Loucura proibicionista: pesquisadores da UFRJ criminalizam THC em kit de diferenciação de cannabis

Fotografia mostra o topo de uma planta de maconha florida, com pistilos alaranjados e folhas serrilhadas escuras, repleta de tricomas, e um fundo escuro. Imagem: Alex Person | Unsplash.

Kit pretende diferenciar maconha lícita da ilícita pelo teor canabinoide — pesquisadores dizem que somente o canabidiol é medicinal

O movimento anticiência chegou na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e está determinado a manter o status quo de proibição da maconha.

Uma equipe de pesquisadores do Laboratório de Síntese e Análise de Produtos Estratégicos (Lasape) do Instituto de Química da UFRJ e do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE) da Polícia Civil do Rio de Janeiro anunciou nessa semana que desenvolveu um kit capaz de diferenciar a cannabis ilícita da lícita.

Batizado de “Kit DLM Cannabis”, o kit consiste de um teste colorimétrico (Duquenois-Levine) com um reagente que fica azul ao ser exposto ao canabidiol (CBD) e roxo na presença de tetraidrocanabinol (THC).

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Em um pôster de divulgação do kit, os pesquisadores negam todos os estudos científicos que demonstram os efeitos medicinais do THC ao dizer que somente o CBD é medicinal.

“Desenvolvemos neste projeto a produção de um kit de detecção de canabinoides, proporcionando uma metodologia segura para diferenciação de espécies de Cannabis ilícitas (a qual contém em sua maioria o composto 9-delta tetraidrocanabinol-THC) e Cannabis medicinais (contém em maior proporção canabidiol-CBD)”, escreveram.

Os pesquisadores do Lasape, ao associarem o THC à ilegalidade e o CBD ao uso medicinal da cannabis, estão desinformando o público e deturpando o debate sobre a legalização da maconha. Uma atitude que promove a histeria anticannabis e criminaliza os pacientes que necessitam do tetraidrocanabinol em seu tratamento de saúde.

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O Instituto de Química da UFRJ deveria ter mais responsabilidade na divulgação de informações olhando mais para as evidências científicas. A eficácia medicinal do THC e da maconha in natura com alto teor do canabinoide vem sendo demonstrada em um número crescente de estudos. Em instituições de pesquisa sérias, os pesquisadores estudam, inclusive, o desenvolvimento de variedades de cannabis com níveis mais elevados de tetraidrocanabinol.

A pesquisa científica já revelou a eficácia do THC no tratamento de diversas doenças, incluindo transtorno do estresse pós-traumático (TEPT), autismo, Alzheimer, fibromialgia, síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), esclerose múltipla, dor neuropática, glaucoma, câncer e entre outras.

Felizmente, a UFRJ também conta pesquisadores sérios que entendem que o modelo proibicionista é uma das maiores barreiras à pesquisa da cannabis e que a proibição não tem embasamento científico, como o professor João Menezes, do Instituto de Ciências Biomédicas da universidade.

“A maconha vem sendo testada desde a década de 1970, com resultados promissores, mas, apesar disso, esses estudos não avançam. O avanço é lento, por que a proibição impede os experimentos em humanos e também os estudos pré-clínicos, necessários para muitos dos compostos. É difícil a licença de importação, a obtenção de material, a obtenção da própria planta para a experimentação. Precisamos de muita regulamentação para que se possam fazer pesquisas farmacêuticas rigorosas, randomizadas e controladas. O resultado é que nos mantemos sem um medicamento nacional, seguro, de acesso em nível farmacêutico” — médico e professor João Menezes, para a CEE-Fiocruz.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra o topo de uma planta de cannabis florida, com pistilos alaranjados e folhas serrilhadas escuras, repleta de tricomas, e um fundo escuro. Imagem: Alex Person | Unsplash.

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