Legalização da maconha está associada a menor risco de lesão pulmonar por vapes contaminados

Fotografia mostra a boca de uma pessoa, que expele uma nuvem de vapor, e parte de um vaporizador em forma de caneta, em fundo escuro. Imagem: Lindsay Fox | Flickr.

O acesso a mercados legais de cannabis pode ter sido protetor para pessoas que vaporizaram cannabis durante o surto de lesões pulmonares relacionadas a produtos de cigarros eletrônicos contaminados em 2019, segundo um novo estudo

Pesquisadores chegaram a essa conclusão analisando a prevalência de vaporização de maconha, a carga de casos de lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou produto vaping (EVALI) e as leis de cannabis em 13 estados americanos. As descobertas foram publicadas recentemente na revista PLoS ONE.

O estudo revelou que a maior prevalência de vaporização de maconha em estados que legalizaram a planta para uso médico ou adulto não está associada a uma porcentagem maior de casos de EVALI, quando comparado com estados onde a cannabis ainda é proibida. Os dados analisados foram obtidos a partir do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco Comportamental de 2019 e dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA.

A equipe formada por cientistas da Johns Hopkins, da Associação Americana do Coração, do Hospital MedStar Union Memorial e do Hospital Universitário Brookdale analisou dados de quatro estados que proíbem a cannabis, sete estados que legalizaram o uso medicinal e dois estados que regulamentaram a maconha para uso adulto, e descobriu que “a prevalência de vaporização de cannabis em nível estadual não foi positivamente associada ao número de casos de EVALI, mesmo depois de contabilizar políticas estaduais de cannabis”.

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E não só isso, a análise ainda revelou “uma associação inversa entre a prevalência estadual de vaporização de cannabis e a carga de casos de EVALI”.

Isso significa que os estados americanos com níveis mais altos de vape de maconha tiveram menores taxas de lesão pulmonar, o que pode ser explicado pelo fato de esses estados terem legalizado a cannabis e proporcionado fontes seguras aos consumidores.

“Essas descobertas, portanto, sugerem que pode não haver uma ligação direta e simples entre a prevalência de vaping de cannabis de um estado e os casos de EVALI, mas a relação provavelmente é mais sutil, apoiando a hipótese do CDC de que o surto EVALI provavelmente reflete o acesso a fontes informais de líquidos para cigarros eletrônicos (e-líquidos) contendo THC”, escreveram os autores.

 

 

Além disso, embora a prevalência de vaporização de cannabis tenha sido baixa em estados com leis proibitivas, “os indivíduos desses estados podem obter cannabis de fontes ilegais, aumentando o risco de usar produtos contaminados e, consequentemente, a maior prevalência de casos EVALI nesses estados”, aponta o estudo.

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“Por outro lado, em estados com leis de cannabis medicinal ou recreativa, embora com maior prevalência de vaping de cannabis, é provável que os indivíduos obtenham cannabis de fontes legais, reduzindo o risco de contaminação”, disseram os pesquisadores, ressaltando que estudos anteriores já haviam demonstrado que “a presença de mercados legais de cannabis pode ter sido protetora contra a EVALI”.

A contaminação à que os autores do novo estudo se referem trata-se do acetato de vitamina E, uma substância encontrada em alguns e-líquidos do mercado ilícito e que se acredita ser a causa da epidemia de lesões pulmonares em 2019.

Embora o número de casos de EVALI relatados tenha diminuído significativamente, os autores disseram ser necessário uma vigilância contínua da vaporização de cannabis. “Em particular, devem ser envidados esforços para desencorajar a venda de produtos contaminados no mercado ilícito para prevenir futuros surtos”, alertaram.

“A prevalência de vaping de cannabis em nível estadual não foi positivamente associada à prevalência de EVALI. Isso sugere que o surto de EVALI pode não ter sido necessariamente um simples reflexo da prevalência de vaping de cannabis em nível estadual, mas sim devido ao uso de produtos vaping contaminados de origem ilícita, que são mais prováveis ​​em estados com leis restritivas de cannabis”, concluíram os pesquisadores.

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O novo estudo é mais uma prova de que a legalização da maconha traz muito mais benefícios à saúde pública do que a proibição.

Um artigo publicado em julho por pesquisadoras da Universidade do Sul da Califórnia levanta evidências de que a legalização federal da maconha é uma oportunidade para implementar regulamentações que melhor protejam a saúde pública e promovam o uso responsável.

“As políticas de legalização da cannabis podem minimizar as ameaças à saúde pública ao mesmo tempo em que alcançam justiça social, equidade e objetivos econômicos”, escreveram as autoras, ressaltando que as políticas de legalização têm o condão de promover o uso moderado e desincentivar o abuso.

Um estudo separado da Universidade Estadual de Washington descobriu uma queda de 37% nos relatos de intoxicação por canabinoides sintéticos, como Spice e K2, em estados americanos com cannabis legal em comparação a 13% de queda em estados com políticas restritivas.

Outro estudo publicado em maio por pesquisadores de Washington revelou que pessoas de 21 a 25 anos eram menos propensas a consumir bebidas alcoólicas, cigarro e analgésicos não prescritos após a regulamentação da maconha para uso adulto no estado.

Os consumidores de tabaco, no entanto, também podem estar migrando para uma alternativa mais saudável ao cigarro convencional, uma vez que o estudo descobriu que a prevalência de uso de cigarro eletrônico no último mês aumentou desde 2016.

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#PraTodosVerem: fotografia mostra a boca de uma pessoa, que expele uma nuvem de vapor, e parte de um vaporizador em forma de caneta, em fundo escuro. Imagem: Lindsay Fox | Flickr.

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