Freiras da maconha mexicanas querem tirar a cannabis da ilegalidade

Uma inflorescência de maconha em cultivo e uma mulher vestida de freira. Foto: Hermanas del Valle.

Um grupo de mulheres no México está a combater o sistema, espalhando o evangelho dos poderes curativos da maconha e pressionando pela legalização

As “freiras da maconha”, como ficaram conhecidas, apesar de não seguirem nenhuma religião, fazem parte de um grupo internacional fundado em 2014, na Califórnia (EUA), chamado Sisters of the Valley (Irmãs do Vale). O movimento começou em torno da luta contra a proibição da cannabis e do empoderamento das mulheres.

O grupo de ativistas feministas se expandiu para o México em 2018, quando as primeiras irmãs mexicanas (Hermanas del Valle) fizeram seus votos. Elas abriram sua primeira loja on-line no país há cerca de dois anos — o site oferece produtos à base de plantas e cogumelos cultivados pelas freiras auto-ordenadas.

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Nos Estados Unidos, onde cerca de duas dezenas de estados legalizaram a maconha para uso adulto e outros dezesseis permitem o uso medicinal da planta, as irmãs lançaram um pequeno negócio de sucesso, que comercializa óleos e pomadas de cannabis, e possui um faturamento anual de mais de US$ 1 milhão.

Mas no México, onde a “guerra às drogas” devastou o país e o cristianismo está enraizado na sociedade, a imagem de uma freira que fuma maconha é mais um ato de rebelião, disseram as mulheres à Reuters.

“As pessoas nos procuram por uma curiosidade mórbida de ver algumas freiras com um baseado ou em um evento como uma exposição de maconha. Captamos a atenção delas e podemos passar a mensagem que queremos passar”, explica a Irmã Kika à agência de notícias.

O faturamento das hermanas mexicanas é uma fração do de suas irmãs estadunidenses, cerca de US$ 10 mil anuais. Elas atribuem o baixo número de vendas ao estigma que ainda assola a cannabis no país.

Conduzindo seus negócios em uma loja falsa de dois andares, elas são cautelosas em revelar a localização de suas operações — como a cannabis se encontra numa zona legal cinzenta no México e grande parte da sua produção ainda está ligada ao mercado ilícito, as irmãs temem que a polícia ou gângsteres possam chegar para as ameaçar ou extorquir.

“A irmandade está em um contexto totalmente diferente aqui no México — por causa do quão religioso o país é e por causa dos laços da planta com cartéis”, disse à Reuters uma das freiras, que usa o apelido de “Irmã Bernardet” online.

Em seu trabalho principal como médica homeopata, Bernardet prescreve maconha para seus pacientes com câncer, dores nas articulações e insônia.

“Queremos recuperar a planta dos narcotraficantes”, disse ela.

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As irmãs são revivalistas das beguinas, movimento de mulheres que viviam em devoção sem aderir a nenhuma ordem religiosa durante a Idade Média. O grupo dedicou-se à espiritualidade, ao estudo e à caridade, mas não fez votos formais.

Segundo a Reuters, as cinco irmãs mexicanas cultivam maconha sob a orientação de Alehli Paz, química e pesquisadora de cannabis afiliada à Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).

As mulheres passam os fins de semana podando as plantas, pesando e armazenando as flores em potes de vidro e produzindo pomadas à base de cannabis, tudo em meio a muita fumaça. Elas também visitam outras pessoas na Cidade do México que pressionam pela legalização total da maconha, ou dão oficinas que abordam desde como fazer infusões de até a química por trás da planta.

O grupo se posiciona de forma clara quando o assunto é a proibição, argumentando que a guerra às drogas na América Latina tem sido um fracasso, uma vez que foi o propulsor da violência generalizada e do encarceramento em massa.

“O que também estamos olhando é o ativismo com a planta, para tirar esse estigma, e o que eu sempre quis e estou apostando é tirar (a cannabis) do narcotráfico, para torná-la legal. Porque no momento em que for legal o problema acabará, deixará de ser sangrento”, defendeu Bernardet.

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Imagem de capa: reprodução / Instagram.

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