Squadafum: Eduardo Bueno fala sobre a influência da maconha na cultura brasileira e a descriminalização

Eduardo Bueno palestrando na ExpoCannabis Brasil, com o logo da Squadafum sendo apresentado no palco atrás. Foto: Squadafum

Eduardo Bueno compartilha suas ideias sobre o proibicionismo, guerra às drogas, bancada evangélica e uso adulto da maconha em entrevista à Squadafum

O jornalista, historiador e professor Eduardo Bueno, conhecido popularmente como “Peninha”, é uma figura marcante no cenário cultural do país. Sua personalidade é carismática e multifacetada, e o humor peculiar reflete em sua arte de contar histórias. 

Assumidamente “maconhólogo”, como ele se autodenomina, Peninha é conhecido  pela participação em diversos programas de televisão e rádio. Autor de obras ambiciosas, que trazem à tona detalhes pouco conhecidos e curiosidades sobre fatos históricos, o historiador foi convidado pela Squadafum para ser palestrante na 1ª edição da ExpoCannabis Brasil, que ocorreu no mês passado. 

Na ocasião, Eduardo Bueno falou sobre a história da proibição da maconha no Brasil.

Em entrevista recente à coluna da Squadafum, Peninha falou sobre suas experiências pessoais com a maconha e sua visão sobre os diferentes aspectos que envolvem a temática no Brasil. Confira, a seguir:

Como você faz o uso da maconha? Qual o papel dela no seu dia a dia?

Eu sou maconhólogo, um degrau acima. É um cara que se dedica, com afinco, com empenho e devoção ao conhecimento e ao usufruto dessa erva que há pelo menos mais de 5 mil anos vem fazendo milagres na sociedade. Eu fui criado numa bolha de privilégios absurda, então eu nunca tive dificuldade de exercer meu hábito fumarento pois sabia que nunca seria preso. Esse privilégio, que é tão característico do Brasil, explica por que tem tanto preto e pobre na cadeia.

A verdade é que eu devo todos os meus livros à maconha. As ideias que tive para escrever os meus livros, todas nasceram sob a influência benéfica da cannabis. Livros esses que, inclusive, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso demonstrou interesse em adotá-los nas escolas públicas. Na época, dei uma entrevista falando sobre essa relação da maconha com meus livros, e começaram uma campanha contra o material. “Olha aí, esse é o exemplo que vocês querem dar para as crianças”, eles diziam. 

A maconha tem desempenhado um papel significativo em várias culturas ao longo do tempo. Como você vê a influência da maconha na cultura brasileira?

É incrível como mesmo sabendo o imenso impacto da cultura afro-brasileira, do papel dos pretos e dos escravizados, quando falamos em maconha, imediatamente associamos com aquela coisa dos anos 60 pra cá — a qual a maconha teve, de fato, uma enorme influência na música, na literatura e no cinema. João Gilberto, por exemplo, criador da Bossa Nova, era um emérito maconhólogo. Ele amava maconha e a obra dele deve muito à maconha. Mas pense em todo o período pregresso a esse, no qual só escravizados, desvalidos, marginais, sambistas, capoeiristas e pessoas ligadas às religiões de matriz africana faziam uso da maconha. 

Temos que resgatar toda essa historia anterior, do papel cultural da maconha entre os escravizados e o momento imediatamente posterior à escravidão. Todas essas manifestações culturais tinham uma ligação direta com a erva sagrada. 

Você acha que só a descriminalização da maconha vai mudar o curso da história de racismo que é observada desde que a maconha foi proibida?

Vai ajudar mas evidentemente é só um ingrediente, é um tempero a mais. Eu acho que a principal responsabilidade de todo mundo que trabalha com história que nem eu, antropologia, sociologia ou cultura, e até mesmo quem não trabalha com isso, é a plena admissão, sem culpa — mas se quiser ter um pouquinho de culpa também, é bom ter —, de que esse é um dos países mais desiguais do mundo. O Brasil foi o país que recebeu o maior número de escravizados da história da humanidade, e o último país do ocidente a abolir a escravidão. 

A luta pela descriminalização da maconha faz parte da luta pela construção de um país melhor e de um mundo melhor. Mas ela não vai ser suficiente no sentido da luta contra o racismo estrutural, vai ajudar, mas a luta nesse caso é mais profunda e intensa.

Quais são as suas expectativas para o futuro? Quais obstáculos ainda temos que ultrapassar e o que podemos fazer para catalisar esse processo?

Bom, a mão invisível do mercado já tocou na maconha. O próximo passo é uma maior plasticidade social e a aceitação de falar abertamente sobre o uso adulto da maconha. 

Tem um obstáculo que o Brasil precisa encarar. Esses evangélicos não vão dominar nem o Senado, nem o Brasil. Essa é uma coisa que vamos precisar enfrentar, inclusive, em relação ao aborto, ao casamento homoafetivo etc. Eles são contra? Ok, não façam. Eu não vou obrigar ninguém a fumar, a fazer aborto, a se casar comigo, então, eles não vão mandar em nós.

Na sua visão e considerando em reparar danos às comunidades negras e pobres afetadas pela guerra às drogas, como seria pra você o modelo de regulamentação ideal no brasil?

A primeira coisa é a distinção clara entre quem vende, quem usa e quem planta. E o melhor mesmo seria as pessoas plantarem. É preciso regulamentar a quantidade e a possibilidade do consumo. Já é uma forma de distensionar. A descriminalização colabora para diminuição das injustiças, com relação a pretos, pobres e pardos. Já é um alívio, mas é aquilo: é um paliativo em relação a uma sociedade discriminatória, cruel, injusta e desigual. 

Como eu fui um dos caras que lutou muito contra o cigarro em lugares fechados, eu penso que essa história de fumar maconha em lugar fechado também não rola. O direito do outro acaba no momento que a fumaça dele me atinge, então se você acha isso em relação ao cigarro, você tem que achar isso em relação à maconha. 

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Sobre Squadafum

A Squadafum é uma empresa brasileira atuante no segmento de head shops e tabacarias, disponibilizando mais de 100 produtos diferenciados no mercado mundial. A empresa, fundada em 1994, atingiu notoriedade em seus mercados de atuação em função do pioneirismo demonstrado ao introduzir no território brasileiro muitos produtos até então inéditos e inacessíveis. De norte a sul, a Squadafum está presente em todo o Brasil, através de ampla rede de distribuidores e lojistas em todas as regiões, assim como acessível a todos consumidores através de seu website www.squadafum.com.br. Hoje, a gama de produtos Squadafum é igualmente distribuída na América Latina, América do Norte e Europa.
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