Apreensão de 32 toneladas de maconha anunciada pela polícia espanhola era na verdade cânhamo

Fotografia mostra um grande saco plástico cheio de buds de cânhamo e a mão e parte do corpo do policial que o segura. Imagem: Guarda Civil da Espanha.

Flores apreendidas pela Guarda Civil da Espanha não possuem THC e são produzidas legalmente no país

No início do mês a polícia espanhola anunciou que havia feito a maior apreensão de maconha da história. A Guarda Civil disse que a “organização desmantelada” tinha mais de 32 toneladas de buds de cannabis armazenados em Toledo, Ciudad Real, Valência e Astúrias.

“Por meio de uma complexa rede de negócios, [os suspeitos] enviaram maconha embalada a vácuo para todo o território nacional, bem como para Suíça, Holanda, Alemanha e Bélgica, entre outros países europeus”, disse a polícia em comunicado.

Em uma das incursões, na província de Valência, a polícia diz ter encontrado 30.500 quilos de cogollos (buds) de cannabis embalados a vácuo, 21.600 plantas em processo de secagem e 231.200 “maços de cigarro” contendo maconha.

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A operação que fez ataques em toda a Espanha, resultou na prisão de 20 pessoas e varreu os jornais de todo o mundo com o grupo sendo referido muitas vezes como “quadrilha” pode ser, na verdade, uma das ações mais desastrosas que a polícia espanhola já cometeu em sua insana guerra contra a planta.

Segundo uma reportagem divulgada pela BusinessCann, as flores apreendidas tratam-se, na realidade, de cânhamo produzido legalmente e estavam nas instalações da E-Canna, uma empresa de processamento devidamente autorizada e registrada desde a sua fundação, em outubro de 2021, com sede em Valência.

“Há uma perseguição nacional em relação à criminalização e estigmatização da cannabis. Para eles, qualquer coisa relacionada com o cânhamo é uma ofensa e este não é o caso; as autoridades estão cometendo abusos. O que está acontecendo aqui é prevaricação”, denunciou Francisco Gomez Carbó, CEO da E-Canna.

 

 

Carbó disponibilizou vários documentos à BusinessCann comprovando que a empresa processa somente cânhamo (maconha com até 0,2% de THC e legal sob a lei espanhola) e disse que a demanda por flores e produtos de biomassa de cânhamo da E-Canna e seus serviços de assessoria técnica e consultoria jurídica cresceu 300% nas últimas semanas.

“Os clientes viram que eu tinha sido libertado e que a empresa continuava operando, e entenderam que estávamos fazendo a coisa certa”, afirmou o empresário.

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A diretora administrativa da empresa, Soraya Calvo, disse à BusinessCann que a informação anunciada pela polícia espanhola é falsa, uma vez que se tratavam de fato de 25 toneladas de flores e por classificar como “droga” (ou seja, cannabis com alto teor de THC) antes de passar pela devida análise laboratorial.

“Entraram encapuzados e com armas nas mãos, obrigando todo mundo a deitar no chão, como se fôssemos traficantes. Não havia necessidade disso. Nossas portas estão sempre abertas e prestamos contas de absolutamente tudo que entra e sai da E-Canna”, disse ela.

A empresa já apresentou documentação à Justiça, que determinou que as flores permaneçam apreendidas e que a E-Canna continue com suas atividades normais, enquanto as provas fornecidas pela defesa são analisadas.

A empresa conta com 15 colaboradores divididos entre o escritório e os dois armazéns e serve mais de 40 agricultores de cânhamo de toda a Espanha.

Os agricultores são obrigados a ter um contrato com uma empresa processadora para garantir a rastreabilidade da colheita, além de usar sementes certificadas e serem registrados no registro agrário de sua comunidade autônoma. “Também orientamos os agricultores a informar a atividade à Guarda Civil. Se não tiverem esses papéis, não trabalham comigo, porque tenho que garantir a legitimidade de cada produto”, destacou Carbó.

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O empresário disse ao El País que tem boas relações com o grupo Roca (contra a criminalidade rural) da Guarda Civil de Xàtiva, que conhece sua atividade, e que agentes da cidade de Benigánim passam pela sua empresa todos os dias para reforçar a proteção antifurto. “Toda vez que uma remessa chega ou sai, eu os aviso”, afirmou.

A E-Canna é hoje o principal elo entre o cânhamo produzido na Espanha e sua distribuição para outros países da Europa. Suíça, Bélgica, Alemanha e Países Baixos já compraram flores de cânhamo processadas pela empresa.

Em junho, a Comissão de Saúde do Congresso dos Deputados da Espanha aprovou um relatório pedindo a ampliação do uso medicinal da cannabis no país.

O relatório, elaborado por uma subcomissão criada para analisar experiências de regulação da maconha para uso medicinal, prevê que medicamentos derivados da cannabis possam ser prescritos para casos de esclerose múltipla, epilepsia, náuseas e vômitos derivados de quimioterapia, entre outras doenças.

As associações de pacientes estimam que pelo menos 300.000 pessoas na Espanha poderiam se beneficiar com acesso legal a produtos derivados da maconha.

Atualmente, apenas dois medicamentos à base de cannabis têm autorização de comercialização da Agência Espanhola de Medicamentos e Produtos Sanitários, o Sativex, para tratar a rigidez muscular ligada à esclerose múltipla, e o Epidiolex, para convulsões epiléticas.

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