CBD pode aumentar os efeitos adversos do THC em comestíveis de maconha, mostra estudo

Fotografia que mostra uma bandeja retangular marrom com seis divisórias contendo, cada uma, um pedaço de brownie de chocolate com lascas de nozes, junto a ramos de maconha, em uma superfície branca. Foto: jcomp / Freepik.

Um novo estudo contradiz as alegações comuns e algumas pesquisas anteriores que relatam um efeito atenuador do canabidiol (CBD) sobre os efeitos adversos do tetraidrocanabinol (THC), o principal ingrediente ativo da cannabis

Uma equipe liderada por pesquisadores da Universidade Johns Hopkins descobriu que doses relativamente altas de CBD resultou em efeitos subjetivos mais fortes do THC, incluindo maior comprometimento da capacidade cognitiva e psicomotora e maior aumento da frequência cardíaca.

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A descoberta mostra que, em produtos comestíveis de maconha, o CBD inibe o metabolismo ou a quebra do THC, o que pode resultar em efeitos mais fortes e prolongados em comparação com o THC na ausência de CBD.

“As discrepâncias nas interações de CBD e Δ9-THC entre os estudos podem estar relacionadas a diferentes vias de administração, doses de CBD administradas ou tempo de avaliação. Ao contrário de estudos anteriores, o presente estudo usou uma via oral de administração para CBD e Δ9-THC e, no caso do brownie com alto teor de CBD, tanto o Δ9-THC quanto o CBD foram administrados simultaneamente, e não sequencialmente”, escreveram os autores em um artigo publicado na segunda-feira no JAMA Network Open.

Os resultados do estudo mostram que a quantidade máxima de THC medida nas amostras de sangue dos participantes foi quase duas vezes maior depois de consumir um brownie contendo THC com CBD do que depois de comer um brownie com apenas THC, embora a dose de THC em cada brownie (20 mg) fosse a mesma.

Além disso, a quantidade máxima de 11-OH-THC (um subproduto metabólico do THC que produz efeitos semelhantes ao THC) foi 10 vezes maior depois de comer o brownie com o alto teor de CBD em comparação com o bolo contendo apenas THC.

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Segundo os pesquisadores, este é o primeiro estudo a avaliar as diferenças na farmacocinética (absorção e eliminação de uma droga pelo corpo) e na farmacodinâmica (resposta do corpo a uma droga) entre extratos de maconha administrados por via oral que variaram em relação às concentrações de THC e CBD.

“O fato de o THC e o CBD serem administrados por via oral foi muito importante para o estudo e desempenhou um papel importante nos efeitos comportamentais e nas interações medicamentosas que vimos”, disse Austin Zamarripa, PhD, pesquisador de pós-doutorado na Escola de Medicina da Johns Hopkins e principal autor do estudo.

Estudos anteriores controlados de THC e CBD usaram predominantemente vias de administração inaladas, observaram os autores, o que significa que muitos dos dados existentes sobre interações entre THC e CBD podem não se traduzir em produtos comestíveis de cannabis, que sofrem metabolismo de primeira passagem no intestino e no fígado antes de atingir a circulação sistêmica.

“Além disso, alguns estudos anteriores usaram Δ9-THC e/ou CBD fabricados sinteticamente, limitando a generalidade aos produtos orais de cannabis no varejo, que geralmente são fabricados com extratos de cannabis da planta inteira”, apontaram os pesquisadores.

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O novo estudo foi conduzido no formato duplo-cego (nem os participantes nem os pesquisadores sabiam o que estava sendo administrado) e cruzado (foi testado cada tipo de extrato de maconha e um placebo nos mesmos indivíduos) de janeiro de 2021 a março de 2022 na Unidade de Pesquisa em Farmacologia Comportamental da Johns Hopkins. Os pesquisadores recrutaram 18 participantes adultos (11 homens e 7 mulheres) que não usaram cannabis por pelo menos 30 dias antes do início do estudo.

Os voluntários do estudo participaram de três sessões, cada uma separada por pelo menos uma semana. Em uma sessão os participantes consumiram um brownie contendo 20 mg de THC, na outra um brownie com 20 mg de THC e 640 mg de CBD e em uma terceira sessão um brownie com nenhum THC ou CBD (placebo).

Em cada sessão, os participantes também receberam um coquetel composto por cinco drogas (100 mg de cafeína, 25 mg de losartan, 20 mg de omeprazol, 30 mg de dextrometorfano e 2 mg de midazolam) 30 minutos após comer cada brownie. Essas substâncias foram administradas para ajudar os cientistas a descobrir como o CBD e o THC afetam a metabolização de medicamentos e suplementos dietéticos comumente usados ​​(essas análises serão publicadas separadamente).

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Usando um Questionário de Efeitos de Drogas (DEQ), os participantes avaliaram os efeitos subjetivos com uma escala de 0 a 100. Entre as avaliações subjetivas, os participantes experimentaram aumentos maiores nos efeitos gerais das drogas (59 [THC] vs. 73 [THC + CBD]), efeitos desagradáveis das drogas (20 [THC] vs. 39 [THC + CBD]), sensação de enjoo (12 [THC] vs. 26 [THC + CBD]), olhos secos/vermelhos (16 [THC] vs. 29 [THC + CBD]) e dificuldade em realizar tarefas rotineiras (30 [THC] vs. 47 [THC + CBD]), após comerem o brownie contendo CBD.

Após comer o brownie com CBD, os participantes também mostraram significativamente mais comprometimento no desempenho em testes de memória e atenção em comparação com quando consumiram o brownie com apenas THC.

O consumo do brownie com alto teor de CBD também resultou em um aumento maior na frequência cardíaca — após consumirem o doce contendo apenas THC, os participantes tiveram um aumento de 10 batimentos por minuto, já após ingerirem o que tinha THC e CBD o aumento foi de 25 batimentos por minuto.

“Demonstramos que com uma dose oral relativamente alta de CBD pode haver interações metabólicas significativas entre o THC e o CBD, de modo que os efeitos do THC são mais fortes, duradouros e tendem a refletir um aumento nos efeitos adversos indesejados”, disse Ryan Vandrey, PhD, professor de psiquiatria e ciências comportamentais na Escola de Medicina da Johns Hopkins e autor sênior do estudo.

Os pesquisadores dizem que estudos futuros comparando o efeito de múltiplas doses e proporções de THC e CBD são necessários para determinar a generalidade das associações observadas, bem como o limite de dose para alterações clinicamente significativas nos resultados de farmacodinâmica. Além disso, os resultados foram avaliados no contexto de um coquetel de sustâncias, que pode ter contribuído para os resultados comportamentais observados.

Os achados são consistentes com um estudo separado conduzido por cientistas do Instituto de Psiquiatria, Psicologia e Neurociência do King’s College London.

A pesquisa envolveu 46 voluntários saudáveis que inalaram vapor de maconha contendo 10 mg de THC e um nível diferente de CBD (0 mg, 10 mg, 20 mg ou 30 mg), aleatoriamente, ao longo de quatro visitas experimentais.

Após cada sessão de inalação de cannabis, os participantes completaram uma série de tarefas, questionários e entrevistas destinadas a medir o efeito em suas habilidades cognitivas e avaliar os sintomas psicóticos e os efeitos prazerosos.

Os resultados mostraram que aumentar a dose de CBD não alterou significativamente os efeitos do THC no desempenho cognitivo ou no prazer da experiência.

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Foto de capa: jcomp / Freepik.

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