A cannabis nos torna mais sexy? A ciência fala, os especialistas opinam

Fotografia mostra um homem, em perfil, dos ombros para cima e com a cabeça voltada para trás, expelindo fumaça e um fundo escuro. Imagem: Unsplash | César Couto.

Os estudos sugerem que o consumo de maconha pode ter efeitos positivos sobre o desejo sexual e a excitação de algumas pessoas, mas os resultados podem variar para outras

Há uma sensação no ar que é resultado de um viés positivo: a cannabis “torna” a gente mais sexy. Ninguém o confirmou completamente e, no entanto, devido a algumas fontes emocionais de autopercepção ou devido à mera liturgia 420, algo acontece. Às vezes para melhor e outras vezes, bem, nem tanto.

Se a combustão da cannabis nos dota de qualidades que sabemos estar ausentes, as verdades científicas não são conclusivas nem afirmativas. Agora você vê e agora não, agora você é sexy e agora não é.

Por exemplo, há casos em que acontece o que tem que acontecer: inexplicavelmente, o churro dá algumas garantias. Como Popeye com seu espinafre, a cannabis nos enche de certezas.

“Sou belo e o mundo sorri comigo”, se atreveu a cuspir Adrián Dárgelos, do Babasónicos, em “Puesto”, que conhece o ego, entre tufos de fumaça tremulando ao encontro.

Estudos formais e alguns dados

Já a cultura memética tende a sintetizar e comprimir ideias de forma prática, ágil e concreta. Existe um meme em que, no primeiro quadro, alguém acende um baseado e diz “vou fumar para relaxar” e no segundo quadro está com os olhos vermelhos e uma cara confusa e se lê “está tendo um ataque de pânico”.

Vamos aos dados. Existe um estudo sobre sexualidade e cannabis realizado pela Universidade de Stanford e publicado no Journal of Sexual Medicine no qual foram analisados ​​dados de pesquisas realizadas em mais de 50.000 estadunidenses entre 24 e 45 anos, em diferentes períodos entre 2002 e 2015.

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Os resultados da análise dos dados mostraram que as mulheres que fumam diariamente tiveram relações sexuais em média 7 vezes nas últimas quatro semanas, em comparação com 6 vezes para aquelas que não usavam cannabis.

E entre os homens? A relação é 7 contra 5. Aqui não estamos falando de qualidade da experiência, mas de quantidade. Porém, pode-se supor que, se eles fazem mais sexo, é por que estão gostando, certo?

“Colocando um pouco no meu boné, eu poderia dizer que essas pesquisas são bastante tendenciosas e não são suficientes para dizer que ‘a maconha melhora positivamente a experiência sexual’ porque quem responde a essas pesquisas são, geralmente, aqueles que sabem que ‘ela lhes pega bem’”, põe um freio Martín Rieznik, autor do livro A Ciência da Sedução, palestrante do TEDx com sua palestra “Seduzir para ser feliz” e responsável pela LevantArte, a primeira empresa dedicada ao estudo e divulgação do conhecimento científico sobre sedução.

E continua: “Imagina que fazemos uma pesquisa perguntando a quem come sushi. ‘Comer sushi te deixa feliz?’ Claro que a maioria diria que sim, o que não é suficiente para dizer ‘consumir sushi traz felicidade segundo a ciência’, entendeu?”

A sedução e suas variantes

Nesse sentido, além de flashes particulares e químicas únicas (que existem, existem), não existem estudos científicos que respondam à pergunta por si só: “a cannabis nos torna mais sexy?”

Ao toque, soma-se a voz da ciência formal, na boca de Damián Cantaloube, doutor em medicina e especialista em endocanabinologia: “Quanto à sedução, é uma questão complexa que envolve aspectos sociais, emocionais e psicológicos”.

Não há autopercepção do que é sexy sem um jogo de sedução. Não há gestos cativantes sem circunstâncias peculiares. Cada um tem uma viagem no fusca, difícil a gente chegar a um acordo.

“Algumas pessoas podem achar atraente a confiança, o senso de humor ou a empatia, enquanto outras podem valorizar outros atributos”, completa Cantaloube, também fundador do INDECAN, organização dedicada à pesquisa e desenvolvimento da endocanabinologia.

Causas e efeitos

Fazendo um close-up, por uma série de razões mais ou menos óbvias, é difícil estabelecer uma relação precisa entre a cannabis e a autoestima (ou a autopercepção da sensualidade) principalmente por três razões: os efeitos da cannabis variam de pessoa a pessoa, as variedades de plantas e seus efeitos psicoativos e as doses administradas.

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“Algo que me impressiona muito na relação entre maconha e autoestima é como o efeito pode ser diferente, mesmo na mesma pessoa”, diz Rieznik, também diretor de Uma história da proibição, documentário dedicado a narrar os principais marcos na guerra contra as drogas.

E complementa: “Conversando com amigos sobre o assunto, todos concordamos que fumar às vezes aumenta a conexão, o relaxamento e o prazer no encontro com outras pessoas, mas, às vezes, gera o contrário: inibição, insegurança, dificuldade de se expressar, nervosismo e paranoia”.

Nessa linha, Cantaloube garante que “a cannabis pode ter efeitos diferentes em cada pessoa e alguns usuários podem sentir que ela ajuda a relaxar ou liberar inibições, o que pode estar relacionado à percepção de se sentir ‘mais sexy’”.

No entanto, para evitar generalizações, ele mantém um olhar imparcial: “Esses efeitos podem variar amplamente e nem todos experimentarão uma maior atratividade pessoal devido ao uso de cannabis”.

Danger! Cuidado aqui

Para entender essa dinâmica, deve-se mencionar que a planta de cannabis contém pelo menos 550 compostos químicos ativos e a cannabis comumente consumida contém altos teores de THC. Ou seja, uma substância psicotrópica.

“Na maioria das pessoas, o THC estimula o estado de alerta (sistema nervoso autônomo) e, inclusive, o consumo crônico pode gerar ansiedade e um efeito direto nesse sistema”, diz Cantaloube.

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Com esses dados em mãos, pode-se deduzir que a resposta à pergunta (será que a maconha nos deixa mais sexy?) depende do efeito que ela gera em cada indivíduo.

“Se o uso de cannabis é habitual para ambos os indivíduos que estão namorando e ambos usam cannabis, isso ajudará na coordenação de suas articulações e, assim, a empatia será favorecida e veremos a outra pessoa ‘mais sexy’. Agora, se um dos indivíduos não consumir cannabis regularmente, podemos induzir ansiedade e perder a coordenação das articulações e assim diminuir a conexão”, completa Cantaloube.

E quanto à maconha e “o sexy”?

Em um ensaio publicado em 1971 no livro Reconsidering Marijuana, o astrônomo Carl Sagan, um dos mais renomados cientistas de nossa época e usuário confesso de maconha, escreveu sob o pseudônimo de “Sr. X” que “a cannabis aumenta o prazer do sexo” e “dá uma sensibilidade exótica”.

Sem ser um ás da percepção, podemos inferir que a maconha o fazia se sentir mais sexy. Para Carl Sagan, aquele do Cosmos. Alguma vez você já pensou em Carl Sagan fodendo? Bem, agora eles o fizeram.

Espere um pouco: e o que pensam sobre isso aqueles que trabalham diariamente para “parecer sexys”? Responde (e surpreende) Cuchi Laino, onlyfanera e especialista em sedução: “ Não acho que isso me deixe mais sexy. Sim, gosto muito de fotos e vídeos com fumaça. Eu amo isso e acho que fica sexy. Mas não sei se fumar é sexy”.

Ok, ok, mais alguma coisa? “Sim, na verdade, não gosto do cheiro que fica para trás. Quero dizer, eu amo o cheiro de maconha. Mas o cheiro que fica na roupa e nos dedos, não, não gosto. Então, eu não diria que é sexy”.

A rigor, tudo é uma questão de autoconhecimento, de contexto, de experiências, de companhias e de limites.

Consumo responsável

“A maconha expande seus sentidos e, de alguma forma, torna você mais vulnerável. Você se sente mais e isso pode ser ótimo se você estiver em um ambiente agradável e em boa companhia. E pode ser fonte de insegurança e paranoia em um ambiente hostil e inapropriado”, agita Rieznik.

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Na ocasião, o especialista nas práticas da sedução, está convencido de que “o consumo consciente é a chave para uma relação saudável com estas substâncias e é sempre bom perguntar-se antes de entrar em qualquer coisa, ‘por que o vou fazer?’ ‘Para que?’ ’Com quem?’ Tudo na vida é mais bonito em equilíbrio e com consciência”.

Aí, Laino dobra: “Em relação a fumar e sua relação com a autoestima, por exemplo, não fumo com pessoas que não conheço ou que estou começando a conhecer. Isso me deixa nervosa e mais ansiosa. Quer dizer, é uma coisa que uso para consumo pessoal, para minha criatividade, para me sentir mais relaxada. Mas não sei se recomendaria o churro para levantar a autoestima, porque não sei se é isso que acontece, pelo menos comigo. Na verdade, ele pode jogar contra você, depende de quem”.

Que milagres pedimos à cannabis?

Em resumo, de acordo com Cantaloube, “a cannabis pode ter efeitos positivos e negativos nos comportamentos sexuais, mas esses efeitos podem variar dependendo do indivíduo e da química do cérebro”.

Se os estudos sugerirem que o consumo pode ter efeitos positivos sobre o desejo sexual e a excitação de alguns, esteja avisado de que os resultados podem variar para outros.

Se existe um lado A, existe um lado B: reveses, virtudes e contras.

E na dança inexplicável da atração e da construção do apego, existem processos que funcionam involuntariamente e ninguém, nem a ciência, nem a cannabis, nem o desejo, os controla conscientemente.

Por Hernán Panessi, originalmente publicado no El Planteo.

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Imagem de capa: Unsplash | César Couto.

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