Adolescentes estão trocando álcool por maconha nos EUA, diz estudo

Foto que mostra, em plano fechado, um baseado aceso e as pontas dos dedos que o seguram, em fundo escuro. Imagem: Dominic Milton Trott / Flickr.

Os adolescentes estadunidenses estão trocando álcool por cannabis, de acordo com um novo estudo que rastreou o uso indevido e o abuso intencional de drogas relatados aos Centros de Controle de Intoxicação dos EUA nas últimas duas décadas

As descobertas, publicadas na segunda-feira na Clinical Toxicology, mostram que a exposição à maconha entre adolescentes aumentou 245% entre 2000 e 2020 nos EUA, enquanto o abuso de álcool diminuiu no mesmo período.

“Os casos de uso indevido/abuso de etanol excederam o número de casos de maconha todos os anos de 2000 a 2013. Em 2014, os casos de exposição a abuso/uso indevido de maconha ultrapassaram os casos de etanol e, desde então, os casos de exposição à maconha excederam os casos de etanol todos os anos”, escreveram os pesquisadores da Universidade Oregon Health & Science.

De acordo com a análise, houve 510 e 1.761 casos de exposição à maconha em 2000 e 2020, respectivamente — contrastando com a exposição ao álcool, onde o estudo constatou 1.318 casos em 2000 e 916 em 2020.

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No geral, mais de 80% de todos os casos de exposição relatados ocorreram em jovens de 13 a 18 anos. Os pesquisadores observaram 57.488 incidentes envolvendo crianças de 6 a 12 anos, mas eram casos de ingestão de vitaminas, plantas, melatonina, desinfetantes para as mãos e outros objetos.

A equipe também viu altos níveis de abuso de medicamentos de venda livre entre os adolescentes. Entre 2001 e 2016, o maior número de casos de abuso de drogas foi relacionado ao dextrometorfano, um remédio para resfriado e tosse — os anti-histamínicos orais também estavam entre as substâncias mais comumente usadas indevidamente.

Em relação à cannabis, os autores disseram que as descobertas podem refletir o impacto da legalização em rápida evolução nos adolescentes. “Embora a legalização da maconha seja restrita principalmente à população adulta, ela tornou a droga mais acessível a crianças e adolescentes”, escreveram.

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No entanto, o estudo é limitado, uma vez que não faz uma análise dos dados por estado. Em jurisdições que legalizaram o uso adulto e/ou medicinal da cannabis, as leis de regulamentação impõem proibições da venda de produtos de maconha a menores de idade, o que não ocorre nos mercados não regulamentados.

Além disso, um corpo crescente de estudos vem mostrando justamente o contrário: o uso de cannabis por adolescentes não aumentou ou até mesmo diminuiu em estados americanos que legalizaram a planta.

Um estudo recente publicado na American Journal of Preventive Medicine revelou que a legalização da maconha pelos estados nos EUA não está associada ao aumento do uso de cannabis entre os adolescentes. “A mudança no status de legalização na adolescência não foi significativamente relacionada à mudança pessoal na probabilidade ou frequência do uso autorrelatado de cannabis no ano anterior”, escreveram os pesquisadores.

“Os jovens que passaram a maior parte de sua adolescência sob legalização não tinham mais ou menos probabilidade de ter usado maconha aos 15 anos do que os adolescentes que passaram pouco ou nenhum tempo sob legalização”, diz o estudo.

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Um outro estudo conduzido por cientistas da Universidade Estadual de Michigan analisou as tendências de consumo de cannabis em uma coorte de mais de 800.000 pessoas e descobriu que a regulamentação do uso adulto de maconha não faz aumentar o consumo entre menores de 21 anos.

As evidências indicam que não há mudanças associadas a políticas na ocorrência de novos incidentes de cannabis em menores de idade, mas um aumento na ocorrência de novos inícios de uso de cannabis entre adultos mais velhos”, escreveram os autores.

Outro exemplo é uma pesquisa do Departamento de Saúde Pública do Colorado que constatou uma redução de 35% na probabilidade de os adolescentes consumirem maconha em 2021 em comparação com os anos anteriores — uma tendência que vem se confirmando desde 2013, quando a pesquisa teve início.

Além disso, o estudo também revelou um declínio do número de adolescentes que disseram que seria fácil obter cannabis se quisessem. Em 2021 pouco mais de 40% dos estudantes afirmaram que poderiam acessar facilmente, em contraste com os 55% que disseram isso em 2013 — as vendas legais de maconha para uso adulto começaram em 2014 no estado.

Dito isso, um relatório divulgado em março deste ano pela Coalizão para Política, Educação e Regulamentação da Cannabis (CPEAR) — um grupo de representantes de indústrias regulamentadas, acadêmicos, autoridades de segurança pública, profissionais de saúde e entidades de equidade social — detalha como os pesquisadores descobriram que o uso de cannabis por jovens “diminui ou permanece estável nos mercados regulamentados de cannabis”.

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Foto em destaque: Dominic Milton Trott / Flickr.

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