Fumar maconha antes do treino torna o exercício mais prazeroso, segundo estudo

A cannabis aumenta a motivação para treinar e pode ser uma ferramenta no combate à epidemia de sedentarismo

Consumir maconha antes do treino pode aumentar a motivação e o prazer durante o exercício, de acordo com um novo estudo publicado na revista Sports Medicine. O desempenho, no entanto, não foi um dos benefícios relatados pelos participantes.

Segundo os pesquisadores, afiliados à Universidade do Colorado em Boulder, o estudo é o primeiro a examinar como a cannabis comercialmente disponível impacta o exercício. A pesquisa teve como pano de fundo o considerável interesse público no uso de maconha concomitantemente com exercício observado nos últimos anos.

O estudo analisou 42 corredores voluntários que já corriam sob o efeito de cannabis e suas experiências de exercício após o uso agudo da planta in natura.

A coorte foi dividida em dois grupos, sendo que um usou flores dominantes em canabidiol (CBD) e o outro uma strain com alto teor de tetrahidrocanabinol (THC).

“A conclusão final é que a cannabis antes do exercício parece aumentar o humor positivo e o prazer durante o exercício, quer você use THC ou CBD. Mas os produtos de THC especificamente podem fazer com que o exercício pareça mais trabalhoso”, disse a primeira autora Laurel Gibson, pesquisadora do Centro de Saúde e Dependência: Neurociência, Genes e Meio Ambiente da CU Boulder.

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Os achados, e pesquisas anteriores da equipe, derrubam o mito proibicionista de que os consumidores de maconha são sedentários e preguiçosos — as descobertas apontam justamente para o contrário: a cannabis poderia desempenhar um papel na motivação para as pessoas se exercitarem.

“Temos uma epidemia de estilo de vida sedentário neste país [EUA] e precisamos de novas ferramentas para tentar fazer com que as pessoas movam seus corpos de maneira agradável”, disse a autora sênior Angela Bryan, professora de psicologia e neurociência, em um comunicado à imprensa. “Se a cannabis é uma dessas ferramentas, precisamos explorá-la.”

Em uma pesquisa anterior com usuários de maconha, o grupo de pesquisa de Bryan descobriu que mais de 80% endossavam o uso concomitante de cannabis com exercícios. Além disso, a maioria dos participantes que apoiaram o consumo da planta pouco antes ou depois do treino relatou que fazê-lo melhora a experiência e ajuda na recuperação.

Para o estudo atual, os pesquisadores designaram os participantes para irem a um dispensário e comprarem uma flor de CBD ou uma cepa dominante em THC.

Os participantes correram em uma esteira por 30 minutos, sem a influência da cannabis e após consumirem a planta, respondendo a perguntas para avaliar o quão motivados se sentiam, o quanto estavam gostando do exercício, a dificuldade do treino, a rapidez com que o tempo parecia passar e seus níveis de dor.

Contexto: O uso de cannabis aumenta a “alta do corredor” durante o exercício

Em geral, os participantes relataram maior prazer e euforia mais intensa, ou “alta do corredor” (runner’s high), ao se exercitarem após usar maconha — curiosamente, esse humor elevado foi ainda maior no grupo de CBD, afirmaram os autores.

Os participantes do grupo de THC, no entanto, também afirmaram que a corrida parecia mais difícil sob a influência da cannabis.

Em outro estudo conduzido por Bryan e Gibson, os participantes correram 31 segundos por quilômetro mais devagar quando estavam sob o efeito da maconha, embora relatassem sentir mais prazer.

“Está bastante claro em nossa pesquisa que a cannabis não é uma droga que melhora o desempenho”, disse Bryan no comunicado.

O motivo de a maconha tornar o exercício melhor, segundo os pesquisadores, é explicado por pesquisas recentes que apontam para o papel dos canabinoides endógenos — que o nosso cérebro produz naturalmente após um longo período de atividade física — na produção da euforia e estado de alerta.

Assim, ao consumir os canabinoides presentes na cannabis, que se ligam aos mesmos receptores que os endocanabinoides produzidos pelo cérebro, os atletas podem ser capazes de atingir a “euforia do corredor” com um treino mais curto ou melhorá-la durante um treino longo.

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Embora a maconha não seja isenta de riscos, incluindo tonturas e perda de equilíbrio, podendo tornar certos treinos perigosos se usada de forma errada, Bryan está interessada em saber como a planta poderia ajudar as pessoas que não conseguem se motivar para fazer exercícios.

“Existe um mundo onde tomar uma goma em baixa dosagem antes de sair para caminhar possa ajudar? É muito cedo para fazer recomendações amplas, mas vale a pena explorar”, ponderou a pesquisadora.

As descobertas são consistentes com um corpo crescente de estudos que apontam para os benefícios da maconha na motivação para realizar atividades físicas.

Outro estudo conduzido por pesquisadores da CU Boulder, realizado com estadunidenses idosos, descobriu que os consumidores de maconha tenderam a fazer mais exercícios formais e se envolver em mais atividades físicas do que os não consumidores. Os resultados foram publicados na American Journal on Health Behavior.

“Comparado aos idosos não usuários”, diz o estudo, “os idosos usuários de cannabis tinham um índice de massa corporal mais baixo no início do estudo de intervenção com exercício, envolveram-se em mais dias de exercício na semana durante a intervenção, e estavam engajados em mais atividades relacionadas ao exercício na conclusão da intervenção”.

Um estudo publicado em 2021 na Preventive Medicine analisou dados longitudinais de mais de 10.000 indivíduos e observou um aumento da realização de exercícios entre os usuários de cannabis, nos casos onde houve uma correlação significativa.

“As alegações de que a legalização da maconha levará os indivíduos a se tornarem mais sedentários, menos ativos e, portanto, menos saudáveis ​​não são corroboradas por nossas descobertas empíricas”, concluíram os pesquisadores.

A maconha pode ser uma ferramenta eficaz no combate à epidemia de sedentarismo, que pode levar 500 milhões de pessoas a desenvolverem doenças cardíacas, diabetes e outras doenças não transmissíveis até 2030, segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS).

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