A dor e a delícia de plantar o próprio remédio

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Trocamos uma ideia com o cultivador de Salvador que obteve salvo-conduto para cultivo doméstico de maconha com fins terapêuticos, que falou sobre os benefícios e as dificuldades de plantar cannabis, com respaldo legal, para se tratar

Há mais de vinte anos, o engenheiro por trás do perfil Bud Baiano convive com os dolorosos efeitos de uma condição degenerativa crônica para a qual ainda não há cura. Diagnosticado com discopatia degenerativa (degeneração discal) e lombartrose anquilosante, ele chegou no limite da alopatia ao usar uma combinação de remédios normalmente prescritos a pacientes terminais, tamanha a dor que sentia no corpo, sobretudo no abdômen e nas pernas.

Dores crônicas, insônia, irritabilidade, inquietude, desconforto”, resume o que sente o cultivador de codinome Bud Baiano (chamado assim também aqui para preservar seu anonimato).

Não é exagero, então, dizer que a maconha transformou sua vida. Mas, essa transformação não foi, nem é, tão simples quanto parece — ele percorreu um longo caminho até ter assegurada sua liberdade de plantar e produzir o próprio remédio à base de maconha e, mesmo depois do Habeas Corpus concedido, enfrenta obstáculos para manter-se medicado. Nessa trajetória, ele reflete sobre as dores e as delícias de cultivar cannabis no Brasil.

“Todo esse trabalho foi uma busca de formiguinha mesmo, uma jornada pessoal. Eu falava sobre cannabis e ninguém acreditava”, conta. “Eu queria provar para as pessoas que o que eu estava falando era verdade, que eu estava chegando com informação nova. Eu cheguei a ir em oito médicos, de várias especialidades. Meu ortopedista disse que eu seria preso!”

A melhora clínica observada por ele com o uso do RSO (óleo de cannabis criado pelo canadense Rick Simpson que, assim como Bud Baiano, buscou por conta própria um tratamento à base de maconha) foi imediata e evidente. Apesar disso, seu caminho para encontrar um médico que desse respaldo ao tratamento canábico foi tortuoso.

“Comecei a fazer automedicação, porque eu entendia que o óleo me dava bem-estar”, diz. “Eu tentei mostrar pro meu médico que estava usando só o óleo e tendo resultados”. Os relatos do paciente não foram o suficiente, porém, para quebrar o estigma do ortopedista, então o engenheiro foi em busca de um prescritor de cannabis. “Precisava de alguém que atestasse a eficiência do que eu estava fazendo”.

Encontrar um profissional alinhado com seu plano de tratamento foi menos um golpe de sorte e mais uma busca diligente de quem viu no tratamento à base de cannabis a esperança de uma vida com menos dor. E a próxima etapa não foi diferente: achar uma maneira de fazer o próprio remédio com respaldo judicial, já que os custos com o óleo de associação eram altos para seu orçamento.

Leia também – De usuário a paciente: como ter acesso legal à maconha no Brasil

A informação foi a chave para que Bud Baiano pudesse acessar os atalhos que lhe permitem, hoje, importar sementes, cultivar e usar maconha sem medo de ser preso por isso. O estudo, tanto de cannabis como de contexto, mostrou o caminho que poderia garantir seu direito à saúde e à qualidade de vida: o HC.

“A gente não imagina o quanto é difícil”, comenta ele sobre a preparação para o processo. “Não é só ter um laudo médico que vai atestar e um advogado que vai lhe defender. Você tem que ter todo o arcabouço do início do problema até agora. Se não provar, não vai funcionar. Além de mostrar um problema atestado, com histórico médico mostrando a eficiência do tratamento, precisa ter todos os exames atualizados. É difícil, porque tudo isso custa”.

Felizmente, tamanho esforço foi compensado por uma decisão favorável ao salvo-conduto para cultivo e uso de cannabis como forma de terapia contínua.

Fim da história? Apenas o começo.

“Hoje, a cannabis tem sido meu único tratamento”, diz. “Faço pomada, óleo, vaporizo. Não tomo remédio nem para dor de cabeça. Tenho óleo para tudo, ele trata a minha vida. Ainda faço o uso de vitamina D, coisas assim, para potencializar a ação do THC. Também faço fisioterapia duas vezes por semana”, explica.

Além da prática de mexer nas plantas que, segundo Bud Baiano, faz parte do tratamento, e dos benefícios de strains como Bubble Gum e 24K, com alto teor de THC, a busca por conhecimento em cultivo levou o engenheiro a obter não apenas os melhores resultados dentro de seus limites orçamentários, comprometidos por sua condição de saúde, mas trouxe também uma fonte de renda adicional na atuação como consultor e palestrante.

“As pessoas acham que precisam montar um cultivo de uma vez só. Eu comecei na laje, depois fui para semi-indoor, até chegar no patamar de um sistema completo”, conta. “Um dos desafios [do cultivo] é a questão do valor, mas eu já implantei sistemas muito baratos”.

No equilíbrio entre o ideal e o possível, financeira e fisicamente, Bud Baiano também testou vários métodos para garantir que seu remédio tivesse a potência e a qualidade que ele precisa para se tratar.

“Foi uma adaptação de uma relação entre esforço, frequência de manejo e facilidade”, explica. “Eu passei por todos os tipos de cultivo: osmose reversa, gotejamento, orgânico, que é o que eu trabalho hoje”.

A experiência pode preparar o cultivador para adaptações estratégicas de ambiente e otimização de produção, mas imprevistos como praga, chuva ou uma queda de energia (assim como a segurança, é claro!) ainda são motivos de preocupação para quem planta, em casa, seu próprio remédio.

“A gente faz de tudo para que não aconteça nada”, diz.

E, apesar dos pesares, Bud Baiano avalia que o benefício do autocultivo é maior do que o caminho que ele estava seguindo. “Trabalhar com a planta tem me deixado muito melhor”, resume.

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#PraTodosVerem: fotografia de capa mostra mão esquerda segurando um pé de maconha em desenvolvimento. Crédito: Bud Baiano.

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Sobre Thaís Ritli

Thaís Ritli é jornalista especializada em cannabis e editora-chefe na Smoke Buddies, onde também escreve perfis, crônicas e outras brisas.
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