Terror nas favelas do Rio: operação policial mata nove pessoas e deixa milhares sem aula

Fotografia mostra barricadas em chamas no Complexo da Penha (Rio de Janeiro).

A barbárie promovida pelo governo do Rio de Janeiro também afetou várias unidades de saúde que tiveram seu serviço interrompido

As polícias Militar e Civil do Rio de Janeiro estão mostrando mais uma vez para que serve a “Guerra às Drogas”. Sob o pretexto de combater o comércio ilícito de substâncias, a polícia fluminense está levando terror a comunidades que já são desassistidas pelo Estado em suas necessidades básicas.

Além das chacinas que assassinaram quatro pessoas em São João de Meriti (Baixada Fluminense) e três pessoas em Flexal (Inhaúma), e a morte de duas pessoas no Complexo do Alemão, a operação policial conjunta realizada nessa terça-feira (27) — que também se estendeu aos complexos da Penha e da Maré e às comunidades de Trem, Engenho da Rainha, Juramento, Juramentinho, Ipase, Tinta, Quitungo, Guaporé, Cidade de Deus e Rocinha — afetou o funcionamento de escolas, unidades de saúde e transporte público.

Escolas fechadas

Na região do Complexo da Maré, 24 escolas foram impactadas em decorrência das operações policiais, prejudicando 8.140 alunos, segundo a Agência Brasil, citando dados da Secretaria Municipal de Educação.

O Complexo da Penha teve 16 escolas fechadas, o que afetou 4.894 estudantes. No Complexo do Alemão, 20 unidades escolares não abriram, deixando 7.185 alunos sem aula.

Já no Morro do Trem, duas escolas foram fechadas afetando 342 alunos, e nas comunidades do Quitungo e Guaporé duas unidades escolares tiveram seu funcionamento interrompido, prejudicando 455 estudantes. Na Cidade de Deus, 1.580 alunos ficaram sem aulas, após o fechamento de cinco escolas.

Nesta quarta-feira (28), mais escolas foram impactadas pelas operações policiais, desta vez em Bangu (Zona Oeste): na comunidade Vila Aliança, sete unidades escolares foram fechadas afetando 2.109 alunos; na região de Senador Camará, oito escolas tiveram seu funcionamento interrompido deixando 2.358 alunos sem aulas.

Em uma nota de repúdio à operação desastrosa, o Sindicato dos Profissionais da Educação do Estado do Rio de Janeiro (Sepe) afirma que há décadas vem denunciando a política de segurança do estado que violenta moradores e prejudica a educação e a saúde.

“O sindicato repudia profundamente essa triste situação, que coloca a dita cidade maravilhosa em um patamar de quase guerra civil — mas guerra civil contra o povo pobre e negro, que vive nas favelas”, afirma o documento.

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Saúde afetada

A Secretaria Municipal de Saúde informou que as Clínicas da Família Zilda Arns, no Complexo do Alemão, e Jeremias Moraes da Silva, na Maré, acionaram o protocolo de acesso mais seguro e, para segurança de profissionais e usuários, interromperam o funcionamento, segundo relatou o Voz das Comunidades.

O terror provocado pela polícia também afetou o funcionamento das Clínicas da Família Lourival Francisco de Oliveira, na Cidade de Deus, e Bibi Vogel, no Engenho da Rainha, bem como do Centro Municipal de Saúde Ariadne Lopes de Menezes, segundo a Agência Brasil.

As Clínicas da Família José Neves (Cidade de Deus), Diniz Batista dos Santos (Maré), Nilda Campo Lima (Cordovil) e Aloysio Augusto Novis (Brás de Pina), por sua vez, suspenderam as atividades externas realizadas no território, como as visitas domiciliares.

Os centros municipais de saúde Alexander Fleming e Waldyr Franco, na região de Bangu, também suspenderam suas atividades externas, nesta quarta-feira.

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Linhas de ônibus

Todas as linhas da empresa Viação Nossa Senhora de Lourdes, que tem sua garagem localizada na Penha, tiveram atraso por conta da barbárie promovida pela polícia fluminense, afetando cerca de 130 mil passageiros.

“O Rio Ônibus repudia mais um episódio de violência urbana que afeta a vida de passageiros e rodoviários. A recorrência dos casos reforça o apelo para que as autoridades competentes atuem em prol de garantir a segurança da população carioca”, disse o sindicato.

Estado leva o terror às comunidades

O Estado do Rio de Janeiro está promovendo a violência nos territórios que mais precisam de assistência. Conforme relatou a IDMJR, inúmeras denúncias evidenciam o não uso de câmeras corporais pelos policiais e invasões a residências que foram, inclusive, usadas pelos meganhas como base operacional.

O clima de tensão e terror nas comunidades cariocas começou logo nas primeiras horas do dia, com moradores que precisavam sair para trabalhar compartilhando nas redes sociais a ocorrência de tiroteio nas ruas. Segundo a ONG Voz das Comunidades, a Avenida Itaoca e a Estrada do Itararé foram bloqueadas pelos policias e todos os acessos ao interior do Complexo do Alemão foram fechados, obrigando os ônibus a mudar o itinerário.

Na Maré, policiais avançaram a pé por dentro da comunidade, enquanto as entradas da Nova Holanda foram bloqueadas com viaturas e caveirões (blindados) foram espalhados pelas ruas da favela. Na Rocinha, os meganhas também deslocaram várias viaturas para a comunidade.

Já no Complexo da Penha, conforme relatou a ONG, os policiais partiram em comboio em direção à comunidade durante a madrugada e ocorreram incêndios e confrontos durante toda a manhã, impedindo muitos moradores de sair para ir trabalhar.

De acordo com a Secretaria de Polícia Militar, o objetivo da atrocidade cometida nas comunidades é capturar lideranças do Comando Vermelho, uma das facções do crime organizado financiadas pela proibição das drogas que conta com a participação de policiais civis e militares.

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Necropolítica: a morte como política de estado

As operações realizadas pela polícia do Rio de Janeiro nos últimos sete anos resultaram em 283 chacinas com 1.137 civis mortos. O mapeamento foi feito pelo Instituto Fogo Cruzado considerando episódios violentos que resultaram em três ou mais mortes, ocorridos entre agosto de 2016 e julho de 2023.

De acordo com o levantamento, as chacinas policiais acontecem em toda a região metropolitana do Rio, mas não com a mesma frequência e letalidade. Enquanto na Zona Sul (área nobre da capital) foram registradas apenas nove chacinas com 39 mortos, na Zona Norte ocorreram 73 casos que deixaram 373 pessoas mortas. Já na Baixada Fluminense foram mapeados 72 casos com 255 mortos, e no Leste Metropolitano 70 casos que resultaram em 252 mortes.

Fora da área nobre do Rio, além de mais frequentes, as chacinas são mais letais. No Complexo do Salgueiro (Leste Metropolitano), por exemplo, 14 chacinas deixaram 66 mortes. Já a Maré teve dez casos com 51 mortos e a Penha sofreu 8 ocorrências que resultaram em 55 mortes, ambas na Zona Norte.

A maior chacina do Rio de Janeiro aconteceu no Jacarezinho (Zona Norte) em maio de 2021. A polícia realizou uma operação que durou cerca de 10 horas e terminou com 28 pessoas mortas.

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Fotografia em destaque mostra barricadas em chamas no Complexo da Penha. Imagem: reprodução / redes sociais.

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