Haxixe afegão: entenda sua história e produção

Foto mostra um pedaço de haxixe afegão, de cor marrom-escuro, que lembra um bloco de doce de banana com as palavras Mazar-e-Sharif of Afghanistan gravadas de forma circular em cor dourada.

O líder de produção mundial tem muita história quando o assunto é extração. Aqui, as Girls in Green falam sobre o haxixe afegão, sua produção e tradições. Venha entender mais!

No livro “Hashish!”, Clarke é categórico: no Afeganistão, ninguém fuma maconha. Mas os concentrados são unanimidade. Pensando nisso, faz muito sentido descobrir que o país dominou a cena por muitos anos — sendo considerado o maior produtor de extrações do mundo pela Organização das Nações Unidas (ONU). Mas o que é o haxixe afegão, quais seus tipos e tradições, e como ele é feito?

O Afeganistão, assim como outros países do Oriente Médio, é considerado um dos principais berços do haxixe. Por isso, entender sua cultura e as tradições associadas a essa iguaria é extremamente importante para nós — amantes dos concentrados. O haxixe afegão carrega uma história rica, que ultrapassou guerras e regimes totalitários marcados pela repressão. Ainda assim, essa substância prevalece, mostrando sua força.

Para ajudar você a entender tudo isso, trouxemos um apanhado de informações. Elas vão desde a história do haxixe afegão até seus meios de produção e a realidade nos dias de hoje. Então, bora entender um pouco melhor tudo isso?

Vem com a gente conhecer essa maravilha!

Haxixe afegão: um pouco de história

Como a gente já mencionou, o Afeganistão tem uma longa tradição na produção de haxixe de alta qualidade, sendo um exemplo notável de produção de concentrados canábicos na Ásia Central. Até a década de 1970, o produto era altamente valorizado por sua qualidade e variedade de tipos, cores e aromas.

A chegada de viajantes ocidentais no Afeganistão nos anos 1970 impactou a produção e o comércio de haxixe. Além disso, durante o reinado do Rei Zahir Shah, que durou de 1933 até 1973, o cultivo e a produção de haxixe eram amplamente tolerados — e até incentivados pelo governo.

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Os anos 1970 viram uma mudança na política afegã em relação ao haxixe devido à pressão dos Estados Unidos, que viam a produção de haxixe como uma ameaça à juventude americana e ao sistema legal. Em 1973, o governo afegão proibiu abruptamente o cultivo e a produção de haxixe. Isso levou a uma repressão severa e à diminuição da qualidade do haxixe produzido no país.

A invasão soviética do Afeganistão em 1979 levou a uma redução no cultivo de maconha. Mas o haxixe ainda era produzido em algumas regiões durante o conflito! Entretanto, o concentrado de alto padrão foi progressivamente substituído por misturas de menor qualidade de haxixes de diferentes origens, como nepaleses, paquistaneses e indianos.

Nas décadas seguintes, a produção de haxixe afegão moderno continuou, mas a qualidade tradicional raramente era encontrada. O haxixe afegão de alta qualidade tornou-se uma lembrança do passado. Os desafios econômicos e políticos acabaram afetando a produção e a qualidade dessa iguaria no país.

A produção do haxixe afegão hoje

Embora a maconha não seja legalizada no país, o haxixe é um de seus maiores produtos. Imagem: The Guardian.

Foi somente em 2009 que o UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) realizou as primeiras estimativas detalhadas das colheitas de cannabis e da produção de haxixe no Afeganistão. Surpreendentemente, os números revelaram que anualmente entre 10.000 e 24.000 hectares de maconha floresciam nas terras afegãs. Isso gerava uma produção estimada de 1.500 a 3.500 toneladas métricas de haxixe.

O UNODC também lançou luz sobre um intrigante fenômeno que ocorreu no final dos anos 2000 e início dos anos 2010. Enquanto a produção de haxixe recuou no Marrocos, ela ressurgiu tanto no Afeganistão quanto no Líbano. De acordo com suas descobertas, o Afeganistão emergiu como o principal produtor mundial de haxixe. No entanto, essa alegação não passou incólume e encontrou ceticismo entre alguns autores e organizações.

O Centro de Monitoramento Europeu sobre Drogas e Toxicodependência, por exemplo, conduziu um estudo minucioso sobre o fornecimento de haxixe para a Europa, oferecendo uma análise aprofundada dos dados e declarações do UNODC. “O haxixe marroquino”, concluiu seu estudo de 2011, “continuou a ser a resina mais consumida nos mercados europeus”.

Mudanças na metodologia do UNODC vieram em 2012, quando informou que 12.000 hectares de cultivo comercial de cannabis monocultivada foram registrados naquele ano, com uma produção potencial de 1.300 toneladas métricas de haxixe.

Notavelmente, a pesquisa sobre a cannabis realizada em 2012 marcou o fim de uma era, pois foi a última pesquisa desse tipo conduzida no Afeganistão. Desde então, não houve dados sistematizados disponíveis sobre o cultivo de cannabis ou a produção de haxixe no Afeganistão.

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Como o haxixe afegão é feito?

De acordo com Clarke, o haxixe afegão tradicional era produzido por meio de um processo bem meticuloso. As plantas (geralmente indicas) eram secas, debulhadas e, em seguida, o pó de resina era peneirado, com foco na obtenção de uma resina de alta qualidade.

Esse processo de peneiração era realizado em dias frios e secos de inverno, quando o material vegetal estava mais quebradiço e os tricomas podiam passar livremente pelas peneiras (isso lembra você de algo?). A repetição cuidadosa desse processo produzia o “shirac”, a variedade mais pura e potente de haxixe.

Com o tempo, a produção de haxixe no Afeganistão passou por modificações. O uso de peneiras de metal substituiu as de tecido e se tornou mais comum, acelerando o processo, mas resultando em uma qualidade ligeiramente inferior devido à diluição da potência.

Além disso, o processo tradicional de peneiração ocorria apenas durante o inverno, quando as condições eram ideais. No entanto, a introdução de práticas comerciais ocidentais durante os anos 1970 permitiu o processamento durante o ano inteiro, mesmo simulando as condições de inverno com a ajuda de ar-condicionado e gelo durante o verão.

Também existem diferentes formas de prensar o haxixe afegão. Ela pode ser feita com o uso de tacos de beisebol, prensas mecânicas ou até mesmo meios mais artesanais.

O haxixe afegão tradicional x sua versão moderna

O haxixe afegão moderno é fofinho, que nem aquele bombom que a gente conhece. Imagem: Girls in Green.

O haxixe tradicional afegão de alta qualidade era caracterizado por várias características distintas. À temperatura ambiente, ele era rígido, mas ainda podia ser esticado lentamente, lembrando um quebra-queixo. Quando submetido a calor, o haxixe afegão tradicional começava a derreter, adquirindo um brilho úmido. Quando manipulado, essa iguaria quebrava de maneira limpa, como vidro, e o som produzido ao bater era nítido, um “clique”.

Em contraste, o haxixe moderno afegão é notavelmente diferente. É mais macio e maleável, com uma textura semelhante a massas de modelar. Mesmo quando fresco, ele é mais flexível do que o tradicional e se parte de maneira menos limpa, com um aspecto “fofo”. A cor do haxixe moderno é geralmente marrom-escuro a preto com uma tonalidade esverdeada. Quando queimado, produz pequenas nuvens de fumaça branca listradas com tons amarelos, marrons ou até mesmo pretos. A cinza resultante é escura e granulada, com resíduos perceptíveis.

O haxixe tradicional afegão também tinha um aroma único e doce, enquanto o haxixe moderno frequentemente carece desse atributo distintivo. Além disso, a qualidade do haxixe tradicional estava relacionada a um processo minucioso de seleção, refinamento e peneiração de resina em condições específicas de clima e temperatura, muitas vezes durante os meses de inverno — como explicamos anteriormente.

As diferenças entre o haxixe tradicional e moderno afegão são, em grande parte, consequência da crescente demanda do mercado ocidental. Para atender a essa demanda, houve uma redução na qualidade e potência do haxixe, com o uso de diferentes substâncias como ligantes em resinas de baixa qualidade. Isso resultou na produção de haxixe de qualidade inferior, muitas vezes adulterado com elementos estranhos para aumentar o peso. Infelizmente, os adulterantes acabaram prejudicando sua qualidade e autenticidade.

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Sobre Girls in Green

O Girls in Green é um projeto feito por mulheres canábicas, focado na produção e disseminação de conteúdo digital acessível, livre de julgamentos e tabus, abordando temas como maconha, uso de drogas, cultivo, haxixe e política - sempre sob a ótica da Redução de Danos. O principal objetivo do canal é combater o estigma e a desinformação resultantes da Guerra às Drogas.
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