Associação de Sergipe é impedida pela Justiça de continuar produzindo medicamentos de cannabis

Foto mostra o ramo apical florido de uma planta de maconha, bem outras plantas com flores, em uma plantação da associação Salvar, em Sergipe. Imagem: acervo pessoal.

Primeira entidade autorizada a dispensar flores de maconha aos pacientes corre o risco de cessar suas atividades

A Salvar, associação sergipana que cultiva cannabis para uso no tratamento de saúde de seus associados, denunciou que está sofrendo uma ação do poder judiciário de Sergipe que a impede de colher as plantas. Os produtos oriundos do cultivo atendem a mais de mil pacientes, a preços mais acessíveis do que os praticados pela indústria e possibilitando um tratamento personalizado para cada paciente.

Desde março do ano passado, a associação tem autorização da Justiça para cultivar maconha e manipular, preparar, produzir, armazenar, transportar, dispensar e pesquisar produtos derivados da planta para fins medicinais, utilizados no tratamento das diversas enfermidades que afligem os pacientes associados. A decisão da 2ª Vara Federal de Sergipe autoriza ainda a dispensação de flores in natura e comestíveis.

Apesar disso, em abril deste ano, cinco dirigentes da Salvar foram presos durante uma operação da Polícia Civil nos municípios de Aracaju e Salgado, acusados de comercializar as plantas produzidas de forma ilegal. Segundo o g1, eles continuavam presos até esta terça-feira. A entidade afirma que os membros investigados são inocentes.

Segundo a polícia, a associação vinha atuando sem autorização da justiça. “Em agosto do ano passado, ocorreu agravo da União, que foi provido, então, atualmente eles estavam atuando de maneira ilegal”, afirmou o delegado Rafael Kaupfer em nota sobre as prisões.

No entanto, de acordo com o Departamento de Narcóticos, a associação em si não é objeto das investigações que levaram à prisão dos dirigentes.

Plantação da associação Salvar em Salgado, no interior de Sergipe. Foto: acervo pessoal.

Buds já estão secando na plantação da Salvar em Salgado. Foto: acervo pessoal.

“Mais de mil pacientes vão ficar sem o medicamento, sem continuar o tratamento. Poder judiciário de Sergipe, nos ouça, nós não podemos deixar pessoas desassistidas, pessoas que têm Alzheimer, crianças que têm autismo, pessoas que fazem tratamento do câncer”, disse a vice-presidente técnica da Salvar, Taciany Feitosa, em suas redes sociais.

Enquanto os produtos de cannabis industrializados podem custar até mais de R$ 3.000 nas farmácias, os fabricados pela Salvar custam de R$ 150 a R$ 300, sendo que 10% da produção é destinada para pacientes cotistas em Sergipe e espalhados pelo Brasil.

“Estamos recebendo muitos depoimentos de pacientes. Não é fácil substituir um produto à base de cannabis da Salvar por outro de outra associação porque é personalizado e o sistema endocanabinoide do paciente já se adaptou com o produto. Por isso eles vêm tendo reposta terapêutica e qualidade de vida”, afirmou Taciany em um comunicado à imprensa.

Além de garantir o direito à saúde a cerca de 1.100 pacientes, a Salvar desempenha um papel social ainda maior através de um acordo de cooperação técnica com a Universidade Federal de Sergipe, que busca contribuir com a implantação de políticas públicas e o desenvolvimento tecnológico sobre a cannabis.

Também existe uma parceria entra a Secretaria de Saúde de Sergipe, a UFS e a Salvar para criar o Núcleo de Análise, Melhoramento, Produção, Investigação e Transferência Tecnológica em Cannabis de Sergipe (Cannabise). O objetivo é tornar o Estado independente tanto em estudos quanto em desenvolvimento de produtos medicinais à base de maconha.

A Política Estadual de Cannabis para fins terapêuticos foi instituída em Sergipe pela Lei nº. 9.178, publicada em abril do ano passado. Em dezembro, o estado se tornou o primeiro a iniciar a distribuição de medicamentos de cannabis na rede pública de saúde. A parceria entre o governo estadual e as entidades visa atender a um número maior de pacientes com um custo menor para os cofres públicos.

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Fotografia de capa: Salvar.

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