“Quem fuma 200 baseados?”: deputado perde a linha com julgamento no STF

Deputado federal Maurício Marcon.

Deputado extremo-direitista usou a tribuna do Congresso para atacar o Supremo Tribunal Federal em razão do julgamento sobre a constitucionalidade da criminalização do usuário de drogas

O deputado federal Maurício Marcon (Podemos-RS) deu um show de histeria proibicionista na última terça-feira (29), quando, chacoalhando um saco de erva, perguntou berrando para a Câmara dos Deputados: “100 gramas são suficientes para fazer 200 baseados, quem fuma 200 baseados?!”.

A ira do bolsonarista se deve ao fato do Supremo Tribunal Federal (STF) estar próximo de formar maioria pela inconstitucionalidade da criminalização do porte de maconha para uso pessoal. O julgamento foi retomado há pouco mais de uma semana e formou um placar de 5 a 1 pela descriminalização, sendo que todos os ministros deram parecer favorável à criação de um parâmetro objetivo (quantidade) para a diferenciação entre usuário e traficante.

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Marcon estava descontrolado, no entanto, por causa de uma sugestão do ministro Luís Roberto Barroso de estabelecer a quantidade de 100 gramas de cannabis como  critério para caracterização de porte para uso.

O que para muitos consumidores não daria para fazer nem 100 baseados, a quantidade de 100 g de maconha proposta por Barroso na última sessão do STF que analisou o tema. A sugestão inicial do ministro, na verdade, era de 25 gramas, o que foi seguido por Cristiano Zanin, que votou contra a descriminalização do usuário.

A presidente do STF, ministra Rosa Weber, por sua vez, seguiu o voto de Alexandre de Moraes pela adoção de 60 gramas de cannabis como quantidade limítrofe para diferenciar o porte para uso próprio do tráfico.

Sem apresentar qualquer argumento plausível para justificar a criminalização do uso de maconha, o deputado fascista usou uma referência bíblica para condenar os votos na Suprema Corte.

“Há 2 mil anos atrás, Pilatos lavava as mãos, pois sabia que Jesus não deveria ser condenado e não queria entrar para a história como alguém que teria cometido uma injustiça. 2 mil anos se passaram e o Senado Federal desse país lava suas mãos perante os absurdos que o STF está cometendo”, declarou o parlamentar, como se fosse o dono da casa legislativa.

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O deputado continuou seu discurso reefer madness insultando o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD), dizendo que o senador é fraco e “envergonha a instituição Senado Federal”, e que sua “fraqueza” está permitindo que os ministros do STF “discutam a liberação da maconha em nosso país”.

Na sequência, Marcon falou sobre a sugestão de quantidade do ministro Barroso, puxou um saco contendo erva verde, que segundo o parlamentar era orégano, e disparou a pergunta insólita. Ele ainda regurgitou algumas das falácias clássicas dos proibicionistas, como que a descriminalização leva ao uso por jovens e que a cannabis é a “porta de entrada para a cocaína”.

Um vídeo do discurso tragicômico foi publicado nas redes sociais do parlamentar.

O show de horror promovido por Maurício Marcon na Câmara não é uma surpresa. Em uma live escancaradamente xenofóbica realizada em seu perfil no Instagram, o deputado disse aos seus seguidores que a Bahia é um lugar “sujo” e de “pobreza” em razão dos nordestinos não se importarem com política e não cobrarem os governantes e legisladores, e que “o público do Sul e Sudeste se importa demais [com política]”.

A fala xenofóbica foi feita após uma crítica ao Nordeste pela votação expressiva no presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a disputa presidencial, e a insinuação de que os baianos só votaram no petista por não terem educação.

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