Renato Cariani e o papel da indústria química no tráfico de drogas

Renato Cariani

O caso Cariani é só mais uma evidência de que o tráfico é uma rede complexa que necessita acessar os produtos advindos da indústria química

O fisiculturista, influenciador digital e empresário Renato Cariani, que acumula milhões de seguidores no Instagram e inscritos no Youtube, é um dos investigados na Operação Hinsberg, da Polícia Federal, realizada na terça-feira (12), que apura a utilização de produtos químicos para a produção de drogas.

De acordo com a investigação, a empresa Anidrol, localizada na cidade de Diadema em São Paulo, que tem como um dos sócios Renato Cariani, emitiu e faturou notas fiscais falsas em nome das empresas AstraZeneca, LBS e Cloroquímica, entre os anos de 2014 e 2021. Foram identificadas 60 transações envolvendo 12 toneladas de fenacetina, acetona, éter etílico, ácido clorídrico, manitol e acetato de etila, suficientes para produzir cerca de 19 toneladas de cocaína e crack.

Os investigadores relataram que os produtos eram entregues a Fábio Spínola Mota, amigo de Renato Cariani, que atuava como intermediador entre a empresa e o tráfico de drogas, Spínola teria criado um e-mail falso em nome de um suposto funcionário da AstraZeneca — foi a própria AstraZeneca que procurou o Ministério Público em 2019, para informar a emissão de notas fiscais em seu nome. Apontado como o elo entre a empresa Anidrol e o tráfico, Fábio Spínola Mota já havia sido preso em maio de 2023, no âmbito da Operação Downfall, por promover lavagem de dinheiro do tráfico de drogas.

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As investigações contra Renato Cariani começaram após o empresário receber depósitos em dinheiro vivo em nome da AstraZeneca, a Receita Federal notificou a AstraZenca para que ela explicasse o repasse de 103 mil e 108 mil reais nas contas da Anidrol, que alegou ter negociado cloreto de lidocaína com a AstraZeneca, a substância em questão é um dos insumos-base na produção de crack.

Em mensagens interceptadas pela Polícia Federal, Renato Cariani conversa com a sócia Roseli Dorth, como se soubesse que estava sendo monitorado, além disso, Roseli Dorth diz a Cariani que era possível retirar os rótulos dos produtos para despistar a fiscalização. A Polícia Federal também informou que, mesmo após ser chamada para prestar esclarecimento à Receita Federal, a empresa Anidrol continuou emitindo notas falsas.

Nas redes sociais, Renato Cariani se disse surpreendido com a operação, que a empresa tem todas as certificações, licenças nacionais e internacionais, que, assim como ele, os demais sócios estão sendo investigados, porém não tiveram acesso aos inquéritos devido ao segredo de justiça. No entanto, a polícia acredita que as substâncias químicas falsamente vendidas pela Anidrol foram utilizadas para abastecer o tráfico de cocaína comandado pela facção paulista PCC.

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Embora tenha declarado surpresa com a investigação, não há choque algum no desvelamento do papel da indústria química na produção de cocaína e crack. Até meados do século XIX, a folha de coca era consumida de forma mascada, em 1882 o químico alemão Albert Nieman extraiu o alcaloide cocaína da folha da coca. A partir daí, Albert conseguiu comprovar as propriedades anestésicas da substância — antes de ser proibida, as indústrias químicas e farmacêuticas exerceram um certo monopólio sobre a produção e venda de cocaína, que era amplamente consumida socialmente e utilizada na prática médica.

O primeiro documento relacionado sobre o crack é uma matéria de 1985 no jornal New York Times, nos EUA, e sua origem está vinculada ao atendimento do consumo de drogas nas regiões pobres, cujos moradores não possuíam renda para acessar drogas consideradas da elite como a cocaína. Afinal, da plantação da folha de coca à transformação em cloridrato de cocaína, requer um alto grau de investimento financeiro para cobrir os custos.

Para tentar inibir a produção de cocaína, a ONU restringiu a livre circulação de alguns solventes úteis para a fabricação de pasta-base, entre eles acetona e o éter. A dificuldade na obtenção desses compostos químicos levou à escassez de cocaína no primeiro momento, o que favoreceu a produção de crack que precisa apenas da adição do bicarbonato de sódio à pasta base.

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As etapas de produção de cocaína são em sequência: plantio, colheita, secagem das folhas, compressão com querosene, trituração com ácido sulfúrico, chegando na pasta-base. Logo após ocorre o refinamento cujos solventes éter, ácido clorídrico e acetona são aplicados. Portanto, é impossível pensar a expansão da produção e consumo de cocaína descolada da indústria química, já que existe uma completa dependência do narcotráfico dos insumos produzidos legalmente.

Segundo um relatório da Unodc, o mercado de cocaína cresceu no mundo em 35%, com a expansão para África, juntamente com as inovações tanto no cultivo quanto na produção — ainda de acordo com o relatório, o mercado brasileiro de cocaína é estimado em 100 toneladas por ano. Não só o consumo de cocaína tem se expandido no mundo, mas também as áreas de cultivo de coca que, devido à repressão financiada principalmente pelos EUA nos países da América do Sul, está promovendo uma reorganização do tráfico internacional com plantações se desenvolvendo no México, Guatemala e Honduras.

E mesmo nos lugares em que houve redução da região de plantio de coca, a exemplo da Colômbia, a produção de cocaína continuou em alta, sobretudo por causa da profissionalização fomentada pelo narcotráfico, que possibilitou o aumento da produtividade. Inclusive, numa estimativa feita pela Bloomberg Economics, a produção de cocaína representa 5,3% do PIB colombiano e deve ultrapassar a exportação de petróleo nesse ano de 2023, visto que em 2022 as exportações de cocaína alcançaram 18 bilhões de dólares e de petróleo 19 bilhões.

Diante disso, fica mais que evidente que o tráfico de drogas é uma rede complexa que necessita acessar os produtos advindos da indústria química. Em algum momento na cadeia produtiva das substâncias atualmente proibidas, os interesses dos traficantes e dos donos da indústria vão precisar entrar em acordo para que ambos possam sair ganhando.

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Imagem de capa: reprodução | Instagram.

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