Policiais são presos por venda de drogas e armas apreendidas no Rio de Janeiro

O caso é mais um que revela um dos reais motivos para a manutenção da política proibicionista: o lucro que a “guerra às drogas” gera a quem a defende

Um grupo de policiais militares foi preso nesta terça-feira (14) após ser denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) pela prática dos crimes de organização criminosa, corrupção passiva e peculato. A denúncia revela que os PMs vendiam armas de fogo e drogas apreendidas em operações de combate ao tráfico e cobravam valores de comerciantes e mototaxistas.

Por meio da 2ª Promotoria de Justiça junto à Auditoria Criminal, foram expedidos 14 mandados de prisão e de busca e apreensão contra policiais que eram lotados no 39º Batalhão da Polícia Militar, em Belford Roxo (Grande Rio), na época em que ocorreram os crimes, entre os anos de 2019 e 2020. As ações praticadas pelos PMs são típicas das milícias, que atualmente dominam a maior parte do território do município fluminense.

A operação conduzida pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência do MPRJ e pela Corregedoria da Polícia Militar resultou na prisão de 13 policiais militares. Segundo o g1, os promotores descobriram que o grupo cobrava propina para não reprimir irregularidades de motoristas de transporte alternativo e de mototaxistas e exigia taxas semanais de comerciantes em troca de “proteção”.

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De acordo com a investigação, além das armas e drogas desviadas, os crimes de peculato praticados pelos policiais também envolvem a retirada de peças dos carros recuperados de roubos — os agentes removiam pneus, rodas e baterias dos veículos antes de registrar as ocorrências nas delegacias — e o desvio de aparelhos celulares apreendidos.

Os crimes foram descobertos após a análise dos dados extraídos do aparelho celular de Júlio César Ferreira dos Santos, cabo da polícia militar que responde por duplo homicídio na 1ª Vara Criminal de Belford Roxo. Junto com o soldado Jorge Luiz Custódio da Costa, ele é acusado de assassinar dois jovens em dezembro de 2020. Os corpos dos rapazes foram encontrados em uma região controlada pela milícia.

Embora tenham sido presos em flagrante na época, os dois policiais respondem pelos homicídios em liberdade. Uma decisão da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) concedeu habeas corpus aos meganhas, mediante cumprimento de medidas cautelares.

A operação deflagrada nesta terça-feira é só mais um caso que revela um dos reais motivos de a política proibicionista ser mantida e defendida por quem está no poder: o lucro que a “guerra às drogas” gera a certos grupos. Militares, senadores e membros da elite lucram de várias maneiras com a proibição das drogas, que até hoje não trouxe nenhum benefício para a sociedade, resultando apenas em violência e mortes (principalmente de pessoas negras e pobres).

Relembre outros casos que explicam um dos motivos de Rodrigo Pacheco, Sargento Fahur e companhia defenderem tão ferrenhamente a política de proibição, a seguir:

Helicoca da família Perrella

Em 2013, a polícia militar do Espírito Santo apreendeu quase meia tonelada de pasta-base de cocaína no helicóptero do então deputado estadual de Minas Gerais Gustavo Perrella. A aeronave era pilotada por um funcionário da Assembleia Legislativa mineira, que trabalhava no gabinete de Gustavo. Nesse caso, o legislador seguiu impune e as prisões por tráfico de drogas recaíram sobre os tripulantes.

Tráfico de maconha no Exército Brasileiro

A polícia civil prendeu cinco pessoas, incluindo três cabos do Exército Brasileiro, flagradas com mais de três toneladas de maconha na rodovia Anhanguera, em Campinas (SP), em agosto de 2016. A droga estava em um caminhão do 20º Regimento de Cavalaria Blindado do Exército, de Campo Grande (MS), e teria saído de Mato Grosso do Sul. Houve troca de tiros entre os militares e os agentes do Departamento Estadual de Repressão ao Narcotráfico (Denarc). Os milicos declararam em juízo que teriam recebido ordem de uma autoridade superior para transportar a carga.

Cocaína na fazenda do ministro

A Força Aérea Brasileira (FAB) apreendeu, em junho de 2017, mais de 650 quilos de cocaína em avião bimotor que decolou de uma fazenda de propriedade do grupo Amaggi, da família do então ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e Senador por Mato Grosso, Blairo Maggi. A droga foi apreendida em operação do Comando de Operações Aeroespaciais da FAB, que tinha o objetivo de interceptar voos que pudessem estar ligados ao tráfico de drogas na fronteira.

20 anos depois, tem cocaína no avião da FAB

Em 1999, o coronel Washington Vieira da Silva, o tenente-coronel Paulo Sergio Pereira e o major Luiz Antônio da Silva Griff, da Aeronáutica, foram presos pela Polícia Federal por transportar 32 quilos de cocaína em suas malas, quando embarcavam para a Europa, utilizando um avião da Força Aérea Brasileira. O coronel Washington foi condenado a 17 anos de prisão, porém somente em 2015, enquanto os outros dois foram condenados a 16 anos.

Passados 20 anos, em junho de 2019, o sargento Manoel Rodrigues foi preso na Espanha com 39 quilos de cocaína, durante uma viagem com o então presidente Jair Bolsonaro para o Japão. O militar da FAB acompanhava o alto escalão do Planalto em aeronaves desde 2016. Com Bolsonaro, o sargento realizou várias outras viagens: em fevereiro de 2019, entre São Paulo e Brasília; no mês seguinte, com o escalão avançado da presidência, passando por Brasília, São Paulo e Porto Alegre; e em maio do mesmo ano, para o Recife. Segundo-sargento da Aeronáutica na época, Rodrigues só foi expulso da corporação três anos após ter sido detido com cocaína na comitiva presidencial.

Maconha no avião do tio da Damares

Em maio do ano passado, a polícia federal apreendeu um avião pertencente à Igreja do Evangelho Quadrangular do Pará carregado com quase 300 quilos de maconha. O líder espiritual da seita é o ex-deputado federal Josué Bengston, que é tio e padrinho político da senadora Damares Alves (Republicanos-DF). De acordo com informações da PF, a aeronave era utilizada pelo pastor e por seu filho, Paulo Bengtson, que é secretário de desenvolvimento econômico do Pará.

Como é de praxe da aplicação da lei de drogas, aos Bengstons não houve nenhum tipo de sanção criminal. Em vez disso, um homem que caminhava no hangar onde estava o avião e correu ao ver a polícia foi preso em flagrante pelo crime de tráfico internacional de drogas.

Josué Bengston foi condenado em 2018 pela Justiça Federal à perda do mandato e dos direitos políticos por enriquecimento ilícito em esquema de desvio de recursos da saúde no Pará. Deputado federal por quatro mandatos (1999 a 2007 e 2011 a 2019), o pastor foi acusado pelo Ministério Público Federal pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

Polícia civil traficando maconha e cocaína

Em outubro, a polícia federal prendeu quatro policiais civis do Rio de Janeiro envolvidos na venda de uma carga de 16 toneladas de maconha. Usando viaturas da polícia civil e fardados, os agentes foram flagrados por câmeras de segurança escoltando o caminhão que trazia a droga do Mato Grosso do Sul. Segundo as investigações, os policiais receberam R$ 300 mil para garantir que o carregamento chegasse até o destino, na Zona Norte do Rio.

No dia seguinte, outra operação da polícia federal realizada dentro de uma delegacia carioca resultou no afastamento do delegado e três inspetores, suspeitos de desviar 280 quilos de pasta-base de cocaína. A Justiça determinou o bloqueio de bens dos policiais em R$ 5 milhões, valor que teria sido arrecadado com a venda da droga.

Senador proibicionista envolvido com tráfico de haxixe

A polícia militar de Santa Catarina apreendeu no início do mês cinquenta quilos de haxixe dentro de um galpão da JS Pescados, uma empresa de propriedade da família do senador bolsonarista Jorge Seif Júnior (PL-SC), localizada em Itajaí. O parlamentar extremo-direitista é uma das vozes mais estridentes na defesa da criminalização dos usuários de drogas. A polícia prendeu um dos funcionários do negócio de haxixe por tráfico — já o dono da firma, Jorge Seif, segue ileso.

Os Seifs também estão envolvidos com o tráfico de maconha. Em uma operação da Polícia Rodoviária Federal, realizada em março do ano passado, um caminhão da JS Pescados foi apreendido com uma carga de 323 kg de tabletes de cannabis. A apreensão resultou na prisão do motorista por tráfico de drogas.

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Imagem de capa: 39° BPM PMERJ.

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