Ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández é condenado por tráfico de cocaína nos EUA

Ex-presidente de Honduras Juan Orlando Hernández. Foto: Paul Morigi | Brookings Institution.

Nacionalista que promovia a “guerra às drogas” foi considerado culpado por utilizar as forças de segurança e o Exército para proteger cargas de cocaína, enquanto recebia milhões de dólares oriundos dos lucros do narcotráfico

O ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, foi condenado por acusações de conspiração para exportar cocaína e uso e posse de armas, em um julgamento realizado por um tribunal federal dos Estados Unidos, nesta sexta-feira (8). O júri apresentou seu veredito após constatar que JOH esteve no centro de uma das maiores conspirações de tráfico de drogas do mundo por quase duas décadas.

A Corte Distrital do Sul de Nova York condenou o ex-presidente hondurenho por três acusações, incluindo conspiração para importar cocaína para os EUA e uso e porte de metralhadoras e dispositivos destrutivos para promover o tráfico de drogas. A condenação acarreta uma pena mínima obrigatória de 40 anos de reclusão e uma máxima de prisão perpétua. Hernández deverá ser sentenciado em 26 de junho.

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O ex-presidente de Honduras por dois mandatos e ex-presidente do Congresso Nacional do país abusou da sua posição e autoridade para facilitar a exportação de toneladas de cocaína para os EUA. “Em troca, Hernández recebeu milhões de dólares em dinheiro proveniente da droga de algumas das maiores e mais violentas organizações de tráfico de drogas nas Honduras, no México e em outros locais, e usou esses subornos para alimentar a sua ascensão na política hondurenha”, diz um comunicado do Departamento de Justiça estadunidense.

Ao longo do seu mandato à frente do Partido Nacional, Hernández promoveu publicamente a legislação e os esforços que pretendia empreender contra o tráfico de drogas em Honduras.

Hernández foi até mesmo elogiado publicamente pelo ex-presidente americano Donald Trump como um parceiro centro-americano que ajudou os EUA a interromper o tráfico de drogas na fronteira sul “em um nível que nunca aconteceu”.

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No entanto, o ex-presidente direitista protegeu e enriqueceu os traficantes do seu círculo íntimo e aqueles que lhe forneceram subornos financiados pela venda de cocaína, que lhe permitiram obter e permanecer no poder. O julgamento revelou, por exemplo, que Hernández utilizou sua autoridade executiva para apoiar extradições para os EUA de traficantes que ameaçavam o seu poder.

Ao mesmo tempo, Hernández garantia que permanecessem em Honduras os traficantes que lhe pagavam e seguiam as suas instruções, e utilizava agentes fortemente armados da Polícia Nacional e do Exército hondurenho para proteger as cargas de cocaína enquanto transitavam pelo país.

“Os membros da conspiração também recorreram à violência e ao assassinato para proteger e fazer crescer o seu negócio de tráfico de drogas, atacando e assassinando traficantes rivais e aqueles que ameaçavam o seu domínio sobre o comércio de cocaína hondurenho”, diz o comunicado sobre o julgamento.

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Os procuradores estadunidenses acusaram Hernández de trabalhar com traficantes de drogas já em 2004, dizendo que ele recebeu milhões de dólares em subornos enquanto ascendia de deputado a presidente do Congresso Nacional. Durante seu mandato no governo hondurenho, o direitista teria colaborado para enviar mais de 400 toneladas de cocaína aos EUA.

De acordo com a acusação, Hernández fez parceria com alguns dos maiores traficantes de drogas do mundo, incluindo o ex-líder do Cartel de Sinaloa, Joaquín Guzman Loera, conhecido como “El Chapo”.

A advogada de defesa Sabrina Shroff disse que Hernández “foi acusado injustamente” e recorrerá da condenação, segundo a AP News.

Vários dos coconspiradores de Hernández já foram condenados em conexão com a investigação. Entre outros, o irmão do ex-presidente, Juan Antonio, foi condenado após julgamento em outubro de 2019 e sentenciado à prisão perpétua, e Geovanny Fuentes Ramirez, um traficante de cocaína que se encontrou com Hernández em várias ocasiões para discutir a parceria para o tráfico, foi condenado após julgamento em março de 2021 e sentenciado também à prisão perpétua.

Mais recentemente, Juan Carlos Bonilla Valladares, conhecido como El Tigre, ex-chefe da Polícia Nacional de Honduras, e Mauricio Hernández Pineda, ex-membro da Polícia Nacional e primo de Hernández, se declararam culpados de participar da conspiração para exportação de cocaína.

Juan Orlando Hernández foi preso em sua casa em Tegucigalpa, capital hondurenha, três meses depois de deixar a presidência em 2022 e foi extraditado para os EUA em abril daquele ano.

Honduras tem sido um país “ponte” para o trânsito de cocaína desde os anos 1970, contudo o fluxo da droga aumentou consideravelmente nas últimas duas décadas, especialmente após a ascensão de Porfírio Lobo à presidência em 2009 — seu filho, Fabio Lobo, foi condenado a 24 anos de prisão por tráfico de cocaína em 2017.

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Fotografia de capa: Paul Morigi | Brookings Institution.

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