Uso de psicodélicos está associado a menor incidência de sintomas psicóticos em adolescentes, diz estudo

Imagem mostra uma pessoa em perfil e usando fones de ouvido. Crédito: Viktoriia Skachkova | Vecteezy.

O uso de drogas psicodélicas pode estar associado a taxas mais baixas de sintomas de psicose entre adolescentes, de acordo com um novo estudo divulgado na JAMA Psychiatry, a renomada revista científica de psiquiatria da Associação Médica Americana

Buscando investigar associações entre o uso de psicodélicos e sintomas psicóticos ou maníacos em adolescentes, pesquisadores de diversas instituições de pesquisa e universidades europeias realizaram um estudo transversal com mais de 16.200 participantes.

A equipe avaliou a relação entre o uso passado de drogas psicodélicas e sintomas de psicose ou mania autorrelatados aos 15 anos de idade. Os dados foram extraídos do “Estudo sobre Crianças e Adolescentes Gêmeos na Suécia” e todos participantes inclusos no estudo responderam a perguntas relacionadas ao uso anterior de substâncias.

Os resultados do estudo revelam que o uso de psicodélicos como LSD e psilocibina foi associado à redução dos sintomas psicóticos entre adolescentes, após o ajuste para o uso de outras drogas. Ao mesmo tempo, independentemente de a análise ter sido ajustada, os autores observaram uma associação entre o consumo de substâncias psicodélicas e menos sintomas psiquiátricos.

“Ao ajustar o uso de drogas para substâncias específicas e agregadas, o uso de psicodélicos foi associado a menos sintomas psicóticos tanto nas análises de regressão linear quanto nas análises de controle de gêmeos”, escreveram os cientistas.

As análises também revelaram que o uso de psicodélicos foi associado a mais sintomas maníacos em indivíduos com maior vulnerabilidade genética à esquizofrenia ou transtorno bipolar I.

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Embora nenhum ensaio clínico moderno usando drogas psicodélicas tenha sido conduzido em indivíduos diagnosticados com esquizofrenia ou transtorno bipolar, de acordo com o conhecimento dos pesquisadores, as interações entre o uso de psicodélicos e a vulnerabilidade genética encontradas no estudo indicam que “a mania após a administração psicodélica pode ser mais provável em indivíduos com histórico pessoal ou familiar” das condições psiquiátricas.

“Tomados em conjunto, os resultados deste estudo sugerem que, após o ajuste para o uso de outras drogas, o uso naturalista de psicodélicos pode estar associado a taxas mais baixas de sintomas psicóticos entre adolescentes. Ao mesmo tempo, a associação entre o uso de psicodélicos e sintomas maníacos parece depender da vulnerabilidade genética à psicopatologia”, explicaram os pesquisadores em seu artigo.

De qualquer forma, os autores ressaltam que as descobertas devem ser consideradas à luz das limitações do estudo e interpretadas com “cautela”, até que sejam replicadas em estudos futuros.

Isso por que os dados obtidos não foram totalmente precisos, uma vez que o número total de respostas sobre o uso de psicodélicos foi maior do que o número de respostas sobre outras variáveis, não havia informações sobre o contexto em que os participantes usaram as substâncias e o desenho do estudo não pôde excluir a causalidade reversa (pode acontecer de um gêmeo com menos sintomas psicóticos ser, por alguma razão, mais propenso a consumir drogas psicodélicas do que seu cogêmeo com mais sintomas).

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Os pesquisadores, no entanto, destacam a importância do estudo para informar tanto os esforços de redução de danos quanto pesquisas futuras sobre o uso de psicodélicos fora do ambiente clínico.

Dito isso, a hipótese de que os participantes do estudo tenham melhorado seus sintomas em decorrência do consumo de drogas psicodélicas não conta com o apoio de estudos anteriores, pois as obsoletas diretrizes sobre pesquisa psicodélica recomendam que indivíduos com histórico pessoal ou familiar de transtornos psicóticos sejam excluídos da participação em ensaios clínicos.

Além disso, estudos com gêmeos raramente foram usados ​​em pesquisas psicodélicas.

“Existem preocupações de que um histórico pessoal ou familiar destas condições possa elevar o risco de episódios psicóticos ou maníacos após a administração de substâncias psicodélicas, mas a exclusão de tais indivíduos dos ensaios clínicos de terapia assistida por substâncias psicodélicas também limita a possibilidade de quantificar os riscos psiquiátricos”, advertem os autores.

Um estudo separado, publicado em 2023 na Psychiatry Research, descobriu que o uso regular de maconha por adolescentes e jovens adultos em alto risco de desenvolver psicose durante um período de dois anos não desencadeou a transição para o transtorno psicótico. Na realidade, o consumo contínuo de cannabis foi associado a melhorias na neurocognição e redução do uso de medicamentos.

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Imagem de capa: Viktoriia Skachkova | Vecteezy.

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