Cetamina reduz sintomas em pacientes com depressão resistente ao tratamento, diz estudo

A cetamina é eficaz na redução rápida dos sintomas da depressão resistente ao tratamento, além de proporcionar uma diminuição dos pensamentos típicos da condição, segundo os resultados de um novo estudo publicado na JAMA Psychiatry

Os episódios depressivos são caracterizados por crenças negativas, como inutilidade, desesperança e pessimismo, que não melhoram ao vivenciar eventos positivos.

Segundo os pesquisadores, essas crenças mal-adaptativas “distorcem a percepção e a interpretação dos eventos da vida e produzem uma visão negativa de si mesmo, do mundo e do futuro” e persistem mesmo quando a pessoa recebe informações positivas.

O estudo justifica a necessidade de se encontrar terapias novas e eficazes apontando para dados que mostram que aproximadamente um terço dos pacientes com depressão não respondem aos tratamentos antidepressivos convencionais, levando a um diagnóstico de depressão resistente ao tratamento.

“A cetamina, um anestésico comumente usado, demonstrou influenciar a depressão resistente. Enquanto os tratamentos antidepressivos convencionais levam tempo para serem eficientes (em média três semanas), a cetamina tem um efeito antidepressivo rápido, apenas algumas horas após a administração”, disseram os autores do novo estudo.

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Para identificar os mecanismos associados a esse efeito antidepressivo de ação rápida da cetamina, Hugo Bottemanne da Universidade Sorbonne e uma equipe de pesquisa coliderada no Paris Brain Institute por Philippe Fossati e Liane Schmidt conduziram um estudo com 26 pacientes resistentes a antidepressivos recrutados do serviço de psiquiatra do Hospital Pitié Salpêtrière e trinta voluntários saudáveis para um grupo de controle.

Os participantes de ambos os grupos foram inicialmente solicitados a estimar a probabilidade de ocorrência em sua vida de 40 eventos “negativos” (por exemplo, sofrer um acidente de carro, ter câncer ou perder a carteira).

Em seguida, os participantes foram informados dos reais riscos da ocorrência desses eventos na população em geral e novamente solicitados a estimar a probabilidade de ocorrerem em suas vidas — a equipe estava interessada na atualização das crenças dos participantes após obterem as informações factuais positivas.

Os resultados mostraram que aqueles no grupo de controle saudável tenderam a atualizar suas crenças iniciais mais do que os indivíduos deprimidos.

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Os pacientes com depressão receberam então três administrações de cetamina em dosagem subanestésica (0,5 mg/kg em 40 minutos) durante uma semana.

“Apenas quatro horas após a primeira administração [de cetamina], a capacidade dos pacientes de atualizar suas crenças após receber uma informação positiva foi aumentada”, disseram os autores em um comunicado. “Eles tornaram-se menos sensíveis às informações negativas e recuperaram a capacidade de atualizar seus conhecimentos comparável à dos sujeitos controle.”

A melhora dos sintomas depressivos após o tratamento com cetamina foi relacionada a essas mudanças na atualização de crenças, sugerindo que existe uma ligação entre a melhora clínica e alterações nesse mecanismo cognitivo. “Quanto mais aumentava a capacidade de atualização de crenças dos pacientes, maior era a melhora dos sintomas”, explicaram os autores.

O estudo chegou à conclusão de que pacientes com depressão resistente ao tratamento mostram uma diminuição significativa nos sintomas e tornam-se mais receptivos a experiências positivas após uma semana de tratamento com cetamina.

No entanto, os pesquisadores dizem que mais estudos são necessários para desvendar os efeitos específicos da cetamina na atualização de crenças e nos vieses de atualização de crenças em diferentes coortes de participantes.

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Imagem de capa: Eric Ward / Unsplash.

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