Como a cannabis pode melhorar a qualidade de vida de pacientes com câncer

Fotografia mostra uma porção de buds de cannabis sobre uma superfície vermelha e entre os dedos indicador e polegar de uma mão, que aparece próxima. Imagem: Unsplash / Elsa Olofsson.

Um estudo pequeno, mas inovador, mostrou que pacientes oncológicos que utilizam cannabis para tratar seus sintomas têm menos dor, dormem melhor e, inesperadamente, parecem ter mais clareza mental após algumas semanas de uso prolongado

Após anos estudando a prevenção do câncer e, mais recentemente, pesquisando o uso de cannabis em pacientes com câncer, Angela Bryan teve sua vida pessoal e profissional impactadas quando foi diagnosticada com câncer de mama, em 2017. Com receio de tomar opioides para as dores pós-cirúrgicas, ela consultou seus médicos sobre a possibilidade de usar a erva medicinalmente, porém não havia dados disponíveis para embasar a decisão.

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“Eles apoiaram tanto o que eu queria fazer, mas não tinham ideia do que me dizer”, disse Bryan, professora de psicologia e neurociência na Universidade do Colorado em Boulder. “Simplesmente não havia dados.”

Seis anos depois, um estudo pequeno, mas inovador, conduzido por ela, mostrou que pacientes com câncer que utilizam cannabis para tratar seus sintomas têm menos dor, dormem melhor e, inesperadamente, parecem ter uma melhora em sua clareza mental após algumas semanas de uso prolongado.

“Quando você está com muita dor, é difícil pensar”, disse Bryan, autora sênior do estudo. “Descobrimos que quando os níveis de dor dos pacientes diminuíram após o uso de maconha por um tempo, sua cognição melhorou.”

 

 

 

O estudo, publicado em 26 de abril na revista Exploration in Medicine, está entre os primeiros a avaliar como a cannabis comprada sem receita em dispensários — em vez de variedades fornecidas pelo governo ou sintéticas — afeta os sintomas do câncer ou os efeitos colaterais da quimioterapia.

Também lança luz sobre a grande variedade de produtos que os pacientes com câncer usam agora que a maconha é legal na maioria dos estados.

Levando o laboratório até os pacientes

Pesquisas sugerem que até 40% dos pacientes com câncer nos EUA usam cannabis, mas apenas um terço dos médicos se sente à vontade para aconselhá-los sobre isso.

Investigar o uso da cannabis é complexo, já que a lei federal proíbe que pesquisadores universitários possuam ou distribuam cannabis para pesquisa, a menos que seja emitida pelo governo ou de grau farmacêutico. Por isso, a maioria dos estudos analisa apenas produtos prescritos como nabilona ou dronabinol (normalmente prescritos para náusea) ou strains de cannabis fornecidas pelo governo, que tendem a ser menos potentes e limitadas em sua variedade.

Segundo a publicação da Universidade do Colorado, para realizar o estudo, Bryan colaborou com os oncologistas Dr. Ross Camidge e Dr. Daniel Bowles, na Universidade do Colorado, para observar 25 pacientes com câncer que usaram cannabis durante duas semanas.

Após uma consulta inicial em que seus níveis de dor, padrões de sono e cognição foram avaliados, eles foram solicitados a comprar o produto comestível de sua escolha em um dispensário. As opções foram surpreendentemente variadas, abrangendo 18 marcas, incluindo chocolates, gomas, tinturas, pílulas e assados, e continham proporções variadas de THC e CBD em uma ampla gama de potências.

“Isso nos diz que as pessoas estão abertas a tentar tudo o que acham que pode ser útil, mas não há muitos dados disponíveis para orientá-los sobre o que funciona melhor para quê”, disse Bryan.

Para estudar os impactos agudos, os pesquisadores dirigiram um “laboratório móvel” (uma van Dodge Sprinter às vezes chamada de “cannavan”) até a casa de cada paciente. Os participantes foram submetidos a avaliações físicas e cognitivas na van e, em seguida, retestados na van após o uso de maconha em suas casas.

Após duas semanas de uso contínuo na frequência de sua escolha, eles também fizeram um exame de acompanhamento.

Dentro de uma hora, descobriu o estudo, a cannabis aliviou significativamente a dor do paciente, ao mesmo tempo em que prejudicou sua cognição e os fez se sentirem “altos” (quanto maior o teor de THC, mais alto eles se sentiam). Mas, a longo prazo, surgiu um padrão diferente: após duas semanas de uso contínuo, os pacientes relataram melhoras na dor, qualidade do sono e função cognitiva. Algumas medidas objetivas da função cognitiva, incluindo tempos de reação, também melhoraram.

“Pensamos que poderíamos ver alguns problemas com a função cognitiva”, disse Bryan, observando que tanto a maconha quanto a quimioterapia foram previamente associadas ao pensamento prejudicado. “Mas as pessoas realmente sentiram que estavam pensando com mais clareza. Foi uma surpresa.”

Quanto mais a dor das pessoas diminuía, mais sua cognição parecia melhorar.

Notavelmente, aqueles que ingeriram mais CBD, conhecido pelo efeito anti-inflamatório, relataram melhorias maiores tanto na intensidade da dor quanto na qualidade do sono.

Embora estudos maiores e controlados sejam necessários antes de tirar conclusões, os autores dizem que as descobertas levantam uma possibilidade intrigante: embora algumas formas e dosagens de cannabis para alívio da dor possam prejudicar o pensamento a curto prazo, algumas podem melhorar a cognição a longo prazo, reduzindo a dor.

“Sabemos que oncologistas e pacientes estão preocupados com o possível impacto negativo do tratamento do câncer na função cognitiva, portanto, o papel potencial e indireto do uso de cannabis na melhoria da função cognitiva subjetiva deve ser mais estudado”, disse Gregory Giordano, assistente de pesquisa.

Experiência pessoal

Após a cirurgia e a quimioterapia, Bryan voltou-se para comestíveis com infusão de cannabis, criando seu próprio regime personalizado de produtos mais potentes com THC quando a dor era intensa e ela poderia sacrificar um pouco de agudeza mental e produtos mais leves com CBD para manter a dor administrável.

Ela não estava sem dor, mas não tomou um único opioide durante o tratamento.

“Eu tive extrema sorte porque tinha algum conhecimento sobre isso. A maioria dos pacientes não”, disse ela. “Ou eles não sabem que é uma opção ou eles têm atendentes bem intencionados, mas potencialmente mal informados, aconselhando-os.”

Ela espera que a pesquisa de sua equipe, e mais estudos futuros, permitam que médicos e pacientes tomem decisões mais bem informadas.

Artigo publicado originalmente no portal da Universidade do Colorado e traduzido pela Smoke Buddies.

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Imagem de capa: Unsplash / Elsa Olofsson.

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