Pesquisadores traçam a história do uso da maconha e encontram relação da planta com a necromancia

Foto: Freepik.

Artigo traça a trajetória histórica da cannabis através de milhares de anos

Buscando fazer uma revisão histórica do uso da cannabis, um artigo publicado recentemente no European Journal for Chemistry explora as várias utilidades da maconha e como a humanidade se relacionou com a planta ao longo dos milênios.

O artigo “Das antigas relíquias asiáticas à contemporaneidade: uma revisão dos aspectos históricos e químicos da Cannabis”, de autoria dos pesquisadores Gabriel Vitor de Lima Marques e Renata Barbosa de Oliveira, da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal de Minas Gerais, evidencia a incoerência da proibição de uma planta que é utilizada há milênios como alimento, matéria-prima para a produção de fibras, instrumento religioso e medicamento.

“Das montanhas do Himalaia até a costa sul-americana, a cannabis, termo geral para plantas do gênero Cannabis, com milhares de anos de contato com a humanidade, mostra sua versatilidade como recursos alimentares como o cânhamo, insumos religiosos e hedonistas e outras finalidades através dos milênios, de acordo com as populações em questão”, escreveram os autores.

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Após uma breve introdução explicando as características biológicas da planta da maconha e como o clima ameno e seco após o fim do último período glacial — há aproximadamente 10.000 anos — foi propício para o cultivo de plantas de subsistência, os pesquisadores afirmam que a cannabis foi considerada um dos cinco principais grãos pelos povos antigos, junto ao arroz, soja, cevada e milho.

As sementes encontradas nos frutos aquênios da cannabis, “ricas em proteínas (como albumina e edestina) e ácidos graxos insaturados essenciais (como os ácidos linoleico e linolênico)”, eram utilizadas pelos povos antigos como alimentos e também para a produção de outros produtos, como o sabão, explicam os autores. Além disso, a fibra obtida a partir dos talos da planta era usada para fazer cordas para ferramentas, velas e cordames de navios, tecidos para roupas e papel.

Uma prova da longa coexistência da humanidade com a maconha são relíquias arqueológicas que datam uso da fibra da planta como tecido em aproximadamente 8.000 anos antes da era comum (AEC) na antiga Mesopotâmia (onde hoje ficam o Irã e Iraque), e em 4000 AEC e 3000 AEC na China e no Cazaquistão, respectivamente, como material para fabricação de cordas. Segundo os pesquisadores, até o início do século XIX, cerca de 80% dos tecidos, velas, cordas e entre outros itens eram produzidos com cânhamo.

“Utilizada como atordoante para facilitar a captura de peixes, a cannabis é possivelmente a primeira planta a ser cultivada para fins não alimentares”, disseram os autores, se referindo aos usos da maconha relacionados às suas propriedades farmacognósticas. Eles citam um curioso efeito da planta mencionado na Pen-Ts’ao Ching (a farmacopeia mais antiga do mundo, compilada no século I, mas relacionada a períodos que remontam a 2700 AEC): o livro chinês afirma que o “Ma-fen (‘fruto’ da cannabis)”, se ingerido em excesso, pode fazer com que o usuário veja demônios e que seu uso a longo prazo faz com que a pessoa se comunique com espíritos.

Também há relatos do uso da maconha na necromancia. Um sacerdote taoísta do século V da era comum (EC), que comentou o Pen-Ts’ao Ching, escreveu numa obra de sua autoria que a cannabis era usada pelos necromantes, em combinação com ginseng, para prever o futuro.

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Os primeiros usos da cannabis como recurso terapêutico e narcótico são vistos na região da Índia, por volta de 1000 AEC, principalmente por causa de suas conotações religiosas. A maconha é descrita nos Vedas como uma das cinco plantas sagradas, “acreditava-se ela que surgiu de uma gota de amrita (néctar sagrado) que caiu do céu sobre a terra e era capaz de trazer alegria e liberdade a quem a utilizava”. Três preparações de cannabis eram comuns: bhang, composta por folhas secas da planta; ganja, feita das inflorescências; e charas, feito basicamente de resina pura, equivalente ao haxixe.

A maconha era usada em várias ocasiões, desde casamentos e reuniões familiares até festivais como o Holi e cerimônias religiosas como o Durga Puja. “Entende-se que a maconha é tão significativa e respeitada para essas pessoas quanto o vinho da comunhão ou a hóstia sagrada é para os cristãos. Pelas suas outras facetas, a medicina aiurvédica utilizou a cannabis praticamente como uma panaceia: como analgésico, antiespasmódico, anticonvulsivante, anti-inflamatório, afrodisíaco e anafrodisíaco, estimulante do apetite, tratamento de doenças do trato feminino, abortivo, indutor do parto, entre diversas outras aplicações”, explicam os pesquisadores.

Os povos semitas também conheciam as propriedades psicoativas da maconha séculos antes da era cristã. “Seus usos medicinais variam desde pomadas para lesões externas até preparações orais para diversas enfermidades e ‘doenças do espírito’. Era comum na região Mesopotâmica/Persa a utilização de incenso à base de cannabis em determinados rituais sociais, como funerais, por exemplo, o que é inclusive mencionado na versão aramaica do Antigo Testamento da Bíblia para fins aromáticos e narcóticos”, acrescentam os autores. “Propõe-se que a cannabis tenha sido introduzida no continente africano por mercadores árabes antes do século XV.”

Através de escravos africanos, o Brasil foi o primeiro local da América do Sul a introduzir a cultura da cannabis. O próprio termo maconha tem origem no dialeto nativo dessas populações. Comum na área do Nordeste brasileiro, “a cannabis era utilizada principalmente em rituais religiosos culturais e mágicos, como o catimbó, para celebrar as divindades acreditadas por essas populações, bem como para alguns fins terapêuticos, como analgésicos e antiespasmódicos”. Em razão de sua associação a esses grupos étnico-raciais mais vulneráveis, a maconha era conhecida como o “ópio dos pobres” e até hoje tem uma conotação pejorativa e estereotipada no país.

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O conhecimento fitoterápico, inclusive sobre os benefícios medicinais da cannabis, foi demonizado pela Igreja Católica durante a Idade Média e, assim, as propriedades terapêuticas da maconha foram sendo “escondidas e omitidas” nos territórios europeus. Embora alguns pesquisadores tenham citado as propriedades benéficas da planta, como o inglês Nicholas Culpeper, no século XVII, até o século XIX o uso da cannabis na Europa era predominantemente como cânhamo.

Na virada do século 18 para o 19, com a invasão do Egito por Napoleão, cientistas do exército francês observaram o uso de haxixe pela população local e levaram amostras para a França para realizarem experimentos. Em 1840, o psiquiatra Jacques-Joseph Moreau também levou maconha para o Hexágono e “testou diferentes preparações em si mesmo e em seus alunos para testar suas propriedades psicotomiméticas, com a justificativa de que ‘viu no haxixe, mais especificamente em seus efeitos nas capacidades mentais, um método poderoso e único para investigar a gênese da doença mental’”. O médico também estudou o efeito do hash no Club des Haschichins, onde franceses notórios, como os escritores Alexandre Dumas, Charles Baudelaire, Théophile Gautier e Victor Hugo, consumiam o dawamesc.

no Reino Unido, os estudos sobre as propriedades medicinais da cannabis surgiram a partir do trabalho do médico irlandês William Brooke O’Shaughnessy, cujas observações sobre a eficácia da planta “no tratamento da dor, convulsões e vômitos resultantes de doenças infecciosas como raiva, tétano e cólera, doenças que eram grandes problemas de saúde pública na Europa do século XIX, foram de grande importância para a medicina ocidental”. A aplicação da maconha como “soporífero, sedativo, analgésico, anticonvulsivante e no tratamento sintomático de doenças infecciosas” levou à sua inclusão na farmacopeia britânica, sendo “comercializada na forma de tinturas, extratos e comprimidos por grandes laboratórios farmacêuticos de diversos países”.

Enquanto isso no Brasil, que se tornara independente de Portugal, com a repercussão das pesquisas francesas, a popularidade da cannabis aumentou entre a classe médica. “O que antes era quase restrito ao uso dos escravos africanos e indígenas agora foi adotado para fins terapêuticos pela sociedade branca brasileira”, destacaram os pesquisadores.

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A pesquisa sobre a maconha continuou desde então, e com o desenvolvimento de técnicas mais modernas e precisas de extração, purificação e análise, ao longo das décadas, os pesquisadores descobriram centenas de substâncias presentes na planta.

“Curiosamente, o estudo da cannabis permitiu-nos compreender não só a fisiologia e a bioquímica da planta, mas também a nossa própria fisiologia e permitiu o desenvolvimento de medicamentos para condições clínicas que muitas vezes pareciam intransponíveis”, assinalaram os autores.

Contudo, em 1937 o uso adulto da maconha foi criminalizado nos Estados Unidos com a promulgação do Ato de Taxação da Maconha (Marihuana Tax Act), que impôs uma burocracia rigorosa para os usos científicos, médicos e industriais da planta. Em 1970, menos de um ano antes de Richard Nixon declarar a “guerra às drogas”, a cannabis foi totalmente proibida e listada na categoria mais restritiva da lei de substâncias controladas.

Após uma campanha antimaconha promovida pelos EUA desde os anos 30, a proibição da planta acabou se espalhando pelo mundo todo. Contudo, um movimento contrário à proibição das drogas ganhou força na segunda metade do século.

Os pesquisadores afirmam que os fins “hedonísticos” da cannabis e outros entorpecentes passaram a ser difundidos desde meados do século 20 por “movimentos culturais e até religiosos, como o jazz, o blues, o movimento hippie, o rastafarianismo, a recuperação da literatura do século anterior e o rock’n’roll, protagonizado por artistas famosos como Bob Marley, Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Beatles e The Doors, cujas obras influenciaram a cultura popular até hoje”. Segundo os autores, os integrantes desses grupos adotaram o discurso de difusão do amor, do uso de drogas e de posturas polêmicas como forma de protesto contra a guerra.

“Esforços recentes tentam descriminalizar o uso da droga e expandir o uso médico e o acesso aos pacientes de drogas à base de cannabis através de legislação, mas, apesar dos sucessos em todo o mundo, ainda encontram os seus obstáculos. A cannabis é talvez uma das maiores polêmicas da humanidade contemporânea”, concluem os pesquisadores.

Pivô da demonização e perseguição da maconha no mundo, os EUA começaram a dar recentemente sinais de que poderão reverter em breve a proibição federal da cannabis: desde o perdão em massa concedido pelo presidente no ano passado até o reconhecimento pelo governo dos impostos arrecadados sobre as vendas de maconha em estados que legalizaram a planta.

Atualmente, vários países já permitem o uso da maconha para fins medicinais e industriais, além do Uruguai e Canadá que legalizaram totalmente a cannabis. Os resultados positivos da legalização, como o enfraquecimento do crime organizado, crescimento da saúde com mais opções de tratamento e geração de empregos e renda, são observados pelo mundo.

As descobertas científicas sobre os benefícios medicinais da maconha e sua utilização em várias indústrias, como matéria-prima ecológica, aumentam mais a cada dia.

O cenário atual está propício para que haja uma nova reviravolta na história da cannabis com o fim da proibição em todo o mundo, porém isso só acontecerá quando os governos deixarem de seguir seus próprios interesses e passarem a se orientar pela ciência.

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