“Efeito entourage” da maconha é o responsável pela experiência psicoativa, sugere estudo

Fotografia, em close, de um bud de cannabis onde se vê seus pistilos marrons e tricomas em detalhes, e um fundo branco liso. Foto: Unsplash | 2H Media.

Estudo de ondas cerebrais demonstra como os terpenos influenciam os efeitos psicoativos em comparação com o THC isolado

Produtos de maconha de espectro completo (full spectrum) podem produzir um início mais rápido e mais que o dobro da experiência psicoativa do que destilados de THC (tetraidrocanabinol) com concentração semelhante do canabinoide, segundo um novo estudo conduzido por cientistas canadenses e estadunidenses.

Os pesquisadores da empresa de vaporizadores de cannabis PAX Labs e da organização de pesquisa Zentrela, pioneira em neurotecnologia que usa IA para avaliar os efeitos psicoativos dos produtos de maconha, acreditam que o efeito psicoativo mais intenso no produto full spectrum seja em decorrência da interação entre os vários compostos da planta presentes nele — o que é conhecido como “efeito entourage”.

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Quatorze participantes inalaram duas doses (8 mg) de vapor de óleo de cannabis de espectro completo com 85% de THC e outros quatorze inalaram duas doses (8 mg) de vapor de óleo de cannabis à base de destilado com 82-85% de THC. Ambos os grupos usaram o vaporizador PAX Era Pro.

O dispositivo portátil não invasivo de EEG (eletroencefalograma) da Zentrela registrou dados de oito regiões do cérebro, antes e depois do consumo do produto, nos dois grupo de participantes. A tecnologia Cognalyzer foi usada para converter os dados do EEG em níveis de efeitos psicoativos em uma escala padronizada de 0% a 100%.

No grupo de participantes que vaporizaram o óleo de espectro completo, o tempo para início dos efeitos foi de 3 minutos e o nível máximo de experiência psicoativa foi de 39%, atingido 15 minutos após a inalação do produto.

Já o segundo grupo, que vaporizou o destilado de THC, experimentou um tempo de início de 4 minutos e alcançou um nível máximo de efeitos psicoativos de 19%, passados 15 minutos após a vaporização.

A precisão e objetividade da medição dos efeitos psicoativos da cannabis feita pelo dispositivo utilizado no estudo foram validadas de forma independente pela organização de pesquisa clínica KGK Science e por duas publicações revisadas por pares.

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“Os consumidores que procuram efeitos psicoativos normalmente compram produtos de cannabis baseados em THC, o que é um pouco de uma falácia”, disse Brian Witlin, vice-presidente de desenvolvimento de produtos da PAX. “No espírito de continuar a avançar na investigação da cannabis e na compreensão da planta — que tem sido demasiado limitada — queríamos demonstrar através de estudos científicos como os produtos de espectro completo com toda a gama de terpenos e canabinoides têm um impacto mais profundo no início e no final da experiência com cannabis.”

A equipe de pesquisa escreveu em seu artigo que os resultados díspares observados entre os grupos pode ser atribuído aos diferentes compostos presentes no óleo de espectro completo contra o THC de alta pureza do produto destilado.

“Notavelmente, o método de extração do ‘live rosin’ preserva não apenas o THC, mas uma série de outros compostos terpênicos inerentes às flores de cannabis. É possível que a intrincada interação desses compostos contribua para o efeito psicoativo intensificado testemunhado, e sugere que o THC por si só não é o único contribuinte para a potência”, disseram os autores.

O termo “live rosin” se refere à base do produto de espectro completo utilizado no estudo e trata-se de uma extração de maconha livre de solventes feita de flores prensadas a frio.

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As descobertas são consistentes com outros estudos sobre o papel dos terpenos nos efeitos proporcionados pela cannabis.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Novo México analisou mais de 6.000 sessões de uso de maconha para identificar 478 quimiovares distintos de plantas de cannabis e demonstrou que as variedades de plantas consumidas com mais frequência demonstram efeitos clinicamente distintos.

Os resultados geralmente indicavam uma eficácia melhorada no tratamento da dor, depressão ou ansiedade de quimiovares com níveis acima da média de mirceno e terpinoleno e níveis não detectáveis de canabidiol (CBD).

Uma pesquisa separada do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Arizona descobriu que os terpenos amplificaram os efeitos analgésicos em modelos de camundongos, sem um aumento nos efeitos colaterais, quando foram combinados com canabinoides — o estudo se concentrou em quatro terpenos: alfa-humuleno, geraniol, linalol e beta-pineno.

Quando um canabinoide como o THC entra no corpo, ele se liga a um dos dois receptores canabinoides — CB1, que é o mais abundante, ou CB2. O receptor então ativa os neurônios que afetam os processos fisiológicos e o comportamento. Em experimentos de laboratório, os pesquisadores descobriram que todos os quatro terpenos ativaram o CB1, assim como o THC.

Dados pré-clínicos publicados na revista Biochemical Pharmacology sugerem que os terpenos da cannabis aumentam a capacidade do THC de interagir com o receptor CB1. Os pesquisadores relataram que certos terpenos — incluindo borneol, geraniol, limoneno, linalol, ocinemo, sabineno e terpineol — amplificaram a atividade do THC no receptor CB1, mesmo em baixas quantidades, em um sistema in vitro.

Uma revisão da literatura científica publicada em 2020, na Molecules, relatou que a “sinergia fitocanabinoide-terpenoide pode melhorar os tratamentos de dor, inflamação, depressão, ansiedade, vício, epilepsia, câncer, infecções fúngicas e bacterianas”, e que o efeito comitiva dos terpenos com os canabinoides pode melhorar a funcionalidade medicinal da cannabis.

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Foto de capa: Unsplash | 2H Media.

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