Alzheimer: composto da maconha pode ajudar na prevenção e alívio da doença, segundo estudo

Fotografia mostra um conta-gotas contendo óleo amarelo, no canto superior direito, e a folhagem do topo de uma planta de maconha, além de outras plantas que aparecem em pior foco ao fundo. Imagem: Tinnakorn Jorruang | Vecteezy.

Novas descobertas apontam para o potencial do canabidiol (CBD), uma das substâncias presentes na cannabis, como uma opção terapêutica para a mitigação e prevenção da doença de Alzheimer

O CBD tem demonstrado eficácia no tratamento de uma ampla gama de condições, incluindo dor neuropática, insônia, depressão e entre outras, o que tem atraído cada vez mais o interesse científico. O potencial terapêutico do canabinoide e da cannabis, de forma geral, para a melhora dos sintomas de doenças neurodegenerativas também já foi demonstrado por estudos anteriores.

A doença de Alzheimer (DA) é a forma mais comum de doença neurodegenerativa associada à idade e representa um desafio de saúde global em uma população em envelhecimento. A condição deteriora progressivamente a memória e as capacidades cognitivas, afetando o comportamento e a personalidade da pessoa, bem como a capacidade de realizar as mais simples tarefas.

Mais de 55 milhões de pessoas em todo o mundo vivem com Alzheimer ou outros tipos de demência e os tratamentos aprovados atualmente para a doença fornecem apenas melhorias sintomáticas transitórias e parciais, logo é urgente o desenvolvimento de novas opções terapêuticas.

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A neuroinflamação é central na patologia do Alzheimer, resultando em danos sinápticos e neuronais, o que ressalta a importância de abordar a inflamação e conservar a integridade neuronal.

Buscando investigar a eficácia terapêutica do CBD, levando em conta suas conhecidas propriedades neuroprotetoras e anti-inflamatórias, pesquisadores da Universidade Farmacêutica da China descobriram que o canabinoide pode melhorar os déficits cognitivos e neutralizar a citotoxicidade neuronal causada pelo peptídeo Aβ1-42, um dos biomarcadores mais citados para o diagnóstico da doença de Alzheimer.

Os pesquisadores utilizaram camundongos, que receberam Aβ1-42 para modelar o Alzheimer, e testes in vitro com culturas de células tratadas com o peptídeo para simular a doença.

Um labirinto aquático de Morris foi utilizado para medição da função cognitiva dos camundongos. Na fase inicial do teste, os animais devem nadar até uma plataforma para escapar de uma piscina de água, que é opaca devido à adição de leite em pó ou tinta não tóxica. A plataforma é então escondida sob a superfície da água, de modo que o animal é obrigado a lembrar sua localização para escapar.

Os camundongos induzidos por Aβ1-42 demoraram mais para encontrar a plataforma em comparação com o grupo controle, destacando a deficiência cognitiva causada pelo peptídeo. O tratamento com CBD, no entanto, reduziu significativamente o tempo que os animais demoravam para escapar, indicando um aprimoramento de suas capacidades cognitivas. A análise dos padrões de navegação mostrou ainda mais o potencial do canabinoide para melhorar a memória espacial.

“Coletivamente, nossos dados apoiam a promessa do CBD em termos de enfrentar os desafios de aprendizagem e memória em camundongos com doença de Alzheimer”, escreveram os autores.

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Os cientistas também utilizaram a técnica de RNA-seq para elucidar o mecanismo terapêutico envolvido no tratamento do Alzheimer com o CBD. Eles analisaram a expressão de mRNA de marcadores pró-inflamatórios críticos e constataram que o canabinoide atenuou a neuroinflamação.

A análise revelou ainda que os camundongos tratados com Aβ1-42 apresentaram uma expressão significativamente reduzida de fatores neurotróficos, fator neurotrófico derivado de células gliais (GDNF) e fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), proteínas endógenas essenciais para a sobrevivência e regeneração neuronal. Esse quadro foi melhorado após o tratamento com CBD, que elevou acentuadamente os níveis das substâncias.

“Em essência, o CBD parece aliviar a disfunção sináptica e conferir neuroproteção em camundongos induzidos por Aβ1-42”, observaram os pesquisadores.

A doença de Alzheimer está associada à formação de placas senis no cérebro, que são agrupamentos de pedaços do peptídeo beta-amiloide e emaranhados neurofibrilares. Essas formações podem bloquear a comunicação entre os neurônios e ativar células do sistema imune (astrócitos e micróglias), que causam processos inflamatórios capazes de gerar neurodegeneração.

Os dados demonstraram que o CBD diminuiu a ativação das micróglias e dos astrócitos em regiões do cérebro afetadas pela doença, bem como reduziu os marcadores neuroinflamatórios.

“Nossas descobertas sugerem a eficácia do CBD na moderação da ativação microglial e astrocítica, oferecendo benefícios anti-inflamatórios que protegem a função sináptica e aliviam os déficits cognitivos associados à DA”, disseram os autores. “Os nossos dados apoiam o potencial papel terapêutico do CBD no combate à neuroinflamação relacionada com a DA.”

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Segundo os pesquisadores, os resultados defendem o potencial do CBD para atenuar os déficits cognitivos e de memória através da modulação das vias inflamatórias e neuroinflamatórias. “Esta ação dupla, abrangendo a restauração sináptica e a inibição da neuroinflamação, reforça a função cognitiva e mitiga os desafios de memória em camundongos com DA”, ressaltaram.

Além de validar os atributos neuroprotetores do CBD e demonstrar a capacidade do canabinoide de rejuvenescer as capacidades de aprendizagem, o estudo forneceu “insights valiosos sobre o papel do CBD na modulação de genes críticos dentro da cascata inflamatória, sublinhando o seu robusto potencial anti-inflamatório”, apontaram os autores.

Destacando que o CBD é considerado um nutracêutico e oferece benefícios terapêuticos para uma ampla gama de doenças, os pesquisadores observaram que a dose de CBD utilizada no estudo equivalente para humanos (HED) é de cerca de 115 mg, “tornando este um suplemento oral viável”.

“Nossa pesquisa comprova a eficácia do CBD na prevenção ou na mitigação dos efeitos da DA. Assim, futuras formulações de suplementos de CBD podem ser estrategicamente posicionadas para incluir indicações para prevenção e alívio da DA, ampliando seu repertório terapêutico”, concluem.

Os pesquisadores, afiliados ao Laboratório-Chave do Estado de Medicamentos Naturais da universidade, lastimam que o papel potencial do CBD na prevenção e gestão do Alzheimer permaneça ausente das diretrizes contemporâneas.

Potencial neuroprotetor da cannabis

A capacidade neuroprotetora da cannabis já havia sido apontada em pesquisas anteriores. Uma revisão da literatura médica publicada em 2022 revelou que numerosos fitoquímicos predominantes na maconha apresentam eficácia no tratamento de doenças neurodegenerativas.

“Vários fitocanabinoides, terpenos e flavonoides selecionados demonstraram neuroproteção através de uma infinidade de vias celulares e moleculares, incluindo ações mediadas por receptores de canabinoides, antioxidantes e antiagregantes diretas contra a proteína tóxica patológica característica da doença de Alzheimer, amiloide β”, escreveram os pesquisadores em um artigo na Phytomedicine.

Em um estudo publicado em 2022, pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constataram que os canabinoides encontrados na cannabis podem ajudar no tratamento de doenças neurodegenerativas, promovendo a proliferação celular, migração e diferenciação de células progenitoras de oligodendrócitos — células responsáveis pela sintetização e manutenção da bainha de mielina (tecido adiposo que envolve os neurônios e protege o sistema nervoso central).

Enquanto isso, um pesquisador do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Texas, em San Antonio, está estudando se o endocanabinoide 2-AG (2-araquidonoilglicerol) — a “maconha” que ocorre naturalmente no corpo — pode ser estimulado no cérebro para tratar o Alzheimer. A pesquisa recebeu US$ 4,4 milhões em financiamento dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA.

O 2-AG é o equivalente do canabinoide THC (tetraidrocanabinol) no corpo, atuando nos mesmos receptores cerebrais.

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Imagem de capa: Tinnakorn Jorruang | Vecteezy.

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