovar simples, mas abrangente, pode ser usado para identificar diferenças sistemáticas em resultados de saúde clinicamente relevantes para pacientes e outras experiências comuns em produtos de flores de cannabis, independentemente do nome comercial ou da variedade do produto”, escreveram os pesquisadores em sua conclusão.

Dito isso, vale destacar um relato de caso divulgado recentemente na Frontiers in Pharmacology que mostra a importância de se saber o perfil de terpenos de um produto de cannabis.

O artigo apresenta um caso em que o CBD puro não foi suficiente para controlar o comportamento agressivo grave em um paciente com transtorno do espectro autista (TEA). Contudo, a mudança para um extrato de maconha contendo terpenos selecionados resultou na eliminação gradual dos eventos agressivos.

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A importância dos terpenos e seu efeito comitiva nos tratamentos à base de cannabis já foi demonstrada em estudos anteriores.

Uma pesquisa do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Arizona encontrou evidências que posicionam os terpenos da maconha como um alvo promissor para terapias contra a dor.

Os pesquisadores descobriram que os terpenos amplificaram os efeitos analgésicos em modelos de camundongos, sem um aumento nos efeitos colaterais, quando foram combinados com canabinoides — o estudo se concentrou em quatro terpenos: alfa-humuleno, geraniol, linalol e beta-pineno.

Uma revisão da literatura científica publicada em 2020, na Molecules, relatou que a “sinergia fitocanabinoide-terpenoide pode melhorar os tratamentos de dor, inflamação, depressão, ansiedade, vício, epilepsia, câncer, infecções fúngicas e bacterianas”.

“Os perfis de terpenos não apenas incorporam as características dos genótipos de cannabis, mas seu efeito comitiva com canabinoides pode melhorar sua funcionalidade medicinal”, escreveram os autores.

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Fotografia de capa: Kimzy Nanney | Unsplash.

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