Classificações “indica”, “sativa” e “híbrida” podem enganar consumidores de maconha

Foto, em vista aérea, de um pote de vidro repleto de buds de maconha secos em tons de verde e laranja. Imagem: Dank Depot.

Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade do Colorado revela que os rótulos dos produtos de cannabis vendidos nos EUA não se alinham consistentemente com a diversidade química observada

A rotulagem da maconha vendida nos EUA não consegue informar “a realidade química” do que as pessoas consomem, de acordo com um novo estudo da Universidade do Colorado em Boulder que analisou 90.000 amostras colocadas à venda em seis estados.

Denominações como “indica”, “sativa” e “híbrida”, comumente usadas para distinguir os efeitos de diferentes variedades de cannabis, confundem os consumidores e podem ser altamente enganosas, uma vez que não correspondem à diversidade de substâncias químicas das strains, disseram os pesquisadores no artigo publicado na PLOS One na semana passada.

“Nossas descobertas sugerem que o sistema de rotulagem predominante não é uma maneira eficaz ou segura de fornecer informações sobre esses produtos”, disse o coautor Brian Keegan, professor assistente de Ciência da Informação na CU Boulder, em um comunicado.

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Os cientistas analisaram um enorme banco de dados de análises químicas que a plataforma on-line de maconha Leafly compilou de centros de testes de cannabis e classificaram cerca de 90.000 amostras de seis estados americanos de acordo com sua composição de canabinoides e terpenos.

A análise mostrou que o canabinoide predominante na maconha vendida no mercado de uso adulto é o THC (tetraidrocanabinol) e que os produtos podem ser divididos em três categorias, de acordo com seu conteúdo de terpenos: ricos em cariofileno e limoneno, ricos em mirceno e pineno, e ricos em terpinoleno e mirceno.

Essas categorias, entretanto, não equivalem ao esquema de classificação indica, sativa e híbrida.

“Em outras palavras, é provável que uma amostra com o rótulo indica tenha uma composição de terpeno indistinguível de amostras rotuladas como sativa ou híbrida”, escreveram os autores.

Os pesquisadores recomendam a criação de um “sistema de rotulagem de maconha” padronizado semelhante aos rótulos de informações nutricionais da Food and Drug Administration (agência sanitária dos EUA) em produtos alimentícios.

“Um fazendeiro não pode simplesmente pegar uma maçã e decidir chamá-la de Vermelha Deliciosa. Um fabricante de cerveja não pode rotular arbitrariamente seu produto como IPA Duplo”, disse o coautor do estudo Nick Jikomes, diretor de ciência e inovação do Leafly. “Existem padrões. Mas esse não é o caso da indústria da cannabis.”

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O estudo se destaca como talvez o maior até agora a explorar a composição química dos produtos de cannabis. Uma década após a legalização da maconha para uso adulto no Colorado e em Washington, a rotulagem dos produtos ainda é um problema em meio à pressão das empresas por maior profissionalização.

“Os produtos de cannabis dominantes em THC legais são comercializados para os consumidores como se houvesse associações claras entre o rótulo de um produto e seus efeitos psicoativos”, diz o estudo. “Isso é enganoso, pois atualmente não há evidências científicas claras para essas alegações e nossos resultados mostram que esses rótulos têm uma relação tênue com a química subjacente”.

A cannabis contém dezenas de compostos químicos com potenciais efeitos psicoativos e/ou medicinais. Os pesquisadores afirmam que entender essas substâncias é crucial para a classificação correta dos produtos.

Reguladores governamentais da maioria dos estados onde a maconha foi legalizada exigem que as empresas divulguem o teor de THC e CBD (canabidiol).

Mas as empresas não são obrigadas a incluir informações sobre outros compostos, incluindo terpenos, que podem influenciar não apenas o cheiro, mas também a forma como um produto faz você se sentir.

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Algumas variedades amplamente reconhecidas, como a Durban Poison, eram “consistentemente inconsistentes”, disse Jikomes. Enquanto outras, como a White Tahoe Cookies, foram surpreendentemente consistentes de produto para produto.

“Na verdade, havia mais consistência entre as strains do que eu esperava”, disse ele. “Isso me diz que os cultivadores, pelo menos em alguns casos, podem não estar recebendo crédito suficiente.”

Keegan, da CU Boulder, prevê que um dia os produtos de cannabis sejam categorizados com base em uma compreensão mais abrangente de sua composição química e rotulados com detalhes não apenas sobre o THC e o CBD, mas também sobre os terpenos, flavonoides e outros compostos.

“É como se sua caixa de cereal mostrasse apenas calorias e gordura e nada mais”, disse Keegan. “Nós, como consumidores, precisamos pressionar por mais informações. Se fizermos isso, a indústria responderá.”

A precisão na rotulagem dos produtos de maconha se tornará cada vez mais crítica, à medida que os consumidores usam cada vez mais a planta para fins específicos, como tratamentos de saúde.

Uma teoria sobre como o sistema de rotulagem da cannabis se tornou tão incoerente foi levantada pelos pesquisadores.

“Embora as origens desse padrão não sejam claras, uma hipótese é que ele ecoa padrões de fitoquímica que podem ter sido mais distintos antes da longa história de hibridização de cannabis nos EUA. É concebível, por exemplo, que certas cultivares comumente associadas a linhagens ‘sativa’ possam ter historicamente apresentado um quimiotipo confiável distinto daqueles de outras linhagens. Com o tempo, a hibridização e a falta de convenções de padronização de nomenclatura podem ter decorrelacionado marcadores quimiotaxonômicos dos rótulos linguísticos usados pelos cultivadores”, diz o estudo.

A ausência de uma padronização das nomenclaturas das variedades, segundo os pesquisadores, é consequência da proibição federal da maconha nos EUA. “Consequentemente, os sistemas de classificação herdados do mercado ilícito persistiram com uma confiança injustificada na proveniência e previsibilidade dos efeitos dos produtos”.

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