Joana da Paz documentou com sua câmera as consequências da proibição das drogas

Retrato de Joana da Paz segurando uma câmera nas mãos, para onde olha. Foto: O Globo.

De crianças consumindo drogas a policiais militares recebendo propina, as imagens capturadas por Joana da Paz demonstraram as consequências nefastas do modelo proibicionista

Entre anos de 2003 e 2004, uma moradora de um prédio em Copacabana, Rio de Janeiro, filmou da janela da sua sala as movimentações do tráfico de drogas na Ladeira dos Tabajaras, após entrar com uma ação contra o Estado alegando que a violência estava levando à desvalorização dos imóveis da região. Cansada da inoperância estratégica da polícia, a reclamante então resolveu provar através de imagens o que estava ocorrendo na vizinhança.

Na época com 80 anos, a alagoana Joana Zeferino da Paz adquiriu uma câmera Panasonic, parcelada em 12 vezes, e filmou da janela do 8º andar o cotidiano do comércio varejista de drogas, o resultado final foram 22 fitas VHS com 33 horas de gravação, que acabaram sendo entregues à Coordenadoria de Inteligência da Polícia Civil carioca. As imagens registradas por Joana da Paz se tornaram denúncia pública em 2005, através do jornalista Fábio Gusmão, do jornal Extra.

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Com a publicação da matéria, Joana da Paz precisou deixar o imóvel que morava há 36 anos, para fazer parte do Programa de Proteção à Testemunha — pela sua segurança, precisou mudar de nome e de estado, por 17 anos morou em Salvador, onde veio a falecer na Quarta-Feira de Cinzas, 23 de fevereiro de 2023, no Hospital Geral do Estado, vítima de um acidente vascular cerebral. Só após a sua morte é que sua verdadeira identidade veio à tona.

Mas o que tinha nas gravações feitas por Joana da Paz? Muito além de registrar a existência de homens armados e vendendo drogas, o que já era algo bastante comum no Rio de Janeiro, as imagens capturadas por Joana demonstraram as consequências nefastas do modelo proibicionista. De crianças consumindo drogas a policiais militares recebendo propina, o que foi gravado denuncia o quanto a proibição das drogas é muito mais danosa à sociedade do que o próprio consumo dessas substâncias.

Imagem: Joana da Paz

Os flagrantes realizados por Joana da Paz resultaram na prisão e condenação de traficantes e policiais, mostrando que nem só de conflito vive a relação entre o Estado e o tráfico. Muito pelo contrário, se o tráfico de drogas conseguiu alcançar tamanha proporção é por que as instituições públicas são as principais sócias do varejo de drogas, haja visto que com a própria proibição o Estado criou o tráfico. Por isso, a corrupção policial não deve ser vista como um desvio, mas uma necessidade para o funcionamento do mercado ilegal, em que policiais e traficantes repartem os lucros obtidos.

Graças também à proibição, crianças e adolescentes estão expostas ao consumo precoce de drogas, embora a legalidade do álcool não impeça completamente que pessoas abaixo dos 18 anos bebam. Porém, não podemos negar que a regulamentação tenha a capacidade de dificultar o acesso às drogas que se encontram proibidas, estabelecendo políticas que promovam a classificação etária para a compra das mesmas. Nos EUA, por exemplo, a despeito do pânico moral do discurso proibicionista, que fala sobre um consumo generalizado se as drogas forem legalizadas, o recente processo de legalização da maconha tem registrado a diminuição do uso pelos adolescentes.

A história de Joana da Paz vai ser abordada no filme “Vitória”, com lançamento previsto para 2024. Se quisermos evitar que as cenas documentadas na Ladeira dos Tabajaras deixem de ser ainda uma realidade provavelmente persistente, é necessário que acabemos com a proibição, que vem possibilitando que a existência de homens armados, consumo irresponsável de drogas e corrupção policial não sejam uma mera obra de ficção.

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Foto de capa: Fábio Gusmão | O Globo.

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