Estudo não encontra nenhum benefício do CBD ou THC no alívio da dor neuropática periférica

Fotografia mostra dedos segurando uma pinça com um bud de maconha próximo a cinco outras pequenas inflorescências de cannabis, que aparecem no segundo plano sobre uma superfície cinza, em pior foco. Imagem: Kindel Media | Pexels.

Um novo estudo publicado no European Journal of Pain revela que o canabidiol (CBD), o tetraidrocanabinol (THC) ou suas combinações não foram capazes de reduzir a dor neuropática periférica em pacientes com histórico de falha em um tratamento anterior

Com o objetivo de investigar a eficácia e tolerabilidade de canabinoides essenciais em pacientes com dor neuropática periférica, uma equipe de pesquisadores dinamarqueses realizou um estudo duplo-cego, randomizado e controlado por placebo com duração de 10 semanas.

Uma coorte de 115 pacientes com dor neuropática periférica foi recrutada entre 2018 e 2021 em três locais na Dinamarca e distribuída aleatoriamente em uma proporção de 1:1:1:1 para receber inicialmente CBD 5 mg, THC 2,5 mg, combinação de CBD 5 mg e THC 2,5 mg e placebo em cápsulas com aparência, sabor e cheiro idênticos.

Os participantes aumentaram a dose da medicação do estudo durante as primeiras 4 semanas até uma dose máxima de 10 cápsulas por dia, correspondendo a CBD 50 mg, THC 25 mg e CBD/THC 50 mg + 25 mg.

A dose alcançada na semana 4 foi mantida até a semana 8 — o período de tratamento foi de oito semanas, precedido por uma semana para observação inicial. Durante a semana 9, os participantes diminuíram e descontinuaram a medicação do estudo.

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O uso concomitante de opioides, canabinoides e benzodiazepínicos não foi permitido, mas outros tratamentos para dor que não puderam ser reduzidos, como antidepressivos ou anticonvulsivantes, foram aceitos em dose estável ao longo do estudo.

A idade mediana da população do estudo foi de 65 anos e o tratamento anterior mais comum foi gabapentina ou pregabalina. O uso prévio de canabinoides não foi critério de exclusão.

Os critérios de inclusão foram pacientes com 18 anos ou mais de idade com dor neuropática periférica por mais de 6 meses devido a polineuropatia, neuralgia pós-herpética ou lesão nervosa periférica traumática/cirúrgica.

Uma redução superior a 30% no escore de dor foi relatada por 18 pacientes recebendo CBD/THC, 12 recebendo THC e 9 recebendo CBD em comparação com 17 recebendo placebo. Enquanto uma redução superior a 50% foi relatada por 16 pacientes recebendo CBD/THC, 8 recebendo  THC, 5 recebendo CBD e 11 recebendo placebo.

“A taxa de resposta de alívio da dor de 50% foi ligeiramente maior na combinação CBD/THC do que no placebo, mas isso não foi estatisticamente significativo”, escreveram os pesquisadores.

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A melhora na pontuação da impressão global de mudança do paciente foi relatada por 16 pacientes que receberam CBD/THC, 16 pacientes que receberam THC e 7 pacientes que receberam CBD em comparação com 14 que receberam placebo.

“Este é o primeiro estudo a examinar o efeito do CBD sozinho na dor neuropática e não encontrou efeito melhor do CBD do que do placebo”, diz o artigo. “Na verdade, na PPP [população por protocolo] o CBD reduziu menos a dor do que o placebo, e também foi observado menos efeito do CBD do que do placebo com alguns resultados secundários da dor.”

A análise estatística mostrou que, tanto na população com intenção de tratar (115) quanto na população de pacientes que completaram o estudo (96), nenhum dos tratamentos ativos foi diferente do placebo.

O consumo de paracetamol como medicamento de escape foi muito baixo, com  menos de 25% dos pacientes usando paracetamol no início do estudo e  menos de 5% usando-o durante o tratamento. A alteração no número de paracetamol usado não diferiu entre o placebo e os tratamentos ativos durante todo o tratamento.

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“Para sintomas de dor específicos medidos com NPSI [inventário de sintomas de dor neuropática], nenhum dos medicamentos ativos foi superior ao placebo em relação à redução da dor. As dores evocadas foram menos reduzidas pelo CBD do que pelo placebo, e a dor de pressionar e apertar menos pelo THC do que pelo placebo”, escreveram os autores.

Da mesma forma, os resultados mostram que “o impacto da dor nas atividades diárias, no humor e no sono, bem como na qualidade de vida, não foi reduzido ou alterado mais pelos tratamentos ativos do que pelo placebo”.

Os pesquisadores não descartaram a hipótese de que produtos de cannabis com um espectro maior de substâncias, além do CBD e THC, poderiam ter surtido algum efeito, apontando para descobertas anteriores que propõem que “todos ou uma grande variedade dos mais de 200 componentes diferentes da cannabis”, que incluem vários outros canabinoides, bem como uma variedade de terpenos, são necessários para que o efeito total da maconha seja exercido.

Além disso, os autores observaram ainda que o baixo número de desistências e poucos efeitos colaterais podem indicar que as doses e os níveis dos canabinoides no sangue podem ter sido muito baixos e, portanto, ser o motivo da falta de efeito.

“Em conclusão, este estudo não encontrou nenhum efeito de alívio da dor dos canabinoides CBD, THC ou sua combinação na dor neuropática periférica em pacientes que falharam em pelo menos um tratamento anterior baseado em evidências”, concluíram os pesquisadores.

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Uma revisão da literatura científica sobre estudos clínicos nos quais a cannabis foi comparada com placebo para o tratamento da dor, publicada recentemente na JAMA Network Open, não encontrou diferença na redução da dor entre os pacientes que usaram maconha e os que receberam placebo.

A análise se baseou nos dados de 20 ensaios controlados randomizados controlados por placebo publicados até setembro de 2021 que investigaram a eficácia da cannabis no tratamento da dor.

Os participantes, com idades entre 33 e 62 anos, relataram dor neuropática, dor de esclerose múltipla e outras dores e receberam placebo ou extratos de maconha contendo THC e/ou CBD, ou canabinoides sintéticos, que foram administrados na forma de comprimidos, spray, óleo ou por meio do uso fumado ou vaporizado.

A avaliação dos resultados demonstrou que, embora o tamanho do efeito da droga ativa (canabinoides) na intensidade da dor tenha sido grande, a magnitude do efeito do placebo foi aproximadamente a mesma.

Um estudo separado, publicado no início do mês na JAMA Network, mostra que quase um terço dos pacientes com dor crônica que vivem em estados americanos com programas de cannabis medicinal relataram o uso de maconha para controlar a dor.

A pesquisa revelou ainda que mais da metade dos pacientes que usaram cannabis para controlar a dor crônica relatou que o uso da planta os levou a diminuir o uso de opioides prescritos, analgésicos não opioides prescritos e analgésicos de venda livre.

O uso da maconha como tratamento analgésico também afetou o uso de outros métodos de alívio da dor não relacionados a drogas. Algumas pessoas indicaram que a cannabis as levou a recorrer com menos frequência à fisioterapia, à meditação e à terapia cognitivo-comportamental.

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Imagem: Kindel Media | Pexels.

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