Consumo de maconha não está associado a maior risco de acidente de carro, diz estudo

Foto mostra mulher ao volante com um baseado na boca. Imagem: Unsplash / Elsa Olofsson.

Pesquisa foi financiada pelo Insurance Institute for Highway Safety (IIHS), instituto estadunidense dedicado à segurança nas estradas

A pessoa que consome maconha e conduz um automóvel não tem maiores chances de se envolver em um acidente do que se estivesse dirigindo sem estar sob o efeito da planta, segundo o novo estudo, que analisou as visitas de motoristas a serviços de emergência.

Os dados publicados na revista Accident Analysis and Prevention revelam ainda que o elevado uso agudo de cannabis autorrelatado foi associado a menores chances de uma colisão de veículo motorizado (CVM).

Já o consumo agudo de álcool, isoladamente ou combinado com maconha, foi consistentemente associado a maiores probabilidades de envolvimento em acidente.

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Para chegar a essas descobertas, pesquisadores de universidades do Oregon, do Colorado e da Califórnia examinaram a relação entre o uso de cannabis e álcool e a ocorrência de colisões veiculares entre pacientes em departamentos de emergência.

A equipe obteve o sangue dos motoristas e mediu o THC (tetraidrocanabinol) e seus metabólitos e determinou os níveis de álcool utilizando bafômetro ou através de amostras colhidas durante o atendimento clínico. Os participantes responderam a uma entrevista que consistia em perguntas sobre o uso de drogas antes da visita, contexto de uso e consumo de substâncias no último ano.

Os pesquisadores constataram que a maconha por si só não foi associada a maiores chances de colisão, enquanto o uso agudo de bebida alcoólica sim. Eles também descobriram que níveis mais elevados de consumo de cannabis não foram associados a probabilidades mais elevadas de acidente, com ou sem couso de álcool.

A análise dos dados revelou ainda que os motoristas que usavam mais maconha tinham menos chances de bater o carro. “O elevado consumo agudo de cannabis autorrelatado foi associado a menores probabilidades de CVM”, escreveram os autores.

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Em sua conclusão, os pesquisadores apontam que o nível de THC no organismo não é um indicador confiável da influência da maconha na condução, uma vez que as implicações dos níveis medidos são complicadas por fatores como consumo habitual, tempo e meios de medição.

“O uso de álcool isoladamente ou em conjunto com cannabis foi consistentemente associado a maiores chances de CVM. Contudo, a relação entre os níveis medidos de cannabis e CVM não era tão clara. A ênfase nos comportamentos reais de direção e nos sinais clínicos de entorpecimento para determinar a direção sob influência tem a lógica mais forte”, afirma o artigo.

Os autores também identificaram algumas limitações do estudo, como o fato de que os motoristas que concordaram em participar “podem ter comportamentos de uso de drogas menos preocupantes, particularmente aqueles relacionados a eventos como CVM, onde podem estar preocupados com a possibilidade de serem culpados”.

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Esse não é o primeiro estudo a constatar que os níveis de THC no organismo de uma pessoa não têm correlação com o desempenho na condução de veículos. Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Clinical Chemistry concluiu que a detecção do canabinoide ou seus metabólitos no sangue, na respiração ou no fluido oral dos indivíduos não é preditiva da incapacidade de dirigir.

Um estudo publicado em 2022 na Scientific Reports chegou a mesma conclusão, e ainda identificou uma “relação inversa” entre os níveis sanguíneos de THC e o comprometimento do desempenho, após os participantes fumarem maconha.

Os resultados são consistentes com uma revisão da literatura científica realizada por pesquisadores da Universidade de Sydney (Austrália), e divulgada em 2021 na revista Neuroscience & Biobehavioral Reviews, onde foi constatado que as concentrações de THC no sangue e fluido oral são indicadores relativamente baixos ou inconsistentes de comprometimento induzido por cannabis.

“As concentrações de THC no corpo claramente têm uma relação muito complexa com o inebriamento. A relação forte e direta entre as concentrações de álcool no sangue e a dificuldade de dirigir incentiva as pessoas a pensar que tais relações se aplicam a todas as drogas, mas certamente não é o caso da cannabis”, disse Iain McGregor, um dos autores da revisão, em comunicado.

O estudo australiano também descobriu que o entorpecimento subjetivo — como os indivíduos “chapados” relataram que se sentiam — também estava fracamente associado à deficiência real.

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Fotografia de capa: Unsplash / Elsa Olofsson.

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