“Toco até bateria”, diz paciente sobre tratamento da fibromialgia com cannabis

Foto mostra a paciente de cannabis Liliane da Luz segurando duas baquetas próximo ao rosto.

Foram poucos meses para que Liliane pudesse ter uma vida normal novamente. Se antes era difícil levantar da cama, hoje a enfermeira faz até trilha

A enfermeira Liliane da Luz, 54, de Joinville, em Santa Catarina, teve um trauma psicológico em 2014, depois de perder a mãe. O evento foi um gatilho para uma fibromialgia, condição que a aposentada precisa enfrentar até hoje.

Mas o problema maior é que os remédios convencionais não pareciam ajudar muito. As dores continuavam e, com elas, o desânimo e as dificuldades de mobilidade. Soube da cannabis na mesma época, mas a planta estava muito distante da sua realidade.

Foram necessários seis anos para Liliane conhecer alguém que pudesse a ajudar a ter acesso ao tratamento canábico. E, desde então, a sua vida mudou.

“Há quatro anos que eu me trato com a cannabis e digo para as pessoas que é uma medicação que salvou a minha vida. Tive depressão e ansiedade, não queria mais sair da cama para trabalhar, e hoje faço tudo. Viajo, excursões, subo, desço e brinco com os meus dois netos lindos”, acrescenta.

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Enfermeira aposentada trata fibromialgia com cannabis. Foto: arquivo pessoal.

Com dores da noite para o dia

Depois que a sua mãe faleceu, Liliane ficou quatro dias sem conseguir pregar os olhos. Quando finalmente conseguiu dormir, acordou pela manhã com dores no corpo todo, da cabeça aos pés.

Fez todos os exames necessários para descobrir a causa, mas nada apontava uma condição que pudesse explicar o incômodo. Foi então que tanto o neurologista quanto o psiquiatra apontaram para a fibromialgia.

Trata-se de uma doença crônica e sem cura, caracterizada por dor generalizada, fadiga, distúrbios do sono e sensibilidade aumentada. No Brasil, a condição atinge aproximadamente 3% da população, sendo a maioria mulheres com 35 anos ou mais.

Por muitas vezes, está relacionada a fatores emocionais, como ansiedade, depressão e estresse. Outras vezes, pode ser ocasionada por fatores do sistema nervoso. Em ambos os casos, as dores podem ser incapacitantes.

“Eu não conseguia levantar da mesa, de um sofá ou entrar em um ônibus. Eu tinha uma cabeça de 50 anos e um corpo de 90”, relata.

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Sem acesso à cannabis

Por causa da sua profissão, Liliane já tinha ouvido falar sobre as propriedades medicinais da cannabis e tinha até vontade de utilizar o tratamento. Principalmente para tentar reduzir os remédios que usava e que a derrubavam.

Mas o problema era a falta de acesso. Ela perguntava para todos que conhecia sobre médicos que pudessem prescrever ou lugares para adquirir o produto.

Foram seis anos de procura até que uma amiga lhe indicou um médico de uma associação chamada, na época, de AMCC (Associação Médica da Cura com Cannabis). O Dr. Pedro, de Brasília, fez uma consulta por telefone mesmo. Quinze dias depois, Liliane estava recebendo o produto em casa.

“Eu chorei muito, minha filha até gravou. Foi muito emocionante”, lembra.

Produtos de cannabis no Brasil

A legislação de produtos feitos com a planta no Brasil é relativamente nova. A importação, por exemplo, só passou a acontecer em 2015, após uma resolução da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Aqui, o paciente precisa buscar uma autorização excepcional para poder trazer o produto de fora.

No final de 2019, a agência também aprovou a venda de cannabis nas farmácias. Neste caso, as empresas precisam de uma autorização prévia do órgão para poder colocar os seus produtos nas prateleiras.

Ainda assim, todos os produtos precisam ser receitados por um médico legalmente habilitado. Mas o problema é que menos de 1% dos médicos prescrevem no Brasil.

Vida de paciente com fibromialgia mudou após tratamento com cannabis. Imagem: acervo pessoal.

Melhoras além do esperado

As melhoras vieram de forma rápida, Liliane conta que foi questão de meses para o tratamento fazer efeito. De repente viu as dores reduzirem drasticamente e, após alguns ajustes de dosagem, elas sumiram.

A enfermeira se aposentou no ano passado por tempo de serviço e agora sente que pode fazer tudo o que quiser. “Toco bateria e faço academia, hidroginástica e tudo no mesmo dia”, acrescenta.

Também reduziu a quantidade de medicamentos utilizados para tratar a fibromialgia. Hoje, a aposentada só usa a cannabis e mais um medicamento convencional.

Em 2020, ela ainda teve um acidente de carro, ficou na UTI por 28 dias e fraturou sete costelas. Mas aparentemente, a cannabis ajudou a aliviar também as dores do pós-cirúrgico. Liliane conta que não sentia nada.

“Quando eu voltei em uma consulta de retorno, o cirurgião torácico falou: ‘Meu deus, não é aquela mulher que caiu no Rio? Como você tá bem!’”, lembra.

Sem preconceitos

Liliane conta que, diferente de muitos casos, a sua família não foi contra a escolha da cannabis como tratamento. Pelo contrário, a incentivaram a começar o tratamento.

Ainda que houvesse alguma resistência por parte de alguns, os resultados nela foram mais que suficientes para mudar a percepção sobre a cannabis.

“Até mesmo por que a família não aguenta te ver daquele jeito, ela também adoece. A cannabis não tratou só a mim, mas a família inteira. Meus filhos contam que foi inacreditável a diferença em quatro anos. Hoje eu falo pra eles que posso fazer tudo o que eu quero. Faço até trilha com as amigas”, acrescenta.

Com tempo livre e mais qualidade de vida, a aposentada passou a fazer academia e hidroginástica para emagrecer. Não contente com as atividades, resolveu também que queria tocar bateria.

“Fez um ano que comecei em janeiro, foi apaixonante. Tenho a minha bateria em casa e faço aulas. Hoje eu toco, eu ensaio e toco na banda das meninas quando me convidam”, comenta.

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Fotografia de capa: Pixabay.

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