Quase tudo que você precisa saber antes de votar

Fotografia que mostra um pequeno bud de maconha na ponta de uma haste metálica de corpo cobreado, na horizontal, e um fundo escuro. Imagem: THCameraphoto.

Eleições 2020 podem marcar (ou não) a guinada brasileira rumo à regulamentação das drogas

A guerra às drogas teve um papel fundamental em tornar o Brasil uma das sociedades mais violentas do planeta. Cerca de 30 mil pessoas são mortas todos os anos no país como sequela das disputas brutais entre facções e dos conflitos envolvendo a polícia. Além dessas baixas, milhares de mortos-vivos perambulam sem propósito pelas cracolândias dos grandes centros urbanos. O enfrentamento do problema é inadiável e só será possível a partir de políticas públicas. É aí que a porca torce o rabo, ainda mais enroscado em período eleitoral.

No dia 22 de junho de 1990, um rapaz foi preso na zona leste de São Paulo com 220 gramas de uma substância com aspecto rudimentar e tom amarelado. Era a primeira apreensão de crack na capital paulista. De lá pra cá o problema se alastrou na velocidade de uma tragada e ganhou as ruas como uma baforada se propaga pelo ar. Ao longo daquela década, dependentes da droga passaram a se concentrar no centro da cidade, na região da Luz, formando a primeira cracolândia brasileira.

Desde que a funesta epidemia do crack teve início, a capital paulista foi governada por prefeitos de direita, esquerda e centro. Até o fim da década de 2010, todos menosprezaram ou se acovardaram diante da situação, que se agravava a olhos vistos. Uma multidão de corpos cadavéricos se misturava a dezenas de pequenos traficantes num cenário que mais parecia um campo de refugiados, com fezes por todos os lados e cheiro de chorume no ar. A polícia fazia investidas periódicas e inúteis, já que a metástase mostrava-se imparável.

O jovem psiquiatra Dartiu Silveira, no entanto, tinha uma proposta diferente. Ele trabalhava com dependentes químicos e considerava que o abuso de drogas era a consequência, por isso priorizava tratar as causas do comportamento destrutivo. Assim, a maneira mais eficiente de ajudar essas pessoas, segundo Dartiu, seria dar a elas uma vida melhor e menos oprimida. Em vez de forçar a abstinência total do paciente, acreditava na redução de danos. Em 2013 elaborou um projeto para a cracolândia e foi ter com o então prefeito de São Paulo, Fernando Haddad.

Com apoio e verba da prefeitura, lançou o programa De Braços Abertos, que tinha princípios simples e bem definidos. Aos dependentes seriam oferecidos acolhimento, comida e um quarto para morar sem qualquer restrição quanto ao uso de drogas. Depois de devidamente instalados, lhes era dada a possibilidade de trabalhar na varrição de ruas, com remuneração diária de quinze reais, mais importante pelo valor simbólico do que pelo poder de compra. Era uma proposta inédita e inovadora, com muitos apoiadores e um batalhão de críticos.

Pouco a pouco os dependentes foram desmontando os barracos de lona da cracolândia e se mudando para os quartos de hotéis populares vizinhos, alugados ou reformados pela prefeitura. Tudo feito sem pressão sobre os viciados, de modo a quebrar a desconfiança causada pela repressão hostil do passado. Quase 500 pessoas foram atendidas pelo De Braços Abertos. Estima-se que 65% reduziram o consumo de crack, mais da metade voltou a ter contato com as famílias e 73% passaram a trabalhar em empregos oferecidos pelo programa. Outras tantas simplesmente pararam de usar crack depois de receber atenção, alimento e moradia. Uma iniciativa tímida mas promissora para combater um problema até então insolúvel.

Em 2016, contudo, São Paulo elegeu um prefeito que via a situação de modo próprio. Ainda antes de tomar posse, João Doria afirmou que a cidade era “um lixo vivo”, em clara referência aos moradores de rua, e prometeu higienizar a capital paulista. A princípio reduziu a verba do De Braços Abertos e demitiu diversos colaboradores. Progressivamente os dependentes foram deixados sem assistência e precisaram sair dos quartos. A cracolândia, que ainda se fazia presente, ganhou corpo e tornou-se mais ameaçadora. A panela de pressão havia voltado a chiar alto como antes.

Explodiu num domingo cedo, maio de 2017. Por volta das 6h30 da manhã, quase mil agentes das polícias civil e militar cercaram a área no centro da capital de SP. Bombas de gás lacrimogênio cruzavam o quarteirão para cair sobre o amontoado de indigentes. O efeito sonoro das explosões ajudava a desorientar aquela gente, que em poucos minutos se viu cercada por uma tropa militarizada e disposta a varrer o lixo para debaixo do tapete. Logo após vieram os tratores derrubando barracos e o que mais surgisse. Três pessoas ficaram feridas depois que uma escavadeira atingiu a parede de uma pensão. A prisão de traficantes e a apreensão de algumas armas deram ar de legitimidade à ação draconiana, que serviu de palanque midiático para o deslumbrado prefeito. Com a convicção de um apresentador de TV que sempre fora, Doria fez pose para tranquilizar com pompa os cidadãos paulistas. “A Cracolândia aqui acabou, não vai voltar mais. Essa área será liberada de qualquer circunstância como essa”, apostou.

Além de oportunismo e engodo, a frase de João Doria não apresentou os outros resultados pretendidos por ele. Sem assistência adequada do poder municipal, os dependentes logo voltaram a ocupar as ruas da cracolândia, e a reboque retornaram os traficantes. Hoje, cerca de mil pessoas vagueiam diariamente pela região, vendendo e comprando, matando e morrendo.

A questão das drogas, principalmente quando interligada à pobreza, é uma infecção que pode ferir de morte o corpo social. Não tem tratamento rápido nem fácil, não será resolvida no estalar de dedos e tampouco no estampido de fuzil. Mas é chegada a hora de enfrentar a situação de forma inteligente e coordenada, em prol do bem-estar coletivo e da integridade nacional.

É nesse cenário que devem ser entendidas as eleições dos próximos dias no país. Boa parte do mundo está repensando as políticas de drogas, com prioridade à liberdade individual e às leis econômicas naturais. Pelas urnas o Brasil vai se aproximar ou se afastar desse caminho civilizatório. Não há candidato capaz de resolver a situação de forma ágil e efetiva, mas é possível garimpar e votar em ideias corajosas que se levantem pela vida e contra a guerra.

Se no fim das contas qualquer governo vai te engolir, pelo menos escolha bem o molho com o qual será devorado.

Leia também:

Vai legalizar, e agora?

#PraCegoVer: em destaque, fotografia que mostra um pequeno bud de maconha na ponta de uma haste metálica de corpo cobreado, na horizontal, e um fundo escuro. Imagem: THCamera Cannabis Art.

Sobre Leonardo Padilha

Leonardo Padilha é advogado canabista, jornalista e especialista em educação. leonardopadilha.advogado@gmail.com
Deixe seu comentário
Assine a nossa newsletter e receba as melhores matérias diretamente no seu email!