Cogumelos mágicos remontam ao asteroide que exterminou os dinossauros, diz estudo

Ilustração mostra asteroide na atmosfera da Terra e dois dinossauros. Imagem: Pixabay / geralt.

Datação molecular sugere que a psilocibina foi biossintetizada pela primeira vez nos cogumelos Psilocybe há cerca de 65 milhões de anos

Embora tenham ganhado a atenção do mundo somente nos anos 60, devido aos seus efeitos psicodélicos, os fungos do gênero Psilocybe, popularmente conhecidos como “cogumelos mágicos”, vêm sendo utilizados por culturas indígenas em rituais religiosos há milhares de anos.

Atualmente, a psilocibina proveniente desses cogumelos está revolucionando o tratamento de saúde mental para muitas condições, sendo um dos alvos da pesquisa na área da medicina psicodélica.

No entanto, o conhecimento da diversidade dos cogumelos psilocibos e da sua história evolutiva é substancialmente incompleto. A maioria das espécies produtoras de psilocibina não foi estudada desde que foi descoberta — mas isso começou a mudar.

Uma equipe de pesquisadores da Universidade de Utah, da Universidade de Guadalajara e de outras instituições de pesquisa acaba de concluir o maior estudo de diversidade genômica para o gênero Psilocybe, incluindo a análise do genoma de 39 espécies que ainda não haviam sido sequenciadas.

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Surpreendentemente, os cientistas afirmaram em um comunicado à imprensa ter descoberto que “o Psilocybe surgiu muito antes do que se pensava anteriormente — cerca de 65 milhões de anos atrás, exatamente quando o asteroide que matou os dinossauros causou um evento de extinção em massa”.

Eles também descobriram que a biossíntese da psilocibina surgiu pela primeira vez em cogumelos do gênero Psilocybe, “com quatro a cinco possíveis transferências horizontais para outros cogumelos entre 40 e 9 milhões de anos atrás”.

A análise filogenômica revelou duas ordens genéticas distintas dentro do agrupamento (cluster) genético que produz a psilocibina. “Os dois padrões genéticos correspondem a uma antiga divisão do gênero, sugerindo duas aquisições independentes de psilocibina em sua história evolutiva. O estudo é o primeiro a revelar um padrão evolutivo tão forte nas sequências genéticas que sustentam a síntese de proteínas psicoativas”, disseram os autores.

Bryn Dentinger, curador de micologia do Museu de História Natural de Utah e autor sênior do estudo, disse que o trabalho realizado no estudo é necessário para melhorar nossa compreensão sobre onde e como a psilocibina é produzida na natureza.

“Se a psilocibina acabar por ser este tipo de droga milagrosa, será necessário desenvolver a terapêutica para melhorar a sua eficácia. E se já existir na natureza?”, disse Dentinger. “Precisamos fazer este tipo de trabalho molecular para utilizar a biodiversidade em nosso benefício.”

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Segundo os pesquisadores, todo o DNA do psilocibo utilizado no estudo veio de espécimes em coleções de museus de todo o mundo, sendo que 23 dos 52 espécimes eram espécimes-tipo, “o padrão ouro que designa uma espécie contra a qual todas as outras amostras são medidas”.

“Por exemplo, digamos que você identifique um cogumelo selvagem como uma determinada espécie de chanterelle — você está apostando que o cogumelo que você colheu é o mesmo que o material físico que está em uma caixa de um museu. O trabalho molecular dos autores sobre espécies-tipo é uma contribuição importante para a micologia porque estabelece uma base confiável para todos os trabalhos futuros sobre a diversidade de psilocibos”, explicam no comunicado.

Alexander Bradshaw, pesquisador de pós-doutorado na Universidade de Utah e principal autor do estudo, disse que os espécimes-tipo representam centenas de anos de esforços coletivos de milhares de cientistas para documentar a diversidade, “muito antes de as pessoas pensarem em DNA”.

“Essa é a beleza disso — ninguém sequenciou realmente espécimes-tipo nesta escala, e agora podemos produzir dados moleculares e genômicos de acordo com o padrão ouro dos tipos de Psilocybe para as pessoas compararem”, sublinhou Bradshaw.

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Para Dentinger, que também é professor associado de biologia na Universidade de Utah, ao revelar a ocorrência de várias mudanças na ordem dos genes dos psilocibos ao longo do tempo, o estudo fornece novas ferramentas para a biotecnologia. “Se você está procurando uma maneira de expressar os genes para produzir psilocibina e compostos relacionados, não precisa mais depender de apenas um conjunto de sequências genéticas para fazer isso. Agora há uma enorme diversidade que os cientistas podem observar em busca de muitas propriedades ou eficiências diferentes”.

Baseados em suas descobertas e em teorias como a que diz o estado mental alterado provocado pela ingestão dos cogumelos mágicos poderia ser um impedimento à predação (como se a psilocibina fosse uma defesa química), os autores estão preparando experimentos para testar uma teoria alternativa que chamam de Hipótese dos Gastrópodes.

“As datas de tempo e divergência do Psilocybe coincidem com o limite KPg, o marcador geológico do asteroide que lançou a Terra num inverno brutal e prolongado e matou 80% de toda a vida. Duas formas de vida que prosperaram durante a escuridão e a decadência foram os fungos e os gastrópodes terrestres. As evidências, incluindo o registo fóssil, mostram que os gastrópodes tiveram uma enorme diversificação e proliferação logo após a colisão do asteroide, e sabe-se que as lesmas terrestres são grandes predadoras de cogumelos. Com a datação molecular do Psilocybe feita pelo estudo em cerca de 65 milhões de anos atrás, é possível que a psilocibina tenha evoluído como um dissuasor de lesmas”, diz o comunicado, observando que os pesquisadores esperam elucidar a questão através de experiências com alimentação.

Os autores disseram que sua meta, estabelecida em 2020, é obter uma sequência do genoma para cada espécime-tipo de Psilocybe e, até o momento, foram gerados genomas de 71 espécimes-tipo.

As novas descobertas sobre a evolução dos cogumelos mágicos e da biossíntese da psilocibina foram publicadas nos Anais da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

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Imagem de capa: Pixabay / geralt.

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